15 de agosto de 2026

A Canção que o Rádio Não Tocou

Era uma manhã de outono em 2003 quando Fredi Jon e Rosana deixaram a Zona Oeste de São Paulo, cruzando a cidade ainda sonolenta. No banco de trás do carro, um violão, um buquê de girassóis e uma ideia ousada.

O destino? O estúdio de uma famosa rádio, onde o radialista Roberto Ricardo — a voz inconfundível das madrugadas paulistanas — fazia seu programa diário. A ideia vinha de Lúcia, uma fã fiel que ouvia sua programação no Japão, dessas que sabem até a respiração entre as palavras do locutor. Mas sua devoção escondia algo mais: um amor calado, um carinho que nunca atravessaria a linha do possível. Como ele era casado, sua justificativa para a surpresa foi nobre: “É uma homenagem dos fãs! Todos estão conectados ao vivo!”

O detalhe curioso era que, naquela época, a rádio começava a testar algo revolucionário: transmissões simultâneas com webcam, permitindo que ouvintes vissem os bastidores pela tela do computador.

No estúdio, enquanto Roberto falava ao microfone, Fredi e Rosana aguardavam no corredor, olhos atentos ao operador de câmera que já estava a postos. Quando receberam o sinal, entraram cantando, a melodia preenchendo o espaço antes mesmo que ele pudesse perceber.

Roberto Ricardo congelou por um segundo, pego de surpresa, e então sorriu — aquele sorriso de quem acaba de reencontrar algo que nem sabia que tinha perdido. A voz da dupla soava como memória e presente ao mesmo tempo, enquanto os acordes do violão de Fredi pareciam sintonizar-se com algo além do som: um instante perfeito, feito de tempo e intenção. O figurino estilo anos 1920 o transportou imediatamente.

Do outro lado da tela, Lúcia acompanhava tudo, vendo o homem de quem gostava sem que ele a visse de volta. Mas talvez não precisasse. O amor, afinal, nem sempre precisa de reciprocidade para existir. Ele se basta no ato de oferecer.

A equipe da rádio se empolgou e virou cinegrafista improvisada. “Isso é histórico!”, alguém comentou. Era mesmo: um gesto simples, mas que só poderia acontecer naquela exata combinação de tecnologia, coragem e coração.

Quando a serenata terminou, Roberto limpou os olhos e sorriu:
— O rádio sempre foi voz. Hoje, virou rosto e alma também. Fredi arrematou: Pois é Roberto, hoje nossa mensagem vem longe, do outro lado do mundo trazendo um carinho coletivo que proporcionou esse momento tão especial pra todos nós.

Os músicos saíram do estúdio como haviam entrado: em silêncio, mas com o coração cheio. Às vezes, as palavras não são necessárias. O sentimento já havia sido transmitido, tanto pelas ondas do rádio quanto pelo brilho nos olhos de quem estava ali.

No fim, ninguém precisou dizer o que estava nas entrelinhas. O amor – seja ele qual for – sempre encontra um jeito de ser ouvido.

Texto de Fredi Jon. Outras histórias você encontra no MINUTO Serenata disponível no site: serenataecia.com.br e no YouTube

Lourdinete: o cárcere que estanca o tempo através de uma realidade outra

Mais digno de ser escolhido éo bom nome do que as muitasriquezas; e a graça é melhor do que a.

LEIA MAIS

A Via Dolorosa de Iaperi Araújo

A Via Dolorosa de Iaperi Araujo Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece.E nasce.

LEIA MAIS

Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa, é inspiração do também Bernardo Soares, cantautor do “Disco

Olá! Eu sou Bernardo Soares, um artista da palavra cantada, compositor de canções que atua a partir de Curitiba, no.

LEIA MAIS

As “Dancinhas de Tik Tok” são inimigas da dança profissional?

Os avanços tecnológicos e suas devidas popularizações presenciadas desde o final dos anos 1990 e início dos anos 2000 se.

LEIA MAIS

Podcast Investiga: Elis Regina em detalhes (com Julio Maria)

O experiente jornalista musical e biografo Julio Maria é autor do livro “Elis Regina. Nada Será Como Antes”. A obra.

LEIA MAIS

Curador Mario Gioia reflete a importância do artista visual Octávio Araújo

(Crédito: Olney Krüse) Os casos ainda muito vivos de racismo – como por exemplo, o que envolveu o norte americano.

LEIA MAIS

Olympia Bulhões: a casa de morada e seus emblemas simbólicos

Não te fies do tempo nem da eternidade que as nuvens me puxam pelos vestidos. que os ventos me arrastam contra.

LEIA MAIS

As tradições culturais do Pará e de Minas Gerais se encontram na banda Tutu com

Bruna Brandão / Divulgação Apesar do disco de estreia ter sido lançado em novembro de 2021, a banda Tutu com.

LEIA MAIS

Podcast Investiga: Por que o rock deixou o mainstream brasileiro? (com Dorf)

As novas gerações se assustam quando escutam que o rock já protagonizou o mainstream brasileiro. Não à toa. Atualmente, o.

LEIA MAIS

A Arte Não Precisa de Justificativa – Ep.1 do podcast “Mosaico Cristológico”

Neste episódio falamos sobre a obra de Hans. R. Rookmaaker – A Arte Não Precisa de Justificativa – e a.

LEIA MAIS