26 de junho de 2026

Uma breve leitura dos festivais de ontem e de hoje

Nesta manhã de quinta-feira, dia 22 de março de 2017, acabei de ler o livro “Tropicália – A história de uma revolução musical”, de Carlos Calado.

A Obra de Calado, criada a partir de registros históricos em bibliotecas e declarações detalhadas de artistas que viveram o movimento da tropicália – que teve uma duração curta, entre 1967 à 1968 – abusou muito de falas a respeito dos famosos festivais musicais da TV Record e da TV Excelsior, que embelezaram a fama de artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, entre tantos outros.

Foi com esse ar e atmosfera, que eu, um leigo no assunto, cursando o último ano de jornalismo, pude compreender o quanto esses festivais foram importantes para a música popular brasileira, mas foi também com essa leitura que eu pude perceber o quanto os tempos mudaram.

Antigamente, nos anos 60, os festivais como o Festival Internacional da Canção exibido em TV aberta, e os programas também de emissoras como a Record, eram muito críticos, tanto em questão de bancada, com os júris como em questão de plateia.

O público que acompanhavam os programas e festivais nas arquibancadas e plateias não hesitavam em criticar determinadas canções, roupas, artistas e seus discursos, as vezes, até arremessando tomates e latinhas de cerveja e refrigerante. Já no momento em que estamos, uma plateia jamais iria ter essa atitude. Mesmo com o descontentamento, não se vê mais sinceridade na voz do povo, o que realmente me preocupa muito. Estaria as pessoas menos sinceras, mais falsas e sem tom crítico? Ou a produção desses eventos exige cautela nas manifestações do público?

(Fica também outra reflexão, indo mais a fundo na crítica que estou fazendo: latinhas tudo bem, é algo que as pessoas compravam nos eventos, mas e os tomates? O que faziam as pessoas em apresentações culturais com tomates? Para mim, fica claro mais uma vez, que o público já ia pros festivais prevenidos. Talvez os tomates seriam levados pela galera já pensando em arremessa-los diretamente aos narizes dos artistas, e até mesmo para sujar a roupa dos mesmos, que muitas vezes desagradava o público, como o caso de Rita Lee que se apresentava toda despojada pra época).


Alguns dias antes, em 2 de março deste ano, algo incrível aconteceu na TV brasileira. O programa “Amor e Sexo”, exibido as quintas-feiras na madrugada pela TV Globo, já conhecido por sua notoriedade, acrescentou muito, quando a recém cantora lançado na mídia Liniker, apareceu cantando uma obra-clássica de Chico Buarque “Geni e o Zepelim”, cuja letra, nas entrelinhas aborda uma travesti (Geni) odiada em sua cidade, após recusar sair com Zepelim que representava o luxo e o poder.

Curiosamente ou não por acaso, Liniker é uma artista que sempre aparece com roupas, acessórias e maquiagens femininas, causando desde sempre polêmicas, gostos e desgosto, ainda mais quando sua voz potente e diferenciada e suas músicas sempre muito inovadoras se sobressaem.

A apresentadora Fernanda Lima chamou ao palco a cantora, que com muito brilho, apresentou-se com um vestido mais brilhante ainda, em tom de cinza, com longos brincos, maquiagem e batom, além de estar alinhado no topo do palco. Ela cantou a introdução e as primeiras partes da música de Chico, com um belo arranjo por trás de sua voz. Depois, ao início do refrão “Joga pedra na…”, ele e a banda param, e Liniker diz “NÃO JOGA!”, apontando o dedo indicador para frente. Em seguida, ele fala “O Brasil é o país que mais mata travestis, transexuais, homossexuais e bissexuais do mundo. Isso tem que acabar. Basta! Só assim podemos nos redimir.”, e termina “Bem dita Geni!!!”.


Bom, não sei se vocês conseguiram relacionar o primeiro relato com o segundo. Mas para mim, o programa liderado por Fernanda Lima está revolucionando a forma como se faz TV no Brasil. Certamente, se isso tivesse acontecido em outro período, ou seja, há uns 30, 20, ou 10 anos, o público teria vontade não só de bater em Geni, como também de espancar Liniker, o que não é nada bom.

Com isso, não quero dizer que a plateia tem que ser agressiva. Muito pelo contrário, acredito que quanto mais sinceridade, mais passivo a situação se torna, porque os artistas crescem não somente com elogios, mas também com críticas.

Ao meu ver, a semelhança principal entre os dois relatos é que a TV forma artistas, e o público junto a esses artistas, constroem a história, como aconteceu com a Tropicália.

Abaixo, deixe o seu comentário a esse respeito, e se não gostarem do meu texto e da minha crítica, por favor, jovem tomates ou latinhas de cerveja em mim, mas de preferência, que acertem logo o meu rosto. Obrigado!

Escrito por Matheus Luzi em março de 2017

As tradições culturais do Pará e de Minas Gerais se encontram na banda Tutu com

Bruna Brandão / Divulgação Apesar do disco de estreia ter sido lançado em novembro de 2021, a banda Tutu com.

LEIA MAIS

Damião Costa: a pintura como morada do instante

O artista Damião Costa (São Vicente, RN, 1987), desde a infância, quando os olhos se detinham nos leilões televisivos de.

LEIA MAIS

Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa, é inspiração do também Bernardo Soares, cantautor do “Disco

Olá! Eu sou Bernardo Soares, um artista da palavra cantada, compositor de canções que atua a partir de Curitiba, no.

LEIA MAIS

Bersote é filosoficamente complexo e musicalmente indefinido em “Na Curva a Me Esperar”

A existência é pauta carimbada na música brasileira, como apontamos nesta reportagem de Jean Fronho (“Tom Zé já dizia: todo.

LEIA MAIS

Madé Weiner: da atualidade de ressignificar técnicas das artes visuais

  Sempre evitei falar de mim,  falar-me. Quis falar de coisas.  Mas na seleção dessas coisas  falar-me. Quis falar de coisas. .

LEIA MAIS

Mário Quintana e sua complexa simplicidade em Caderno H

  CADERNO H: A COMPLEXA SIMPLICIDADE DE MARIO QUINTANA   Mario Quintana (1906-1994) foi um poeta gaúcho de constância poética.

LEIA MAIS

Curso Completo de História da Arte

Se você está pesquisando por algum curso sobre história da arte, chegou no lugar certo! Aqui nós te apresentaremos o.

LEIA MAIS

Podcast Investiga: Quem foi o poeta Augusto dos Anjos? (com Augusto César)

O 9º episódio do Investiga buscou informações sobre os principais pontos da trajetória pessoal e profissional do poeta brasileiro Augusto.

LEIA MAIS

Entre a sinestesia e a sistematização, Zé Ibarra se consolida como voz de sua geração

PERFIL ⭐️ Em meio a exuberante flora do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Zé Ibarra comenta com fluidez e.

LEIA MAIS

“A Grande Família” e o poder da comédia do cotidiano

A série “A Grande Família” é exemplo de um gênero do humor que funciona como um espelho capaz de revelar.

LEIA MAIS