20 de abril de 2026

Joto Gomo: representações dos sete pecados capitais

Sobre o lado ímpar da memória

o anjo da guarda esqueceu

perguntas que não se respondem.

João Cabral de Melo Neto

1.Joselito Freire de Oliveira, ou Joto Gomo (Natal, 1974), ficou órfão muito cedo: com 7 anos perdeu sua mãe. Era uma mulher alegre, que sempre o levava para participar de festejos populares, sobretudo os que envolviam danças e coreografias. Ela era uma pessoa com grande ânimo de viver, gostava de apreciar os bons momentos que a vida, quando distraída, deixa cair do seu bisaco de esmolas, oferecendo a um ou outro nacos de alegria e ofertando raros momentos com parcimônia. Parece que a vida acha que somos baratas para gostar de farelo, de migalhas. Avara, a vida. Sempre foi.

Ora, quem não sabe que a vida é parcimoniosa, amarrada e miserável para com todos? Os que levam ou trazem a sorte são raras exceções. Que ninguém se engane: sorrisos com taças de líquido, em fotos nas redes sociais, nada comprovam, nada dizem para quem é observador da desarmonia entre os olhos e o vinco entreaberto da boca. Que dentes são esses que se permitem o tempo inteiro ser mostrados em sorrisos artificiais? Quem for tolo que engula tanta frescura.

No palco da vida, onde cada um encena seu papel como se fosse a presença de um arquétipo vivo e pulsante, às vezes mal chegado das regiões onde os nossos alicerces sustentam baldrames, somos jogados na cena da existência. A mãe de Joto Gomo era uma referência nas famílias dos dois lados. Adorava uma festa, uma desculpa para organizar um evento com amigos e parentes. Infelizmente, partiu cedo. Somente adulto, Joto Gomo foi compreender o comportamento daquela mulher: uma representante do feminino que estava bem à frente do seu tempo.

Voltemos ao itinerário existencial do nosso grande artista. Estudou na Escola Clementino Câmara, na Alexandrino Câmara, a 1ª série. Teve um encantamento ao descobrir revistas em quadrinhos. Logo, ele se voltou para as histórias de Tex Willer (criado por Gian Luigi Bonelli e Aurelio Gallepini, em 1948), com seu amigo Kit Carson, seu filho Kit Willer e o índio navajo Jack Tigre. Cada revista apresentava uma história diferente, cheia de peripécias e limites para o herói Tex Willer; contudo, ele acabava vencendo os obstáculos impetrados pelos bandidos ou representantes do mal. Uma das principais coisas que chamavam a atenção, além dos refinados desenhos em preto e branco, eram as capas coloridas, com o herói sempre atento sobre seu cavalo e com seu revólver em riste, não abrindo a guarda para ninguém. Há de se citar outra revista com outro herói: Conan, o Bárbaro.

Provavelmente,a nunca houve quem superasse, no grafismo do desenho, esse herói. Suas revistas detinham apenas uma história, organizando toda uma cultura western, não deixando nada de fora do Velho Oeste. Esse cowboy, cujo apelido era “Águia da Noite”, não era apenas desenhado por um artista, mas por vários ao longo do tempo. Essa gramática de difícil trato no manuseio do preto e branco, com desenhos extremamente requintados, delineava semblantes, cavalos e uma incrível verossimilhança com a realidade da vida nos confins dos Estados Unidos ainda em formação, mais precisamente no Texas.

O artista Joto Gomo era muito afeito aos tios, pois eram eles que faziam seus brinquedos, tais como carros de lata de flandres, caminhonetas, carros de feira e caminhões. Festas populares, como São João, quadrilhas ou Carnaval, também marcaram sua infância. Frequentou vários circos. Tinha ainda predileção por dançar determinadas músicas, tais como Peneiro o Xerém (“sacoleja, sacoleja, eu não vou criar galinha para dar pinto para ninguém…”).

2.Gostaria de tecer considerações acerca da mais recente série do artista: Os sete pecados capitais. Minha referência teórica, meu ponto de vista, concerne não ao aspecto religioso, mas a como a Igreja Católica soube organizar o que ela indigitou como pecado. Para mim, isso não faz qualquer sentido. Minha relação com as coisas ditas sagradas pode até passar por alguns códigos pertencentes aos católicos, visto que recebi uma educação nessa religião. Sinto-me um tanto cristão.

Embora, logo cedo, refratei seus discursos prontos e plenos de hipocrisia. Admito que ainda é a Igreja Católica que mais me desperta simpatia, por deter um culto mais calmo e menos histérico do que as demais, principalmente a dos evangélicos de hoje em dia, que se abrem em cada esquina, em cada garagem, e todo mundo é pastor e pastora sem ter passado por uma formação mais sólida em algum seminário. Além disso, tais líderes quase sempre estão enfronhados com processos de toda natureza: do dinheiro ao assédio sexual. É uma cachorrada só.

Os sete pecados capitais são um conjunto de normas ditadas para o comportamento dos seguidores do catolicismo. Quem leu os quatro Evangelhos e refletiu sobre o que pregou Jesus Cristo não precisa ter em mente, não precisa decorar essas noções de pecados, que seriam como vícios-mães dos quais emanariam os demais pecados. O que quero dizer acerca dos Evangelhos é que a negação desses sete comportamentos já está implícita na eloquência do nosso profeta Jesus, com suas parábolas e, antes de tudo, seu modo de ser e de agir.

Vejamos como podemos remeter à História da Igreja Católica. Os textos foram organizados pelo papa São Gregório Magno (século VI) e depois por São Tomás de Aquino (século XIII), que foi mais sistemático, acrescentando detalhes. Eis os sete pecados capitais:

Soberba (Orgulho)

Avareza (Ganância)

LuxúriaIra (Vingança ou Raiva)

Gula (Desordenado para comida)

Inveja (Ressentimento)

Preguiça (Acídia, desinteresse ou aversão ao trabalho)

Há de se compreender que essas sete infrações podem ser combatidas pelos seus comportamentos antípodas, ou seja, o que fomos habituados a reconhecer como correto e, sobretudo, desejável, já que se inscrevem como virtudes ou como agentes do bom senso, tanto do ponto de vista moral quanto do religioso.

Assim pensando, podemos arrolar esses atributos aguardados no comportamento dos indivíduos, para que se consolidem formas de interações sociais mais desejáveis e sensatas, conduzindo a uma sociedade com mais confiabilidade, transparência e livre de vícios arraigados desde sempre: humildade, generosidade, castidade, paciência, temperança, caridade e diligência.

Joto Gomo

3.A Soberba (orgulho) é algo irracional, no sentido de que é muito mais um transtorno de personalidade, na medida em que é eivada de pura emoção, da mais larga ausência de humildade. Ao que parece, mesmo que não se queira agir de forma sobranceira, pensando que se é superior a tudo e a todos, o fato é que acaba escapando sempre do controle. Volta à estaca zero, de pessoa intratável, insuportável.

De certo modo, a depender de com quem convive, pode passar por um tolo, conversando bobagem e contando vantagem acerca de si. Sempre às voltas com falas a respeito de dinheiro e do que isso o conduz a ser superior a quem estiver à frente. Talvez, no fundo, sofra uma grande solidão, pois não há quem acredite no que diz. Como o risco que corre o pau, corre o machado: há de encontrar no caminho uma pessoa que esbarre e retire sua máscara de prepotente.

A tela que representa a Soberba coloca em foco o narcisismo exacerbado de múltiplos rostos masculinos e femininos, imponentes em sua altivez de se mostrar atentos na preservação de sua empáfia. Embora a tela seja composta por muitos elementos, é possível ver o contorno de bocas e olhos atentos ao mundo que cerca os soberbos, vigilantes em sua afetação negadora de qualquer naco de humildade, deixando-se submeter pelas ordens internas para que sejam comprovadas, a todo instante, sua imodéstia e sua superioridade.

Dá para perceber uma enorme quantidade de falos, desde sempre representantes do masculino e do poder. O soberbo faz uso dessa pertença de conter em seu corpo algo que fala da sua superioridade, do sobranceiro face aos semelhantes. O símbolo fálico é, por excelência, aquilo que organiza a superioridade do masculino em relação ao feminino. Isso não quer dizer, de jeito nenhum, que a Soberba também não atinja as mulheres.

A bem da verdade, o fato de deter em seu corpo todo um aparato de ornamentos já diz de um querer: por estar com roupas da moda, de um querer erguendo-se para disputar com as demais mulheres. Essa é uma manifestação da Soberba, na medida em que aquela que assim se comporta (não são todas, é claro!) está ataviada de puro orgulho, ancha de si e imaginando seu prestígio pessoal face às demais.

Joto Gomo

4.A Avareza (ganância) é a sujeição aos mandos internos de reter para si não apenas o que diga respeito aos objetos de valor, concentrados em sua forma mais material e tangível, como o dinheiro, mas também a uma atitude cujas razões são mais profundas, na medida em que se define como um traço da personalidade. O avaro sente prazer em possuir e acumular, patrulhando-se para não deixar nada fora do controle.

O avaro compraz-se em pastorar, em se autopastorar, melhor dizendo: busca uma forma de viver na qual nada foge às expectativas de uma rotina em que as moedas a serem gastas já estão contadas.

Na tela, representando a Avareza, observamos três braços lançados para o alto, à guisa de metáfora dos que são avaros, quer dizer, seus objetos de prazer e de retenção.

Há uma figura feminina no extremo-direito do quadro, com pequenos retângulos evocadores do dinheiro. Sustenta, com ardor e cuidado, aquilo que lhe pertence, recebendo os ditames internos para gastar o mínimo possível, para não dividir, para não ajudar ninguém. Retém com detalhes o movimento dos seus cartões e da sua conta bancária, para nada fugir ao controle, para nada deslizar para o imprevisível, para tudo ocorrer consoante uma disciplina interna que a deixa contente.

Com efeito, no plano amarelo ocupando cerca de 30% da tela, justo onde estão os braços em paralelismo em três alturas distintas, a linha da semilua é preenchida por pequenas casas brancas com tetos vermelhos, sugerindo o domínio sobre os bens materiais amealhados ao longo do tempo, preservando com forte pendor uma espécie de ânsia e cuidado para não perder de vista.

Joto Gomo

5.A Luxúria caracteriza-se por um pendor exagerado e intenso para alimentar os desejos descontrolados com as demandas da carne. Ou seja, o sexo é usado sem nenhuma moderação ou sem a dignidade de servir como prazer para ambas as pessoas envolvidas. Firma-se com uma intensidade sem freios e com permanente fixação nos desejos que o corpo pede, pouco se importando com o outro. O que interessa é sua lubricidade egoísta, valendo sempre como uma oportunidade de usar o corpo alheio, nunca pensando que as bodas do sexo com o afeto são o ideal para a maravilha de quando sucede esse casamento perfeito. Infelizmente, quase nunca isso acontece.

A Luxúria é mais comum do que se pensa, seja entre solteiros seja entre casais. Lateja o permanente desejo com o seu cortejo de abusos, como se não apenas aplacasse seus desejos mas também fizesse da outra pessoa um objeto, pouco se importando com o que sucede na cabeça da outra pessoa.

A tela que procura organizar o pecado da Luxúria estrutura-se sintomaticamente a partir do manuseio de duas cores. Os dois corpos nus, um de frente e outro de costas, estão pintados de amarelo, vermelho e laranja. Todas essas cores evocam a cor da terra, ou seja, o ocre, o barro, que no imaginário remetem à carne, ao sexo, ao pisar na realidade, ao objeto concreto. Essas duas personagens estão dentro de um contorno azul que depois se divide em dois; cada pessoa nua detém, por sua vez, um retângulo.

Consabido é também o fato de que a cor azul, nas vastas planícies do imaginário, simboliza o oposto do ocre, quer dizer, a cor do céu, da imaginação, do que não é tangível. Lembremos da tela de Rafael intitulada Escola de Atenas (1509–1510), na qual Platão aponta para o céu e Aristóteles aponta para a terra. Há um jogo nas vestes de ambos: Aristóteles veste um manto azul; e Platão, um manto vermelho, mostrando que o ideal, o mais sensato, não são os extremos, mas quando ocorre a consubstanciação, o encontro das duas cores representantes das dimensões que fazem parte da condição humana.

Vejamos a tela: no lado direito, está uma mulher morena com fartos seios à mostra, pintada de amarelo e com o corpo em um intenso e belo vermelho. Seu colar de pérolas denota sensualidade. No primeiro plano, podem-se ver vários conjuntos de duas pernas, como se pertencessem a pessoas diferentes, insinuando a possessão do corpo da mulher por pessoas distintas, fazendo valer a quantidade de uma lascívia insaciável e em permanente fogo que nunca se apaga, assim, feito fogo de monturo, sempre queimando sem elevar labaredas. É frágua emanada de ordens interiores, de lugares que ninguém sabe onde se encontram, sabendo apenas que deve se satisfazer pela quantidade de relações sexuais.

Joto Gomo

6.A Ira é um estado no qual o indivíduo perde o controle de si, deixando-se possuir por intensa cólera, acabando por fazer o que, em sã consciência, jamais seria capaz de praticar, magoando quem não merece. Destila não só palavras mas também parte, muitas vezes, para a agressão física.

Há de se proceder a uma distinção para compreender como a Ira funciona: é suficiente cotejá-la com a raiva. A raiva está, até certo ponto, dentro de uma expectativa, a depender da situação na qual o sujeito se encontra ou foi provocado por outrem, pois ninguém é habitado vinte e quatro horas pelas leis da temperança, estando em permanente vigília do autocontrole. Somos vulneráveis em tudo o que se refere às nossas emoções e à maneira como procedemos em demonstrar ou expressar nossos sentimentos.

A tela que representa a Ira está plena de signos que remetem à violência, tais como uma mão com uma faca, um seio suturado, como se tivesse sido ferido e, por necessidade, acabou por se tornar uma cicatriz profunda. Grilhões aparecem para insinuar as prisões físicas ou metafísicas, as relações tóxicas calcadas no ódio ou em uma intrínseca necessidade de massacrar o outro pelas palavras, pelo ciúme e pelo controle sobre o cônjuge.

Na verdade, todo esse comportamento de Ira em um relacionamento amoroso não passa de uma projeção do ego de quem impera seus transtornos mentais. O rosto do lado direito está com uma lágrima escorrendo, também ferido do lado esquerdo. Sobre a cabeça, uma porção de setas amarelas simboliza a opressão; ademais, existe uma nuvem com três facas apontando para a cabeça.No livro de Efésios, podemos encontrar uma passagem que conclama a todos para que “toda a amargura, e ira, e cólera, e gritaria, e blasfêmias, e toda malícia sejam tiradas de entre vós” (Ef 4:31). O narrador apela para a benignidade de cada um para com seu semelhante, evitando o desregramento das palavras quando possuído pelo ódio que a ira faz imperar.

Joto Gomo

7.A Gula (desordenado para comida) está representada por personagens que se excedem no ato de comer. Nunca se fartando, nunca o que têm para comer é suficiente, nunca há ordens internas pelo chamamento à temperança e à disciplina. De outra parte, também é um vício que muitos têm: uma dependência do alimento, sem qualquer estribeira, lançando o indivíduo a acrescentar mais uma comorbidade sem que seja preciso.

Acontece que, subjacente a essa mania de tudo devorar, repousa uma personalidade com alto índice de ansiedade, de inquietude, de desassossego de espírito, seguindo sempre em direção a comer, em uma tentativa inconsciente de sublimar, de operar uma transferência para buscar uma espécie de cura. Mas é justamente aí que repousa o que o conduz a pungir, a engordar, a passar de seu peso médio, tornando-se um peso para si próprio, carregando um corpo que, diante do espelho, não se reconhece direito como se fosse ele.

A tela que expressa o pecado da Gula mostra uma personagem do lado direito contendo em seus braços uma série de potes e garrafas; parece que está comendo algo. As cores em listras vermelhas e amarelas também se repetem na cabeça, ou seja, passam a impressão de que mente e corpo são a mesma coisa.

Que é uma coisa só, é desnecessário repetir, mas estamos pondo no pior sentido do termo: fazendo saber que o corpo sobrepuja as tendas protetoras de uma sensata separação, na qual existe a temperança, na qual o bom senso clama por evitar uma desmedida vontade de acabar como um indigente, não como um sujeito livre, regido pelas sensatas leis da sabedoria acumulada na memória e usada pelos artifícios da mente, consoante a necessidade de um corpo em busca de uma presença mais saudável.

Com efeito, seus longos braços não se conformam em permanecer do lado esquerdo, mas invadem o espaço do lado direito, com as mãos plenas de cajus e talhadas de melancias, metaforizando o que devora qualquer coisa, desde que seja alimento. As frutas encontram-se no lugar de tudo o que vem a representar o objeto do vício: o dependente de açúcar, de carboidratos, de refrigerantes, de tudo o que é veneno ofertado pelos supermercados e pela indústria de alimentos, com seus aditivos químicos para chamar mais a atenção dos que percorrem as gôndolas, nem sempre comprando o que levaram em uma pequena lista.

As propagandas, os anúncios por toda parte, só existem porque existe aquele que vai consumir, que vai comprar, que vai levar para casa. Os armários sempre estão vazios, nunca nada chega. Assim, sem freios, resta um indivíduo deformado em um corpo obeso, tudo causado pela ausência de controle, pela falta de domínio sobre essa mania sôfrega de estar sempre pensando em comida.

Joto Gomo

8. A Preguiça (Acedia)

A tela que expressa a Preguiça é uma rede armada, rodeada por uma série de adornos que não parece acrescentar muita coisa àquele que escolheu a apatia de se espreguiçar. A rede, herança dos povos autóctones, era usada para o repouso após a labuta da caça, da colheita de frutos na floresta ou da ocupação com a agricultura.

Porém, nem tudo são males no contexto da Preguiça. Existe o ócio, o tempo livre, o tempo em que se permite não fazer nada, o que chamam de “matar o tempo”. E ele pode ter grande valor, se conseguirmos edificar algo com o chamado “ócio criativo”: produzindo dentro de casa, arrumando o que foi deixado se perder, ou ainda ocupando o tempo com a elaboração de obras de arte.

Este é um modo de ocupar o vazio, não com a indolência, não com uma apatia que nada conduz, sem valor para si ou para quem está perto. No “ócio criativo”, sempre estão presentes as veredas da intuição, de sentimentos que encontram, no fim desses caminhos, o espaço para exercitar a criatividade. Está plasmando um objeto de arte, resultado da intuição ou elaborado a partir de uma teoria da arte, do conhecimento do desenho, do manuseio das sombras, dos semblantes ou da perspectiva, se for o caso de uma expressão que remete à tradição e à história da arte.

Em suma, podemos constatar que a Preguiça e o “ócio criativo” são parentes com feições muito próximas, na medida em que o Tempo é comum a ambos. Contudo, uma tem relação com o desleixo e a inércia, enquanto o outro procura ocupar o tempo com algo edificante, acrescentando uma coisa boa à realidade. É o tempo do artista diante de uma infinidade de elementos que podem ser, paulatinamente, organizados de uma forma. Podemos citar como exemplo a pintura: existe, inicialmente, a vontade, o querer deixar-se possuir pela ideia de algo delineado em traços, riscos, nacos, hiatos, na cabeça.

Enfim, o trabalho é iniciado com ânimo para chegar até o fim. Desconhece a apatia e a procrastinação inerentes à guarita da Preguiça. Deixa-se conduzir pelo tempo livre, edifica algo que tem a ver com o criativo e com a expressão de emoções adormecidas no interior. Sente-se contente ao contemplar o que foi capaz de construir, com uma nesga de tempo que havia no cotidiano.

9. A Inveja (Ressentimento)

Acredito que seja o mais complexo sentimento sobre o qual discorremos. Ter inveja não é querer o que o outro possui: joias, dinheiro, apartamentos amplos e decorados com móveis de estilo. Na verdade, é querer que o outro não tenha aquilo que o olhar do invejoso contempla. Ele não brilha e não quer que o outro também brilhe.

Não escreve, não faz arte, nada edifica. E pronto: também não quer permitir que ninguém o faça, passando a destruir por meio de discursos falsos acerca do que imputa injustamente como seu oponente. Ora, quase sempre quem é vítima do invejoso nem tem conhecimento do ódio que ele carrega, e passa a destilar com grande fúria, sempre salientando os defeitos.

É especialista em encontrar qualquer mínimo deslize do invejado. A energia da inveja é completamente desperdiçada, inútil se gastar ocupando o tempo com o que não lhe diz respeito, chafurdando na vida alheia e esquecendo a sua. Melhor seria desviar os olhos de determinada direção e empregar essa voltagem de energia em algo produtivo, edificante, que lhe desse prazer.

É mister tratar da tela que representa a Inveja. Em uma simetria bilateral, os elementos estão divididos considerando o invejoso e o invejado. A personagem do lado direito, ornamentada com bandeiras negras, representa o sombrio de forças abissais, emanadas do lado negro daquele indivíduo que olha de través, visivelmente incomodado com a personagem do lado esquerdo que se refastela com grandes cajus vermelhos e plantas fincadas em vasos.

Com efeito, parece querer dizer que tudo o que conseguiu foi fruto da labuta com a terra. Uma mulher carrega na cabeça algo da terra, acompanhada de uma menina, demonstrando o amor ao trabalho e a valorização de se labutar com honestidade para que prospere e floresça uma seara com fartura de frutos. Como o chão é seu, como faz com dedicação e amor, surgem as bandeiras brancas (opostas às negras do outro lado), significando que basta a família dele como segadora.

Para encerrar, vejamos o que está escrito em um dos livros sapienciais, Provérbios: “O coração com saúde é a vida da carne, mas a inveja é a podridão dos ossos” (Pv 14:30). Em suma, o invejoso não quer o que você tem. Ele quer que você não tenha.

10. Por fim, falemos um pouco acerca da noção de pecado criada e difundida pela Igreja Católica aos seus praticantes, também a quem quisesse ouvir esse discurso pronto, dando cabimento ao que é pouco visto, tangível, na realidade. O que se enxerga é a hipocrisia: faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.

É bom ter algumas informações para que fiquemos mais antenados com as formas de controle social, seja pela política seja pela religião. Foi assim desde que o mundo é mundo. Mas tudo que sobe, depois desce. No estado do Rio Grande do Norte vemos o definhar, estrebuchando, das oligarquias. Restam alguns farelos de uma e de outra. A cobra sempre acaba engolindo o rabo. O ciclo se fecha. Cadeia e processos recaem sobre gente envolvida na política.

Vejamos como a organização ocorreu de maneira muito sistemática e detalhada, provavelmente com o intuito de infundir o medo e fixar os papéis sociais em enclaves temáticos de um grande círculo com um perímetro muito comprido. Há de se observar a retórica e as atitudes no cotidiano. Todo mundo sabe de frente para trás e de trás para frente. Mas, como os humanos sempre preferem uma mentira à verdade, opta-se pelo que causa dor e sofrimento, inclusive somatizando tudo o que não é bem resolvido ou aceitável de bom grado nos distritos pertencentes às áreas que não se enquadram ou são diferentes da maioria.

Falo sobremodo da não aceitação do corpo, da não aceitação de si como se é, quando já nasceu com alguma limitação ou quando sucede ter algo que não se encaixa nos padrões de beleza, resultado de uma exacerbação que as redes sociais cruelmente exigem a um preço alto. Toda a estrutura que diz respeito aos chamados pecados está incluída nesse esquema mental que obriga as pessoas a se relacionarem, mesmo que não queiram, com o Deus da Bíblia:

Pecados veniais: enfraquecem a relação com o Altíssimo, tais como mentiras leves.

Pecados capitais: são espécies de vícios-mães, matrizes que proporcionam o nascimento de outros pecados. Eles rompem a relação com o sagrado: assassinato, adultério e roubo.

Para encerrar, vejamos cada Arcanjo que decaiu do céu pelo comando do Arcanjo Miguel, quando da rebelião impetrada por Lúcifer ou Satanás:Lúcifer (Orgulho), Belzebu (Gula), Leviathan (Inveja), Asmodeus (Lúxuria), Belphegor (Preguiça), Mammon (Ganância), Azazel (Ira)

E assim a humanidade caminha, sem saber para onde.

 

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