21 de janeiro de 2026

Francisco Eduardo: retratos, andanças e marinas fundam uma poética

Veredas são caminhos abertos, livres
 entre florestas inóspitas ou suaves
 e são símbolos de ruas de escassez
 de cidades com seus bairros de mágoa.
 
                                                   

Fiama Hasse Pais Brandão

1.

Francisco Eduardo nasceu em Santa Cruz do Inharé (1971). Fez curso no Centro Social Urbano. Segundo o artista, tudo começou quando viu uma ilustração de um pintor em uma revista em quadrinhos; logo, encantou-se. Em seguida, não quis mais saber de outra coisa senão das artes visuais.
Francisco Eduardo
Para início de conversa, penso que seja interessante apresentar e ressaltar a sua verve retratista, um dos traços mais fortes da sua obra, tanto no fato de deter uma eloquência bastante original e ungida de vasta competência ao colocar rostos de artistas ou cantores bastante conhecidos do público, como de personagens da literatura.
Com relação ao primeiro conjunto, encontramos retratos de Rita Lee, Zé Ramalho, Gal Costa e Belchior. Exibe-se com grande maestria na arte de retratar rostos e semblantes dos muitos que se expõem para grandes multidões. Não parece ser tão fácil definir o contorno daquele ou daquela que, quase necessariamente, demonstra uma necessidade de um feitio realista, no sentido de que a arte do retrato remonta à Antiguidade, ou seja, detém uma longa história, criando para os pintores desafios como pintar os olhos ou a boca.
Francisco Eduardo
Com efeito, buscar os contornos de um semblante conduz o pintor a remeter a uma linha de continuidade, cujo lastro é a história do retrato, já que foi bastante exercitado, perfazendo técnicas de evocar toda uma necessidade do que já se conduziu. Vejamos o caso de harmonizar o olhar com a boca. Há quem diga ser de difícil diapasão. No caso de Zé Ramalho, percebe-se um indivíduo de grande introspecção, intimista e plácido, revelando um espírito de temperamento sossegado — tudo menos conturbado. Parece que gosta de estar consigo mesmo, compondo, tocando o violão.
Já Gal Costa detém o oposto. Sempre sorridente e simpática, buscando uma discrição, parece que o palco é sua herdade, no qual encontra-se à vontade, com sua voz aguda e grande capacidade de se fazer ouvir e compreender. Ela é do tipo que, logo que encontra alguém, parece despertar a empatia, seja para o grande público ou para os mais íntimos. Assim como o masculino está para Zé Ramalho, o feminino está para Gal Costa. Nenhuma dúvida: logrou êxito ao proceder o retrato dos dois artistas, embora tenha elaborado o retrato de outros cantores e musicistas.
2. Há um díptico plasmado por meio de uma série de elementos extraídos do bioma da Caatinga. São mandacarus com flores, palmatórias floridas, alguns poucos animais desse meio. A expressividade de formas e cores chama a atenção por um diferencial: a mira do pintor encontra-se distante dos elementos conformadores da paisagem. No caso de Francisco Eduardo, isso foi quebrado nas duas telas. As telas são pintadas em acrílica sobre papel Arches 850 gramas.
Francisco Eduardo

Esse díptico, distribuindo cactos de várias espécies, sendo as serras bastante longe, é de extraordinária beleza e faz uso de uma licença poética, pois, na nossa flora, não existem mandacarus amarelos ou vermelhos. Como se sabe, a cor é de um verde escuro. Por outro lado, repito, há o fato de o artista ter posto os elementos que compõem a tela muito perto de quem contempla. O inverossímil acabou por imprimir um efeito de organização inusitada, juntando coisas que não existem na realidade. Não até certo ponto, pois o mandacaru encontra-se cheio de robustas flores.
Gostaria de insistir acerca da forma como o pintor orientou os paradigmas que conformam o conjunto. É no sentido de a flora e a fauna da Caatinga estarem muito próximas ao olhar do espectador. Logo, aquele que se dirige a contemplar, como se estivesse logo rente à tela, chega primeiro do que o resto da paisagem. Ademais, os mandacarus e as palmatórias estão plenos de exquises flores. De outra feita, não predomina o verde nos cactos; pelo chão, uma cotia e uma iguana.
Ora, o que chamamos de licença poética funciona como uma metáfora, um arbítrio, uma convenção. Só existe a partir do momento no qual o artista outorga à tela o chamado real concreto e, por sua vez, incorpora-se à realidade como um acréscimo. Afinal, é do ethos da arte o fato de questionar o que existe e não nos apetece, o que nos chega sem pedirmos, o que — de atribulações — lacera nossa pele, o que nos alcança em enfermidades. Enfim, o que o espírito tem que administrar, de uma forma ou de outra, chova ou faça sol.

A arte tem o papel de exercitar as vicissitudes, por meio de transfigurações, com as quais tentamos alterar o que chamam de realidade.
3.

Vejamos mais um conjunto de telas cujo referente são as marinas. Não são tantas, mas o suficiente para acolher o pincel e a paleta e imprimir como sendo elaboradas por um artista de valor. É possível classificar em três. Essas telas retratam, sob um causticante sol, uma barraca de praia completa de pessoas, sendo que o curioso — e que difere da outra — é o fato de as cadeiras de plástico serem azuis, brancas ou vermelhas.
Francisco Eduardo
Com efeito, o artista conseguiu captar o bulício de, quem sabe, um domingo de praia, com seu efeito de sol bronzeando todos que ali se encontram, com sombrinhas amarelas e verdes. Tudo resguarda a tranquilidade de um céu de azul intenso, com suas nuvens esgarçadas. Na verdade, não é um referente muito comum para ser retratado, mas o que importa são as partes interagindo umas com as outras, deixando entrever sua justaposição de cores; tanto é que estão todos de costas.
Francisco Eduardo
Isso mesmo: o que vale não é o significado, mas o significante, com sua tranquilidade de sair de casa e sentir o bafejar do luminescente sol, sanativo, e também se servir de um vento que sopra, como se fosse para purificar em trajes de banho.
Há de tudo, desde pequenos barcos ancorados até os medianos vistos ao longe. Penso que a Opus Magnum de toda obra é esse pequeno barco com velas pandas, todo azul, seguido de um pequeno barco amarelo. Há uma harmonia nas cores que acompanham essa embarcação: o mar de um azul
Bom observar a claridade que um sol transparente reflete às pequenas ondas do mar, exalando luminosidade por meio da vela branca. Tudo é suave, e o vento também sopra para fazer o barco seguir. Nenhum espectador negaria contemplar e aprovar essa marina.
Além dessa, de fora à parte, existe uma variedade enorme de barcos ancorados ou lançados ao mar. O pintor é um grande mestre em transpor o reflexo solar na lâmina d’água, variando de acordo com a hora do dia ou de como o sol esteja sombreando, simplesmente como um sol no crepúsculo matinal. Essa aludida variedade tanto pode ser mirada bem próximo ou um pouco mais distante; o que importa é a habilidade de desenhar o barco, esteja ele onde estiver.
Francisco Eduardo
 
 

OBS:.As opiniões expressas neste ensaio são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da Revista Arte Brasileira.

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