15 de dezembro de 2025

A LINIKER BRILHA COLETIVO: CAJU NO FESTIVAL DE LENÇOIS 2025

O disco CAJU, da Liniker, está celebrando seu primeiro aniversário da turnê de lançamento, com shows ainda mais magnéticos e agridoces. E eu tive a honra de viver essa experiência em praça pública, no interior da Bahia, no seio sagrado da Chapada Diamantina, por entre as rochas sobre as quais eu pari, visceral e poeticamente, o meu filho, 4 anos atrás. 

Em agosto de 2024 nasceu o disco que melhor descreveu aquele momento histórico na vida de tanta gente, em sua maioria pessoas da comunidade LGBTQIAPND+. E, a cada dia que passa, esse álbum se torna ainda mais atemporal, enquanto amadurece junto com as histórias de amor que foram cristalizadas por sua poesia tão profunda e sensível.

Esse show de Lençois, ao qual me refiro aqui, aconteceu no dia 4 de outubro de 2025 e dois dias depois a Liniker lançou o clipe da música “Pote de Ouro”, um feat com a Priscila Senna, que declara que:

“Seria bem mais bonito como eu sonhei um dia, sermos felizes, invencíveis, cê sabia que amor inteiro era tudo que eu queria, mas tudo não passou de uma ilusão. Você perdeu seu pote de ouro, você já sabe que perdeu o seu tesouro, pode chorar, você não vai me ver denovo.”

Quem é CAJU? O suculento disco da Liniker, que dá nome à sua primeira faixa e à sua melhor versão, a sempre afetiva mulher negra e trans, que agora ama com auto-estima. No interlúdio do disco ela nos conta assim:

“Hoje eu aprendi a correr e é por isso que eu acordei e quis me colocar num ônibus com direção ao futuro. E eu pretendo passar o dia me observando, atenta. E peço no fundo do pensamento: Tomara que hoje faça um dia de Sol. E, se houver neblina, que eu seja um sol interno.”

“Agora, com os fones de ouvidos bem ajustados eu sei que eu quero um dia dançante depois de passar por esse estado onde o corpo fica amuado, onde naturalmente eu fico de calundú e me esquivo de qualquer coisa que me atravesse, pela escolha de viver o ranço. Chega! Eu, realmente, prometi ser o Sol hoje, desde o momento em que entrei nesse ônibus.”

“Sorrio ao me imaginar assim, com meu possante na estrada. É preciso ser o retrogosto da boca e ser eterna em alguma memória. Seu nome não é CAJU à toa”. 

“Caju é um filme. Todas as faixas são audiovisuais.” (Lili)

Um filme sobre a dor da rejeição? Não! Sobre o que melhor fazer com ela. É um autovalor dado a si, de forma irrevogável, que faz da rejeição o fogo que quebra a dormência das sementes e as desperta para o enraizamento da vida. 

A primeira cena desse filme, conforme o primeiro clipe lançado, é a música TUDO. Primeiro cenário interno da Liniker. O set é uma cama em habitat natural. Uma carta para uma pessoa que se foi. É um quê de esperança, de fé no destino. Descansar na Natureza. Pouca socialização, por muito momentos nenhuma até, tudo em volta é natural e vivo. Sol, céu azul, floresta em pé, serras, o vale de um rio, travesseiros, LENÇOIS e amigos. 

O possante dela na estrada. A sincronia com os seus. Terminam o clipe com ela encontrando seu eu superior e mordendo o CAJU diante dela. Se esse clipe é o primeiro ato do filme, então ele começou com um pedido de reconciliação. É aquele tudo que se tem a dizer antes de dizer adeus, sabe? É onde se percebe que aprender a sonhar é uma lição individual. Mas, a prova final é coletiva. 

“E se não der pé? Eu não vou desistir. Porque amor pra mim é TUDO.” 

O maior artista nativo de minha cidade (Barreiras/BA), professor da EMUS/UFBA, Alcivando Luz (in memorian), disse em uma canção sua que “pobre de quem não entendeu que a beleza de amar é se dar. E, só querendo pedir, nunca soube o que é perder para encontrar.” E ninguém entendeu isso melhor que pessoas como a Liniker, que cresceram sem amor de pai. A gente sente o gosto amargo da rejeição desde os primeiros momentos da existência e, por isso, não queremos que ninguém que amamos sinta algo parecido causado por nós. 

Então, amamos nos dando MESMO. E corremos atrás da pessoa no aeroporto, como o que ela está fazendo em TUDO. Se é isso que queremos, nós pedimos pra pessoa ficar, pra não voar, pra maneirar um pouco, pra nos deixar na vida dela. Confessamos que daquele abraço não queremos soltar. Óbvio que bancamos o que sentimos. Hoje, depois de uma profunda terapeutização, que fica impressa no álbum. 

Porque antes de suprirmos aqui dentro o que essa ausência do afeto paterno nos gerou, vivemos entregando ao outro isso que a gente sabe que sempre mereceu, mesmo sem ter tido. E a gente também se acostuma em continuar não tendo, inclusive, daqueles para quem nos damos tanto. É que a gente naturalizou vivermos sem prosperidade afetiva, em texturas menos que gostosas, mas não suportamos que quem a gente ame não tenha essa abundância de nós, ainda que não se dê nem ao trabalho de nos olhar com verdade e aceitação. 

Isso é um curso, em alta velocidade no declive, rumo à exaustão emocional. O eterno dar tudo se contentando em receber sempre de pouco. Uma iniciação para a perda da ingenuidade. 

Caju é a nova era de quem vem desse lugar interno. É aquela virada de chave que lhe desperta para a percepção de que é grandioso o nosso poder de amor. Portanto, se não houver uma sincera reciprocidade, se dar vira sinônimo de se desperdiçar. Mas o Sol não se desperdiça, então, chega! 

“Esse disco tem a Caju, mas tem a Liniker cansada de agonia, de papo furado, de ficar querendo de pouco. Esse álbum, ele é próspero como tudo o que eu quero viver.” (Lili) Quando nos centralizamos no eixo do auto-cuidado, o filme da vida amanhece. E o Sol traz essa certeza que o segundo clipe lançado em CAJU nos traz, da música POTE DE OURO. 

“O jeito como eu senti o afeto foi sempre a forma de eu existir em algum lugar. E aí ao mesmo tempo agora é interessante perceber esse afeto amadurecendo. Esse afeto não aguentando mais algumas coisas. Na verdade, agora eu escrevo sobre um afeto que tem auto-estima. Antes eu não tinha.” (Lili)

SIM, MAS COMO FOI O SHOW EM LENÇOIS?

A primeira vez que eu vi a Liniker pessoalmente foi no palco do Rec Beat, em Recife, no carnaval de 2016. Histórico! Foi exatamente na época que eu estava começando a viver minha bissexualidade sem culpa, enfrentando com coragem os primeiros dramas da homofobia. A segunda vez foi agora no Festival de Lençois 2025. 

Tem uma música da Ceumar que ela diz “não querer ser sempre para pra sempre ser”, Liniker é exatamente essa sabedoria viva no palco. Ela é a grande estrela da noite, com suas canções cujas letras o público canta tudo, alto e visceral, por entre lágrimas e sorrisos. Mas, o show dela é uma constelação e todos os artistas presentes no palco tem o seu momento. Até da plateia as estrelas se sobressaltam, como aconteceu com o André e o Jotapê em Lençois, o primeiro pra cantar Zero com ela e o segundo pra dançar e dizer palavras lindas pra gente.

A LINIKER BRILHA COLETIVO. 

O palco é da poesia dela, do patrimônio de movimentos que o corpo dela entrega com muito molho na dança, do swuing preto de suas composições. Mas ela o entrega, com máxima reverência, à música instrumental feita por sua big band orquestralmente impecável. Um show que é pura reciprocidade com o público. Brincadeira. Interação. Uma pista de dança pulsando vida. Vivência gostosa de se brincar. Um banho de folhas que limpa o campo e reseta o ori. Olha pra qualquer um dos lados e a imagem é uma só: PROSPERIDADE AFETIVA. 

Com afeto, 

Fernanda Lucena

Mãe do capoeirista graduado (1ª corda) Bernardo Ayan, aluno da Universidade de Capoeira Sol Nascente. Grávida dele, os dois ganharam juntos o Prêmio Emília Biancardi de Preservação dos Bens Históricos, Culturais, Identitários e Populares da Bahia, via Centro de Culturas Populares e Identitárias da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. Crítica de arte há dois anos na Revista Arte Brasileira, autora da coluna ARREPIOS. Gestora da empresa AFETO PRODUZ Cultura e Entretenimento LTDA. Discente da Pós Graduação em Comunicação Estratégica e Gestão de Marcas (FACOM/UFBA).

@fernandalucenaproduz | fernandalucenaproduz@gmail.com

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