24 de maio de 2024
Extras Sons do Século – Por Nildo Morais

Um gole de juventude

Gente é um bicho muito estranho. Quando é criança, sonha encontrar o mundo. Depois de grande parece que perde o encanto, a vontade, a força… fixa as raízes em qualquer coisa e deixa que o próprio mundo se encarregue de encontrá-lo, quando nem ele, às vezes, sabe por onde anda.

Eu mesmo carrego a feia mania de só conhecer lembranças, porque é a única coisa que tenho do que não tenho mais. Gosto de ligar o som e me esquecer ali mesmo; sinto saudade de viajar o Brasil inteiro pela voz de Belchior, Cássia Eller, Nando Reis… e voltar pra casa após desligar o rádio.

Lembro da minha velha infância, a malandragem de um rapaz latino-americano que acordava às cinco, e às seis já havia escrito uns três poemas enquanto aguardava o ônibus. Lembro do ensino médio onde todos os meus amigos conversavam horas e horas sobre qualquer coisa e sonhavam em ser livres sem saber que naquele momento ainda eram. Hoje quase não conversam, não se há mais um violão tocando legião urbana e nos lembrando do nosso tempo perdido. Hoje, só hoje, perceberam que passarinho quando perde as asas, fica mudo.

A boa notícia é que a juventude é um som do século, ou melhor, de todos eles. A juventude é uma música que marca época e não importa quanto tempo passe, te fará dançar de novo; e o melhor: te fará olhar pra frente e ver no futuro o incrível desejo de viver outra vez [aquilo que ainda não viveu].

Recentemente, como bom nordestino, me peguei ouvindo Flávio José cantar sobre suas dificuldades, sua poesia, seu amor e seus dias dentro do sertão brasileiro… olhei pra trás novamente e vi que a alegria das lembranças está justamente no que elas são: lembranças; e que o futuro só será melhor se tirarmos leite de pedra para que ele seja.

“Carta na mesa
O jogador conhece o jogo pela regra
Não sabe tu que eu já tirei leite de pedra?
Só pra te ver sorrir pra mim não chorar”
(Tareco e Mariola, Flávio José)

A juventude, com sua garra, sonho e vontade, é uma garrafa que nunca se esvazia, de fato. A vida adulta é que é um enorme medo de ter sede. Vá em frente, não tema, dê mais um gole.

author
Nildo Morais, colunista nascido na cidade de Mossoró, Rio Grande do Norte. Atualmente tem 19 anos e é um profundo amante da literatura nacional, da música popular e da cultura brasileira. Tem um foco principal em ajudar novos artistas, conhecer um pouco de suas histórias e lutar para que o mundo também conheça.