15 de outubro de 2026

Uma história que esperou 200 anos para ser contada – Por Victor Mascarenhas

Há 200 anos, mais precisamente no dia 7 de setembro de 1822, nas margens plácidas do riacho Ipiranga, D.Pedro deu um brado retumbante e declarou a Independência do Brasil, revoltado com cartas vindas de Portugal. Todo mundo conhece essa história e personagens como a princesa Leopoldina e José Bonifácio, mas pouco se sabe sobre a aventura do correio geral da Corte Paulo Bregaro e do major Antônio Cordeiro, os mensageiros que levaram as cartas ao príncipe. Essa viagem da dupla de mensageiros é o eixo central do meu novo livro, “Sete dias em setembro”, um romance histórico que tem como cenário um dos períodos mais turbulentos da historia do Brasil e do mundo.

A proposta do livro não é recontar pela enésima vez a narrativa oficial. A ideia é levar o leitor para uma aventura num país que lutava para começar sua própria história, num cenário que tem muitos paralelos com o Brasil atual, que de tão polarizado mal conseguiu comemorar o bicentenário da independência em 2022.

Naquela época, o país também vivia um momento de polarização política muito violenta, tendo de um lado os defensores do velho regime, onde o rei tinha poderes absolutos, e do outro os defensores da independência e da adoção de uma constituição liberal. Era uma guerra ideológica cheia de episódios violentos, fake news, xenofobia e oportunismo, exatamente como hoje. E o Brasil não estava isolado do contexto internacional, já que essa polarização entre os absolutistas e liberais vinha causando grandes transformações desde as revoluções francesa e americana, décadas antes.

O livro é dividido em sete partes, uma para cada dia da semana que antecede a independência, e coloca o leitor na garupa dos mensageiros, que fizeram o trajeto da Corte no Rio de Janeiro até São Paulo, onde estava o príncipe, em cinco dias, praticamente metade do tempo usado para fazer o mesmo percurso em condições normais. A viagem da dupla transforma-se numa jornada perigosa, onde os mensageiros são obrigados a enfrentar salteadores, opositores da independência e inimigos do príncipe, enquanto cavalgam desesperadamente para alcançar o imprevisível D.Pedro e vão sendo transformados pelo que conversam e veem nessa viagem pelo interior do país.

Contado pela ótica dos coadjuvantes, “Sete dias em setembro” resgata personagens reais e pouco conhecidos, como o velho conde holandês e general de Napoleão Dirk van Hogendorp, que vivia exilado na floresta da Tijuca e era conselheiro informal de D.Pedro; Plácido, o alcoviteiro e sócio de Pedro; o agiota Pilotinho, credor de 12 contos de réis emprestados ao filho de D.João VI e Carlota Joaquina; o frei Arrábida e dona Maria Genoveva, respectivamente o preceptor e a governanta que acompanhavam Pedro desde criança; o maestro Marcos Portugal, professor de música de Sua Alteza; o poeta Evaristo da Veiga, autor dos versos do Hino da Independência; o cônsul britânico Henry Chamberlain; o incendiário jornalista baiano Francisco Gê Acaiaba Montezuma ou Maria do Couto, a dona de uma estalagem em Cubatão que ofereceu chá de goiabeira para amenizar os efeitos da famosa dor de barriga que acometeu o futuro imperador do Brasil às margens do Ipiranga.

Apesar de não protagonizar diretamente o livro, tudo acontece ao redor e por causa de D.Pedro, um personagem que briga, cavalga, seduz mulheres, tem explosões de cólera, crises de arrependimento, falhas de caráter e se mete em confusões inacreditáveis para um príncipe herdeiro. Partindo desse herói que mistura Macunaíma com Maquiavel e D’Artagnan com Pedro Malasartes, busquei como referências estéticas e narrativas para este livro três obras clássicas da literatura que tive o prazer de revisitar durante o processo de escrita: “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes; “Os três mosqueteiros”, de Alexandre Dumas; e “Memórias de um sargento de milícias”, de Manuel Antônio de Almeida. A estrutura folhetinesca, o ritmo de aventura, o humor e a linguagem de “Sete dias em setembro” são tributários diretos dessas obras.

Mesmo sendo ficção, um romance histórico tem a obrigação de respeitar os fatos como estão documentados pelos historiadores e posso assegurar ao leitor que todos os eventos históricos mencionados no livro foram exaustivamente pesquisados e checados em diversas publicações, sites e matérias, algumas delas indicadas por amigos e grandes escritores, como Antonio Risério, que contribuiu com seus livros e valiosas dicas sobre onde e como pesquisar, e Manoel Herzog, que ajudou bastante na reconstrução da geografia da baixada santista do século XIX. “Mascarenhas, com erudição e verve, cria uma narrativa onde o leitor vai encontrar o contemporâneo entrelaçado aos momentos do passado, como a nos provar que a História é um ciclo de repetições, muitas das vezes perversas” – diz Herzog, autor de “Boa noite, Amazônia” e “Companhia brasileira de alquimia” – “Para compreender a situação atual, o flerte com o abismo fascista, os séculos de exploração predatória, as sacanagens urdidas nas madrugadas do poder, a sucessão de machismo, espoliação, exploração do mais fraco, usurpação do trabalhador, é um livro necessário”, conclui o autor do recém-lançado “Língua submersa”.

Dito tudo isso, agora é com você, futuro leitor. Foram mais de três anos de trabalho, incluindo viagens de pesquisa, dezenas de livros consultados e muitas horas de escrita para concluir o desafio de construir um romance histórico que fosse fiel aos fatos, trouxesse uma visão política que nos ajudasse a entender nosso passado e nosso presente, com uma narrativa prazerosa e divertida para os leitores. Parafraseando D.Pedro, espero que, para o bem de todos e felicidade geral da nação, eu tenha conseguido. 

“Sete dias em setembro”, de Victor Mascarenhas

Editora: P55/Cafeína

Compre seu exemplar direto com o autor, pelo email victor.cafeina@gmail.com ou pelo Instagram @victormascarenhas.1

Para cada parte do livro há uma capa específica; confira:

Victor Mascarenhas por Ari Capela

Capa da matéria | Capa do livro: Crédito – Jorge Barreto

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