Um dia de sol, um belo amanhecer, um encontro de amigos, uma casa de praia…
Como uma legítima sagitariana, eu busco profundidade nas conexões, e surpreendi meus amigos ao transformar um encontro de amigos em uma reflexão filosófica sobre o tempo e o legado. Pelo menos eu fui surpreendida com algum nó na garganta que insistia em ficar! Mas isso é assunto para os próximos parágrafos!
“Ando devagar porque já tive pressa, e levo esse sorriso porque já chorei demais…”Assim começam os versos da música que escolhi pra esse encontro.
E eu escolhi a música “Tocando em Frente” para registrar esse momento. Essa é uma canção do agora e do caminho. Normalmente dizem que a música que a gente escolhe é a trilha sonora da nossa vida.
Julio Nardelli, 50 anos, ao ouvir os primeiros acordes dessa música, diz sentir “uma paz muito grande”. Marca bastante, de você estar com a mente tranquila, estar de bem com você mesmo para ser feliz e poder levar essa felicidade para os outros também, ele complementa ao se referir ao trecho “É preciso paz para poder sorrir”.
Paz como presença reflete a busca por um estado de espírito que transcende a correria do cotidiano e as obrigações que nos fazem estar em constante alerta e frenesi, em uma busca incessante por qualquer coisa, qualquer coisa mesmo que está normalmente bem distante da paz, mas vivemos em uma falsa visão de materialização futura ancorada em um sonho de paz e felicidade que parece nunca chegar.
Onde será estar essa paz no nosso dia a dia que nos faça sorrir verdadeiramente? E essa pergunta agora é pra você, caro leitor!
A vida nos exige, muitas vezes, um reajuste de passos, quando fatos inesperados ou “naturalmente” esperados nos obrigam desacelerar e valorizar o agora. Falar sobre o tempo. Pergunto para o Itamar Marques, 41 anos: em que momento da vida você percebeu que precisava andar mais devagar?
Ele nos conta sobre um fato que aconteceu recentemente quando teve uma síncope e desmaiou, devido ao alto nível de estresse. Para quem o segurou nos braços, desmaiado e coberto de sangue, achando que já não estava entre nós, confesso que chega a me estremecer o corpo só de lembrar…
Ele complementa: “Isso fez com que eu repensasse as coisas e tentasse curtir um pouco mais a vida, aproveitar enquanto se está vivo. A gente não sabe o dia de amanhã.”
Essa reflexão se conecta diretamente ao tema da música “Tocando em Frente”, servindo como um exemplo prático de quem está aprendendo a “andar devagar” após sentir o peso da urgência.
Ao dizer que “ainda anda um pouco com pressa”, ele admite que desacelerar é um exercício contínuo e não uma mudança imediata. Devemos nos preocupar? Cuidado aqui, caro amigo, pois o hábito é um mestre vagabundo. É mais fraco do que a força da vontade e da mudança, na maioria dos casos!
Não pensem que foi fácil pra mim conduzir essa reflexão entre amigos sem mexer com meus mais profundos sentimentos…o meu “tocar em frente” aflorou e resgatou memórias há tempos engavetadas em meu baú de vivências.
E naquele momento, sentados ao redor daquela mesa de madeira, olhando pra piscina onde lá se divertiam nossas crianças, eu como mãe que também sou, direcionei para ela, nossa misteriosa Poline Nardelli, 48 anos, o seguinte trecho: “É preciso amor para poder pulsar… é preciso paz para poder sorrir… é preciso a chuva para florir”. Quem é o amor que faz pulsar seu coração hoje?
”Meu filho, 200%. A gente orbita em torno do Luiz, ele é filho único, neto único da minha família. É tudo por ele e para ele.”
Um minuto de silêncio talvez fosse pouco pra refletir o intenso brilho no olhar dela…
Sem mais palavras!
Se a sua vida fosse uma estrofe dessa música agora, você estaria na parte de “carregar o dom de ser capaz” ou na parte de “conhecer as manhas e as manhãs”?
Eduardo Oliveira, 40 anos, tratado por todos como Dudu, vem de uma família do norte do Paraná, pai e mãe moraram na favela, sempre trabalhando para dar o básico. Não teve estudo, mas aprendeu a “resolver as coisas”. Veio de um mundo que o forçou a fazer a diferença para mudar a realidade da própria família. “As pessoas vinham até mim como alguém que conseguia iluminar, fosse uma ajuda, uma ideia ou um abraço.”O dom de ser capaz é o local quentinho onde habita nosso amigo Dudu.
Ele habita o lugar do “eu consigo”, o que o torna um porto seguro para os que estão ao seu redor.
Tocar em frente é sobre, acima de qualquer coisa, encontrar o limite entre ser útil e ser leve.
Quando a busca por ser útil se torna uma pressão externa, a vida perde a “paz necessária para poder sorrir”.
A música sugere que a sabedoria não está em evitar as tarefas, mas em mudar o ritmo em que as realizamos. A leveza surge quando aceitamos que nem tudo precisa de uma solução imediata ou de uma finalidade prática. O limite saudável é quando a sua competência serve para “iluminar” o caminho alheio sem apagar a sua própria tranquilidade.
A palavra é “ser capaz de ser feliz”, e nao “ser capaz” somente por ser! Pare e pense!
O que você sabe hoje sobre a vida que gostaria de ter descoberto há 10 anos?
Ana Paula Oliveira, 39 anos, nos agracia com a palavra “resiliência”.
“Eu passei por muita coisa. Perdi minha mãe recente, perdi uma irmã e perdi um filho. Na perda do meu filho eu me tornei muito mais forte. Às vezes me acho bruta demais, mas ele me ensinou muito. Resiliência, paciência… Essa música me leva para um lugar de paz. É viver o dia, se conhecer aos poucos. É sobre o amor, sobre a paz. É estar saudável com as pessoas em volta da gente”.
“É preciso a chuva para florir”. Às vezes, o que interpretamos como ser “seco ou bruto” é apenas a nossa casca se tornando mais resistente para proteger a sensibilidade que ainda pulsa lá dentro. Só não podemos tornar essa brutalidade uma armadura que irá nos impedir de ver nosso jardim florescer.
Em um jardim, a escolha das flores costuma refletir a intenção de quem o cultiva.
Girassol e margarida são flores do sol e resiliência. Lírios e hortênsias querem sombra e profundidade. Primaveras trazem o acolhimento. Cada flor tem seu tempo de brotar e exige sua atenção especial no jardim da vida. Equilibre suas cores e perfumes e, então, continue tocando em frente.
O ruim de entrevistar amigos é que eles se acham no direito de inverter os papéis! Audaciosanente, me colocaram na parede, acreditem! Fui abordada!
“Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente…”
O que é a vida, pra mim? A vida é um ciclo onde temos a oportunidade de fazer algo que não fizemos antes, de sermos melhores. A gente não tem consciência disso porque está em outro plano. Por isso não entendemos o porquê de termos um filho especial, o porquê ter uma doença que está levando os seus movimentos… Em outro plano sobrenatural a gente vai entender. Se tivéssemos essa consciência, nada faria sentido, a gente não iria lutar pra viver, nem iríamos tocar em frente.
Já deu, caros amigos da onça! Tem um nó preso aqui na garganta de novo! As lágrimas já rolaram demais naquela linda manhã de sábado entre amigos!
Como escritora, hei de confessar que esse texto que tento chegar às últimas palavras, foi um dos mais emocionantes que escrevi. E a emoção é luz pra iluminar e guiar essas palavras ao coração de cada ouvinte leitor.
Almir Sater e Renato Teixeira eternizaram em música a bela canção “Tocando em Frente”.
Eu aqui registro em texto sensações profundas do que parecia uma simples reunião de amigos ao redor de uma garrafa de cerveja.
Agora transcrevo, pra finalizar, o áudio que ouvimos no dia: “Oi, Poline, bom dia. Deus te abençoe. Que você tenha um dia feliz hoje e sempre, né? Muito obrigado por tudo. Muitos anos de vida. Amém.” Era a voz do pai dela, no dia do aniversário dela, ele internado em um hospital. Hoje ele já não está entre nós.
O que há de comum entre esses três fatos?
Uma história…uma história em busca da felicidade…
“Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
E ser feliz…”
E como nossa história não tem um fim, não termino este texto com ponto final e sim…
Reticências…
Toda música trabalhada nesta coluna está disponível em uma playlist no Spotify
Sobre “Playlists da Vida Como Ela É”
A Playlist da Vida Como Ela É é uma coluna de crônica musical que deixa de lado a teoria técnica para focar na música como trilha sonora do cotidiano. O espaço explora o encontro entre o fone de ouvido e a vida real, transformando cenas do “corre” diário — como o trânsito, o café frio ou uma nova porta que se abre — em curadorias emocionais. O objetivo é criar conexão e identificação imediata, mostrando como a sonoridade certa humaniza a rotina e altera nossa percepção do mundo, servindo como uma ferramenta de sobrevivência e poesia para quem vive a vida exatamente como ela é.
Sobre a autora da coluna
Ger Paiva é cantora, compositora e escritora, movida pela missão de conectar pessoas através da arte. Gestora com sólida experiência no setor industrial e empresária, ela transita entre o rigor dos negócios e a sensibilidade dos palcos, transformando o cotidiano em crônica e melodia. Hoje, atua unindo sua visão estratégica à escrita criativa para explorar as trilhas sonoras da vida real em sua coluna na Revista Arte Brasileira.

