25 de junho de 2026

[CONTO] “Anoiteça o que anoitecer”, de Nildo Morais

“Anoiteça o que anoitecer”

 

Beach Palace. Um pouco mais de meia noite. Janne estava sentada no balcão do bar, de ressaca. Sua blusa caía pelos ombros, seus cotovelos sobre a mesa, e seu rosto mergulhava nas palmas de suas mãos. Ao lado, haviam mais três cadeiras sobrando e uma que continha apenas meia garrafa de tequila. Todos os hóspedes deveriam estar nos quartos. Ela não fazia ideia. A noite nunca esteve tão calma, nem mesmo os adolescentes desceram. A piscina estava vazia. A cozinha, vazia. Os sofás do salão, vazios.

O hotel havia se transformado em um cemitério de pensamentos. Um local onde os amantes sepultam suas noites de amor. Era o cenário perfeito para escrever um bom poema, ouvir um bom indie nacional ou aprender a embriagar seu coração em um copo largo com pouco gelo. Mas às vezes é preciso aproveitar as folgas que o destino dá pra gente, esquecer um pouco das velhas feridas e planejar como serão as próximas.  Isso, ela entendia muito bem.

Seu telefone havia tocado quatro vezes. Marlon não a deixava em paz e já faziam mais de seis semanas desde o término. Ele até era um cara legal, mas nada muito surpreendente. Tinha uma barriga de cerveja, um metro e sessenta e fazia piadas nas horas erradas (Caso esteja lendo isso, cara, sinto muito. Ela não está mais na sua). Vocês sabem: não deu certo. Janne terminou de beber o que faltava da garrafa. Limpou um pouco das lágrimas que insistiam em cair com o sereno e deixou a blusa como estava. O telefone tocou de novo, mas Marlon já tinha desistido. Digo, por essa noite.

— Oi.

— Oi.

— O que acha de tomarmos aquela vodka esse final de semana?

— Ah, me diga. Quem é você?

— Não conhece minha voz?

— Não.

— Qual é, Janne? Não lembra mesmo?

— Me desculpe…

— …

Desligou. Seja lá quem tenha sido, desligou. Ultimamente as pessoas não têm gostado de ser desconhecidas. Uma pena. Esqueceram que as plantas continuam crescendo no escuro. Não importa quanto tempo passe, sempre dá pra aprender mais um pouco. Mesmo que você esteja cheio de tequila em um hotel canibal de estrelas, mesmo que esteja sepultando suas noites de amor em um cemitério de esperanças, você sempre poderá aprender mais um pouco.

 

   A bebida gritava mais alto. Enquanto o céu chorava lá fora, outra coisa inundava lá dentro. Queria que você soubesse, Janne, que a vida é assim mesmo: telefonemas sem sentidos e piadas sem graça. Ainda é cedo pra se desesperar. Há quem diga por aí que é dentro de uma noite incomum que se levanta em nós um sol imbatível. Eu concordo.

 

———– CONTO DE NILDO MORAIS ———-

Ancelmo: todas as rodagens iam em direção à arte

Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece.E nasce o sol, e põe-se o sol,.

LEIA MAIS

A obra de João Turin que sobreviveu a 2ª Guerra Mundial

No Memorial Paranista, sediado em Curitiba (PR) com intuito de preservar e expor a obra do paranaense João Turin, há.

LEIA MAIS

CONTO: A ansiedade do vovô na hora que o cometa passou (Gil Silva Freires)

Seo Leonel tinha nascido em 1911, um ano depois da primeira passagem do cometa de Halley neste século vigésimo. Dessa.

LEIA MAIS

O Abolicionista e escritor Cruz e Sousa

A literatura brasileira se divide em várias vertentes e dentro dela encontramos diversos escritores com personalidades diferentes e alguns até.

LEIA MAIS

Música de Cazuza e Gilberto Gil também é um filme; você sabia?

“São sete horas da manhã   Vejo o Cristo da janela   O sol já apagou sua luz   E o povo lá.

LEIA MAIS

A resistência do povo negro nas mãos do escritor Samuel da Costa

A nossa literatura brasileira vem de uma hierarquia branca, desde escritores renomados a diplomatas e nesse meio poucos escritores negros.

LEIA MAIS

CONTO: O Operário Dedicado e O Regozijo do Aposentado (Gil Silva Freires)

Seo Leocádio era o tipo de homem totalmente estável e mantivera o mesmo emprego durante toda a vida. Se haviam.

LEIA MAIS

A bossa elegante e original do jovem Will Santt

No período escolar do ensino médio, nasceu o princípio do pseudônimo “Wll Santt”. As roupas retrô e o cabelo black.

LEIA MAIS

A Arte Não Precisa de Justificativa – Ep.1 do podcast “Mosaico Cristológico”

Neste episódio falamos sobre a obra de Hans. R. Rookmaaker – A Arte Não Precisa de Justificativa – e a.

LEIA MAIS