Por Fredi Jon (Grupo Serenata&Cia) – Na Serenata & Cia., passei a vida fazendo gente chorar de emoção, suspirar de amor e esquecer da empresa. Mas existe um detalhe que o público desconhece: enquanto os casais vivem momentos inesquecíveis, nós, músicos, às vezes vivemos momentos inesquecivelmente constrangedores! Já enfrentamos instrumentos que morreram em serviço, sapatos que abriram o bico, caixas de som que entraram em greve e roupas que pediram alforria justamente na hora errada. Porque fazer serenata é uma arte, mas chegar ao final do evento com o instrumento funcionando, os sapatos inteiros e a calça no lugar é praticamente um milagre! Afinal, na nossa profissão, o amor pode estar no ar, mas o prejuízo no chão!
Eu já perdi a conta das cordas de violão que estouraram no meio de uma serenata. Parece que elas têm um pacto secreto: esperar o casal chegar ao auge da emoção para anunciar, com um sonoro pá, que chegou a hora de encerrar a carreira. Já tivemos flauta acidentada, saxofone desaparecido e violino que perdeu a voz no meio do expediente. Se existisse um seguro de vida para instrumentos musicais, nossa apólice custaria mais que um piano de cauda!
Em Pinheiros, Paulo esqueceu a flauta sobre o teto do carro. Um barulho o fez lembrar da passageira prateada. Engatei a ré imediatamente, mas era tarde. A flauta caiu, encurvou-se e morreu musicalmente. Não valia a pena consertá-la. Foi-se uma companheira de serenatas, sem direito a velório, nem a última nota mas com testemunhas.
No Itaim, outro músico repetiu a façanha. Eu estava ao celular e não ouvi o barulho. No dia seguinte, ao procurar a flauta, Jayme se lembrou do estranho ruído. Felizmente, o flautista também tocava bandolim. A flauta morreu, mas a carreira sobreviveu. É bom ter um plano B, principalmente quando o plano A foi atropelado!
Mais recentemente, num trabalho de Natal, a bandinha chegou atrasada. O motivo? Um saxofone esquecido na calçada, depois de uma apresentação. Voltaram várias vezes, mas nada de encontrá-lo. O quarteto virou trio, e o músico perdeu o equivalente a muitos meses de trabalho. Nem Papai Noel conseguiu localizar a encomenda!
Nosso violinista Valdemar também enfrentou a rebelião das cordas: duas se romperam durante uma serenata, no começo dos anos 2000. Por sorte, havia um piano na sala, e ele também sabia tocá-lo. A apresentação terminou bem. Quando um instrumento se cala, outro pode salvar a noite.
Mas a pandemia trouxe uma nova categoria de vítimas: os sapatos! Depois de ficarem parados por algum tempo, alguns resolveram abrir o bico literalmente, justamente em pleno evento. Descobrimos que calçado também sofre com o isolamento. Enquanto nós esperávamos a volta dos abraços, nossos sapatos planejavam o divórcio das solas!
As caixas de som também já nos abandonaram em serviço. Pararam de funcionar e tivemos de improvisar. No fim, deu tudo certo. Afinal, serenateiro não desiste.
E houve o episódio da minha camisa branca. Ao voltar da serenata, fui entrar no carro e ela rasgou. A cena devia parecer a do Incrível Hulk entrando no possante, só que em vez de músculos verdes havia um seresteiro tentando preservar a dignidade e o figurino!
O saxofonista também teve algumas calças que não resistiram ao entusiasmo dos movimentos. O tecido cedeu, o desconforto apareceu e a trupe ganhou motivos para rir por muito tempo. Há momentos em que a música toca o coração; em outros, ameaça expor o músico por inteiro!
No fundo, essas histórias ensinam algo. Instrumentos quebram, sapatos se abrem, roupas se rasgam e equipamentos falham. A vida também não segue o roteiro. O segredo é improvisar, encontrar outra saída e não perder o bom humor. Isso porque nem falei do trânsito caótico de SP e as nossas aventuras!!!
Passei a vida ajudando os outros a criar boas memórias. Hoje percebo que até nossos desastres viraram parte delas.
Porque, na Serenata & Cia., nunca sabemos se vamos terminar a noite com aplausos, lágrimas de emoção ou uma reunião de emergência para recolher os pedaços da equipe. Já fizemos serenata com instrumento falecido, caixa de som em greve e sapato pedindo aposentadoria. Só falta um músico chegar ao evento carregando a própria calça debaixo do braço!
A música pode parar, a flauta pode cair, a sola pode partir e a calça pode abrir Mas, enquanto houver história para contar, companheiros para rir e alguém disposto a cantar, a serenata continua.
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