1 de outubro de 2026

De quem é a culpa? (por Fredi Jon)

Por Fredi Jon (Grupo Serenata&Cia) – Tenho me feito essa pergunta com frequência.

De quem é a culpa quando alguém escolhe o silêncio porque sabe que a verdade não será ouvida? Não porque ela esteja errada, mas porque quem a recebe já decidiu se ofender antes mesmo de refletir.

Confesso que, às vezes, penso duas vezes antes de dizer o que realmente acredito. Não por falta de argumentos. Mas porque parece que chegamos a um tempo em que qualquer opinião que desafie uma convicção é imediatamente tratada como ataque.

Será que desaprendemos a ouvir?

Pais evitam corrigir os filhos porque têm medo de traumatizá-los. Casais deixam de conversar sobre o que realmente dói para manter uma paz que só existe na aparência. Amigos preferem concordar a correr o risco de perder a amizade. Na política, muitos não querem conhecer os fatos; querem apenas ouvir aquilo que confirma o que já acreditam.

Então, volto à pergunta: de quem é a culpa?

De quem se cala? Ou de quem tornou impossível falar?

É curioso… Nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade para refletir sobre ela. Parece que o pensamento foi substituído pela reação. Discordar virou ofensa. Questionar virou desrespeito. E pensar diferente passou a ser confundido com falta de caráter.

Não estou defendendo uma sinceridade grosseira. Há verdades que podem ser ditas com respeito, sensibilidade e amor. Mas até essas parecem não encontrar espaço quando o orgulho fala mais alto que a razão.

Talvez o problema não seja a verdade. Talvez seja a nossa incapacidade de conviver com ela quando ela nos desinstala.

E isso me preocupa.

Porque uma sociedade que premia quem agrada e pune quem questiona não evolui. Apenas aprende a representar melhor. Criamos personagens, discursos prontos e máscaras sociais tão resistentes que qualquer palavra capaz de revelar uma rachadura é vista como ameaça.

No fim, continuo sem resposta.

De quem é a culpa?

Talvez de todos nós, cada vez que preferimos proteger nossas certezas em vez de colocá-las à prova. Afinal, crescer sempre exigiu uma dose de desconforto. E talvez seja exatamente esse desconforto que estamos tentando evitar a qualquer custo.

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