17 de abril de 2026

Illana Thalma: errâncias e rastros de um fazer artístico  

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Fernando Pessoa

1.

Illana Thalma

Eu pensava, quando vi algumas páginas do portfolio, iniciar meu ensaio pelas Assemblages. Mudei de ideia. Decidi me deter sobre o conjunto do portfolio,  compreendendo a partir de paradas, ou melhor, estações, nas quais a artista apresenta a multiplicidade benfazeja e com alta singularidade estética dos seus trabalhos, rompendo os limites de uma geografia presa ao Nordeste e lançando seus vetores em direção à uma categoria universal.

Sendo assim, é preciso dizer da artista visual Illana Thalma (Ipueira, RN, 1990) caracterizando-se por múltiplas facetas voltadas à construção estética. No documento de apresentação define-se como artista visual, cineasta e arte-educadora. Trata-se de um conjunto de fotografias de uma sala de aula, provavelmente durante uma atividade voltada para sua verve de arte-educadora. Mesmo se tratando de uma turma em uma escola, ao lecionar técnicas de desenho e pintura, acabou por imprimir sua rubrica nas fotos registradas, instantâneos de um contato direto com alunos de uma escola pública.

Ao que parece, ministrou um curso de arte para uma turma de adolescentes. Depois de explanar seus objetivos, passou a distribuir o material a ser empregado, uma diversidade enorme sobre as mesas. Eis o registro integral de jovens em contato com uma artista, com sua paleta de cores, seus potes de tintas e pincéis. Há uma concentração por parte da turma, como se a chegada de algo novo viesse sem enigma, para provocar encantamento, para mergulhar em regiões até então desconhecidas.

Sendo assim, os ângulos em que estão presentes os alunos remetem quase sempre a fotos com forte substrato estético, pois, ao que parece, não estavam cientes de que seriam fotografados. Sugere-se que a professora Illana Thalma se aproveitou, no bom sentido, para registrar semblantes ocupados em prestar atenção, sabendo que logo mais viria a prática. O enlevo com as tintas.

2.

Arte urbana passa a interferir na paisagem com sua marca registrada: a gota serena. Aplica esse desenho simples e bastante primário em tudo o que se apresenta à sua frente. É como se a artista visual detivesse uma inquietação, não permitindo que em seu derredor haja hiatos ou algum vazio. Parte então para desenhar com o spray.

Na verdade, parece ser um tipo de índole na personalidade que a conduz ao horror vacui, uma negação ao vazio, ao que detém locas, frestas, hiatos em branco. Dessa maneira, ocorrem dois subconjuntos estéticos. O da gota serena, expressão retirada de um arcaísmo da região Nordeste. Usa-se em contextos nos quais se promete falar a verdade, mais relacionada a crianças ou adolescentes: “eu juro, se for mentira, eu cegue da gota serena”. Um recurso de provar o que se está afirmando de maneira categórica, afirmativa e incisiva. Se bem que até hoje não conheci ninguém que saiba dessa taciturna enfermidade que acomete os olhos.

Ora, é extremamente condizente com o grafite que a artista sai por aí, riscando com spray onde encontra qualquer espaço vazio, qualquer pedaço de resto de construção, qualquer lugar quedado na paisagem urbana. A gota serena passou a ser seu registro e marca de que por ali passou uma artista, fazendo saber de uma intervenção no urbano. Creio que, para ela, é uma prova de verdade, um aceite sem dúvidas, daquilo que não pode ser diferente: tinha que ser esse desenho em forma de uma gota que escorre.

O segundo conjunto da intervenção urbana concerne a um topos bastante curioso: o morcego. São dois, o primeiro com as asas abertas para quem o contempla de frente. Sucede uma maneira inusitada de transfigurar esse animal alado, integrante da realidade. A organização do corpo do morcego distingue-se por falsos retângulos, na medida em que faz uso da linha curva. Está aberto, com três estrelas amarelas ao longo da parte superior.

Illana Thalma

Os retângulos aludidos configuram o mote “sete ilha”. Esses grafemas (i-l-l-h-a), que acaba se constituindo também como desenho, é o número de sorte, ou o número preferido da artista; “Ilha” é uma corruptela de seu nome Illana. Segundo ela, o corretor sempre erra em seu favor.

O número sete, na Bíblia, é a representação do deus que se narra, haja vista sua simbologia: perfeição, totalidade, santidade, harmonia. Está presente, quer seja material ou fruto de convenções sociais em tudo o que nos cerca (7 cores do arco-íris, sete dias da semana, 7 dias da criação, 7 pecados capitais, 7 maravilhas do mundo, 7 notas musicais….).

Voltemos. Ao redor do morcego azul, com seu plano de fundo amarelo, o que o torna ainda mais visível, podem-se ver teias de aranha contornando o corpo. A gota serena aparece embaixo, pendurada feito uma espécie de invariante estrutural na obra da artista. É um insistente emblema abstrato, cujo registro diz respeito somente a ela. Uma assinatura de pertença a uma forma de arte voltada para a paisagem urbana.

Muito bem, não se restringe só a esse: há outro morcego. Este muito bem elaborado no manuseio das cores, mesmo parcimoniosas. Até parece que chegar ao simples talvez seja coisa complexa, quer dizer, selecionar as cores e formas e empreender uma pintura em spray sobre um muro qualquer. Esse morcego detém a cor amarelo forte nos extremos das duas asas, já que se encontra, como o outro, com as asas abertas. No centro, um azul celeste divide ao meio, em uma simetria bilateral. Não existe a teia circundando todo o desenho, como no anterior.

Entretanto, há uma aranha do lado esquerdo, sugerindo os lugares lúgubres nos quais habitam tanto os morcegos quanto as aranhas. Temos três estrelas: duas roxas sobre as asas amarelas e, no centro, uma nesga de azul.

3.

Chegamos à estação fotografia.

Illana Thalma

Há que se compreender que não se trata de simples tomadas, embora haja essa forma de retratar a paisagem ou os objetos colhidos da realidade. Na verdade, ao observar quatro ou cinco fotografias, percebemos uma alusão a um compósito de jogos com efeitos de luz e sombra. Isso se estende ao olhar da artista, cujas sombras e seu contraste com a luz solar engendram belos efeitos desses dois regimes da luz: o lunar e o solar (Gilbert Durand). Esses espaços antípodas, no que diz respeito às sombras e à luminosidade, conferem às fotos uma rara beleza da arte fotográfica.

Observamos a artista fotógrafa detendo-se sobre o que passa despercebido, por ser parte de ângulos da paisagem por onde caminham transeuntes ou do que, via de regra, apenas se olha. Encontramos excelentes retratos com uma pegada contemplando a paisagem natural, com suas serras e planícies revestidas de capim seco e ervas daninhas amarelas, ressequidas pelo calor das regiões do semiárido nordestino. Em outras fotografias, seguindo essa gramática, podemos observar a presença de uma porta emoldurando o que se divisa de dentro. Das sombras, o olhar mira o que se descortina à frente.

Destaca-se, tudo indica, que a fotógrafa organizou certas composições. Não apenas se atesta o que lhe vem ao olhar, mas também se dispõe certos objetos em um chão rústico, por exemplo. Qualquer ambiente ou cômodo tem sempre em vista o jogo de sombras. Bordados são emoldurados por porta-retratos antigos. Acredito que essa junção é uma das mais originais da artista. O bordado em arte sempre tem um aceite e uma empatia, um lugar especial, refratando outros meios de ousar inventar uma retórica do discurso estético.

Há uma bela fotografia com um pôr do sol, árvores à esquerda e uma cerca de arame farpado à direita. O olhar de um crepúsculo vesperal foge aos lugares comuns, que já demonstraram fadiga e tédio de tanto se repetir. Acontece que o modo de ambientar os elementos inexoravelmente remete a uma originalidade e universalidade no conjunto das fotos dessa estação.

4.

Illana Thalma

A grande maioria das fotos diz respeito a detalhes de uma busca em amealhar pequenos objetos que irão ser utilizados nas composições das Assemblages. É como se a artista saísse à cata do que é considerado descartável ou que está nos monturos. O olhar arguto parece reconhecer o lugar de uma chave, de um fragmento de mosaico.

A obra de arte Assemblage pressupõe etapas para seu feitio e consequente resultado final. Há que selecionar os objetos um a um, e esses estão jogados nas ruas, ao pé de muros ou nos quintais. Concerne à artista escolher o que irá fazer parte. O efeito estético difere bastante da pintura ou do desenho, nos quais já se tem uma ideia, um esboço, de como será o resultado final. Há pouco espaço para a improvisação: a tela está na cabeça do artista e pouco se modificará ao empreender uma trajetória de tempo para finalizar o trabalho.

Nessa estação, temos fotografias de detalhes dessa busca de pequenos objetos. Isso se comprova em fotos de mãos segurando peças de diversos materiais. Apresenta-se sobre um suporte o conjunto que dará não só um eventual sentido, mas também coleciona uma diversidade marcada pela multiplicidade de pequenas peças vindas de lugares vários, de um utilitarismo perdido, renunciando ao que antes tivera uma funcionalidade.

Ora, não me canso de repetir que a arte não tem função. A arte tem um papel: o de apresentar outra realidade, de reinventar a vida, de ser o lugar onde o humano pode expressar sentimentos ou emoções não vivenciadas no dia a dia. Arte também pode ser o espaço no qual ocorre uma catarse, conduzindo o espírito a se purificar do que o punge, do que o faz sofrer, liberando as emoções negativas por meio do contato direto com o objeto de arte.

Na Antiguidade Grega, as tragédias ocupavam esse lugar de depuração, deixando o sujeito desprovido do que sempre o acompanhava: determinadas emoções resultantes de contenção ou nunca expressas. Logo após passar pelo estado catártico, há como se fosse uma limpeza desses sentimentos reprimidos, que acabam por povoar a psique de pontos negativos. Por fim, estabelece-se uma leveza, ao se expulsar essas coisas que apenas causavam padecimentos.

5.

Illana Thalma

Afinal de contas, o que é mesmo Assemblage em arte? Trata-se de amealhar um conjunto de objetos de diversas origens e materiais com o propósito de justapor em um suporte, com o desígnio de organizar uma multiplicidade de peças. É uma forma de arte resultado de experimentações surgidas com as vanguardas do início do século XX. Pablo Picasso e Jean Dubuffet estão inscritos nessa história como os que procuraram imprimir essa nova forma de questionar a arte.

Afinal, também se pode realizar a junção de materiais encontrados ao acaso, tais como o que se joga fora: fragmentos de madeira, retalhos de tecidos, pedaços de metais e até mesmo o que pode ser considerado lixo. Questionar a arte? Sim, no sentido de que não faz mais sentido limitar-se às sete belas artes. Há que repensar a mescla de todo campo delimitado por uma tradição estética.

A teoria da semiótica, enquanto área que presta atenção às imagens, ao que é analógico, ao que se expressa por meio de uma linguagem concebida como invenção com finalidade estética, ocupa essa comarca do que diz respeito às imagens. Mesmo sabendo que, contemporaneamente, em se tratando de arte, nada nasce, germina ou se colhe em estado puro.

Com efeito, o Ar do Tempo contempla uma grande quantidade de hibridismos: em tudo o que pulsa vida, em tudo o que gesta novos costumes, em tudo o que nem sempre a lexicografia encontrou um nome, em tudo o que distrai crianças e adolescentes com seus indefectíveis celulares, em tudo o que impede de travar uma saudável amizade entre maduros, em tudo o que resulta de um narcisismo cansativo e tedioso. Enfim, não creio que a humanidade tenha entrado em uma boa estrada desde o início do século XXI:

A meio do caminho desta vida

achei-me a errar por uma selva escura,

longe da boa via, então perdida.

(Dante Alighieri)

O desígnio primevo da Assemblage é obter uma obra de arte tridimensional, através dos objetos que se encontram justapostos, diferente da bidimensionalidade da pintura, haja vista que aquela se aproxima do que sempre foi requerido pela escultura: a tridimensionalidade. Assim, afastando-se da pintura, vem a deter um novo significado.

Via de regra, a escultura tradicionalmente organiza-se a partir de um bloco único. Falo do que restou como herança do Egito e da Grécia, desde sempre povoando o imaginário de algo que se aproxima de paradigmas como a estela ou os monólitos. Contudo, em se tratando do contemporâneo, quase nada faz sentido, a não ser o que se encontra como resíduo de um imaginário.

No trabalho empreendido por Illana Thalma, o que mais chama a atenção é o emprego das colagens: faz uso com muito esmero e cuidado de fotografias antigas, remetendo à trajetória histórica de quem se encontra na tela.

No caso da artista visual, o suporte pode ser madeira, contendo vários materiais que, ao que parece, não foram deliberadamente selecionados, mas encontrados. Desse modo, o acaso se reveste de grande importância na confecção desses trabalhos. Não existe uma lógica predeterminada, não existe um plano a ser obedecido, não existe uma expectativa com relação ao resultado final.

O que relatamos agora é para evocar a estação na qual predominaram fotografias de alta voltagem estética, mas também mãos abertas com pequenos elementos, provavelmente encontrados em um rolé pelos arredores. É assim que me chega. É isto que me passa. O senso de oportunidade presente em um olhar aguçado, voltado para o chão ou as paredes.

Vigora, isso sim, o acaso como espécie de regra que vai determinar a conjunção de um estar pronto. A artista contempla com agradável sorriso o que fora antes dispersão, o que fora material descartado nos cantos de rua, nos monturos. Fragmentos de uma sorte de materiais, para as Assemblages, vão ter valor pelo todo em retângulos de madeira, sendo que isso também não é regra, visto que em alguns trabalhos as peças transbordam dos limites do que se pensava preso aos retângulos verticais ou horizontais. Para encerrar, lembro de um homem que muito trabalhou com o efeito provocado pelas Assemblages quando expostas em público, no meio da rua, sem nenhuma pretensão: o Bispo do Rosário.

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