9 de junho de 2026

[ENTREVISTA] Gil Móia versa seu amor pelo estado do Pará em EP repleto de metáforas

Gil Móia

Arte de capa por Adriene Araújo

 

A beleza do estado do Pará alinhada à saudade de um poeta foi a mistura perfeita para o cantor e compositor Gil Móia lançar o EP “Baile da Chuva”, que foi introduzido ao público anteriormente com o single “Areia”.  O EP é um lançamento do selo Diáspora.

“Comparo a famosa chuva do Pará como uma entidade que determina a nova safra, os encontros, desencontros, o tempo das coisas, como uma suprema manifestação da natureza que nos faz perceber que somos apenas parte de um todo, de modo que precisamos estar de acordo com o Baile”, explica Gil, que atualmente reside no bairro de Santa Cruz, extrema Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Ele continua seu depoimento: “O disco é dividido em várias fases da  vida, de canções feitas bem jovem, as mais recentes já provenientes de um olhar sem véu. Todas as palavras e acordes surgiram de maneira espontânea. São a soma de amores, naufrágios, insights das gotas que caíram no telhado ou que lavaram minha alma”.

 

[As metáforas são incríveis quando o assunto é interpretação que cada um se dá a oportunidade de ter. Essa frase pode ilustrar um pouco de uma das entrevistas mais instigantes que já fizemos, se tornando assim essencial na categoria de “entrevistas marcantes”. A seguir, você confere o EP completo no Youtube e as curiosas respostas do artista sobre as seis faixas que compõem “Baile da Chuva”.]

 

 

 

Sinto na poesia de “Belém Bossa”, uma intensa declaração de amor ao estado do Pará. E o verso “Seja lá o que for deixa o povo falar” sensacional, pois ao meu ver, se refere ao preconceito com as regiões do Norte e Nordeste do Brasil. Eu também não poderia deixar de parabenizar pelo trocadilho que você fez no ultimo verso da letra: “Pararará papá…”…

Primeiramente gostaria de parabeniza-lo pelo olhar minucioso e preciso a respeito da minha música, só para clarear um pouco mais: o Pará é um estado de poesia, de uma vastidão cultural incomensurável, o verso: ”seja lá o que for deixa o povo falar” se dá também pelo fato de haver uma cobrança creio que indireta, como se  a música local de alguma forma tivesse que carregar certos clichês poéticos para se caracterizar “regional” e obedecer alguns padrões rítmicos, a “Belém Bossa” já existe muito antes do meu nascimento é o puro underground de uma belém que eu enxergo.

 

O trocadilho do verso “Andei toda Belém” foi inovador [HAHA]. E confesso que fiquei um pouco confuso em relação ao conceito dessa música.

Costumo não definir o conceito de algumas músicas e nem ficar pensando a respeito do tema o algo do tipo… Mas vamos lá (Risos): essa música foi feita esse ano, é comum usar histórias de outras pessoas, inventar ou até mesmo me projetar nelas, confesso que haviam frases que a princípio não tinham menor significado pra mim, mas posteriormente se encaixaram perfeitamente, o amor “El Camiño” em minha humilde opinião para todas os anseios da humanidade, todavia El Camiño também é um famoso motel em belém que possivelmente inúmeras histórias podem ter sido vividas.

 

Em “Onde Anda Você”, em poucos versos, você trabalho com o “você” e o “ela”. Explica para nós a ideia dessa letra.

A música anterior você percebe o eu lírico que anda toda Belém a procura de alguém em “Onde você anda” isso se perpetua, com um claro anseio em saber qual fim da história contar o que é muito comum em alguns  dos romances da literatura brasileira, a busca por uma resposta definitiva no meio do livro no caso no meio do disco.

 

(Crédito: Hugo Noguchi)

 

Aceito estar enganado, até porque as metáforas são para confundir, né? (RISOS]. Mas vamos lá, a minha interpretação da faixa “Várias Noites” é que você fala entrelinhas das marcas da sua terrinha deixa em você, mas dizendo isso como se fosse um amor entre duas pessoas. Vai ficar feio pra mim se eu errar. [HAHA]

Eu adorei sua interpretação e confesso que vou passar a usá-la daqui pra frente. (Risos). Mas a música também possui detalhes muito minuciosos de uma relação como “triste é ver o céu ganhando cor” o que pode ser interpretado como um amanhecer após um encontro na madrugada a frase seguinte é “que anuncia a hora de partir” e a música seguinte é “Morena das Ondas do Mar” que é uma prece de um possível marinheiro ou pescador (um viajante dos mares/rios).

 

Entre todas as faixas, achei “Morena das Ondas do Mar” a mais propícia ao público entender de cara a ideia, a mensagem da letra.

É uma prece ou oração a Iemanjá para uma jornada os mares guardam segredos, minha bisavó me contava inúmeras histórias e as mais comuns eram dessa divindade ao qual me refiro na música.

 

No outro extremo, e que vem logo em seguida, a letra de “Areia”, me parece um tanto difícil de decifrar.

Muito embora as músicas tenham sido escritas em anos diferentes elas se complementam no disco, agora o eu lírico passa a ser uma mulher que anseia pelo retorno do marido que partiu para o mar, esse mesmo mar pode ser traduzido também como a busca do homem por uma consciência superior se ele á encontra ou retorna só posso revelar nos próximos discos (Risos).

 

Depois dessas perguntas atípicas, me diga, qual seria o conceito do EP, como um todo?

As pessoas costumam associar o EP a fatos apenas ligados a um romantismo, particularmente não vejo problemas, mas com certeza vai um pouco além, talvez após essa entrevista um novo olhar pode ser lançado sobre a obra.

 

(Crédito: Vita Parente)

 

Você tem alguma(s) história(s) ou curiosidade(s) interessante(s) para nos contar?

Como disse anteriormente minha bisavó me contava muitas histórias, algumas se misturam no disco outras serão lançadas nos próximos discos. Sou da cidade de Barcarena, interior de Belém, e causos como o de “Areia” são muito comuns. Tive uma infância muito ligada a minha região, busco preservar cada história e livros que tive acesso.

 

Sinta-se a vontade para falar algo que eu não perguntei e que você gostaria de ter dito.

Adorei a entrevista e volto a parabenizá-lo pelo olhar muito minucioso a respeito do EP, um forte abraço.

 

FICHA TÉCNICA

Músicas por Gil Móia

Gil Móia – Voz e Violão

Pedro Millecco – Bateria em “Belém Bossa” e “Areia”

DJ Lu7 – Beats e efeitos em “El Camiño”, “Onde você Anda?” e  “Morena das Ondas do Mar”

Vita Parente – Backing Vocals em “Belém Bossa” e “Morena das Ondas do Mar”

Hugo Noguchi – baixo, teclados e produção, mix e master

Arte por Adriene Araújo

 

Entrevista realizada por Matheus Luzi, que também assina a edição dessa reportagem

 

 

 

 

 

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