Não pertence ao momento: vive
um mundo imemorial que passou,
que não terá chegado ou talvez
nem chegue nunca, pois instável.Henriqueta Lisboa
1.

Vandenbergh A. Medêiros (04.08.1977) nasceu em Natal, RN, porém foi criado em São João do Sabugi, no interior do estado, na região do Seridó. Tinha uma parentela vinculada à arte, pois muitos do núcleo familiar detinham pendores para as coisas vinculadas ao espírito. Quando menino, na calçada da casa, gostava de apreciar a rua com seu movimento de pessoas e carros. Havia um fascínio pelos automóveis que apenas sentia, não sabia nominar, como se fora uma inspiração ou intuição de um devir na sua história pessoal.
Não foi à toa que o seu primeiro desenho foi um caminhão Mercedes 1013. Uma coisa muito interessante é que os meninos colecionavam cédulas de embalagens de cigarro e dentro havia um papel branco — foi justo onde fez seu primeiro desenho. Demonstrou, nesse pequeno trabalho, algo que se movia dentro de si, que se confirmaria muito à frente: sua preocupação e interesse com os detalhes. Vejamos como representou esse ato que não parecia garatujas infantis: “Fiz a carroceria de madeira com os ganchos de amarrar a carga, o paralamas, motorista e antena de rádio. Fluiu de uma forma como se eu já soubesse fazer aquilo desde sempre”.
Havia também outro traço ainda tenro, presente na sua personalidade, que tomaria forma em dias pósteros: estava sempre preocupado com os detalhes das coisas do seu entorno, acompanhando a dinâmica do cotidiano. Seu fascínio pelas coisas banais, seguidas de uma cadência rotineira, não lhe causava desconforto. O que interessava eram os transeuntes pelas calçadas, protegendo-se do sol; os automóveis com a mesma marca, apenas diferindo pela cor; as rurais com cores diferentes, transportando passageiros… Sempre eventos que a alguns causa tédio. Havia também as brincadeiras das rumas de meninos pelas ruas tranquilas da cidade pequena.
Também tinha a sensação de que certas coisas lhe eram familiares, pertenciam ao seu imo, diziam de si, de dentro, das entranhas. Era um oculto adormecido e, mesmo assim, havia vontades que não eram inerentes ao mundo das crianças. Enquanto adolescente e, logo em seguida, em tempos bem abaixo do normal, consolidara-se como homem-íntegro. Assim emergiram os esboços, como se fosse coisa feita, como a casa de morada fora sempre aquela povoada de signos, sinais, símbolos. Tudo fluiu com o tempo, pois a arte circunscreveu, desde cedo, os seus domínios. Na verdade, era acompanhado, como se fosse uma necessidade, fora assinalado pela fortuna (“As armas e os barões assinalados”, primeiro verso de Os Lusíadas, de Luiz Vaz de Camões).
2.

Graduado em Artes pela UFRN, assume suas influências: Assis Marinho, e seu apreço pelas paisagens sertanejas, e o francês Jean Debret, viajante que participou da Missão Artística Francesa (1817). Este era um homem das artes que tinha muito de etnógrafo, no sentido de que registrava as cenas do cotidiano do Rio de Janeiro, bem como traços das etnias presentes na cidade. Tinha especial fascínio pela etnia negra e seus trabalhos na rotina do dia a dia, seja do homem ou das formas orgânicas de uma natureza ainda intacta. O artista francês fundou uma Academia de Artes e Ofícios.
Com efeito, essas influências tiveram impacto profundo sobre a obra de Vandebherg A. Medêiros. Uma boa obsessão que o fez retratar cenas do campo, automóveis de marcas antigas — como as rurais, por exemplo — ou casas com fachadas e platibandas com uma geometria artística, que ainda resistem ao tempo. Elas quedam nas esquinas como se aguardassem a passagem das horas, reverberando uma luz transparente que esplende sobre o Nordeste, com seu calor abafado nos sertões do Seridó.
A presença da figura humana em tudo o que retrata nos faz especular acerca dos motivos pelos quais pessoas estão presentes em tudo. Até parece que a realidade e sua dinâmica não criam obstáculos ou vicissitudes que tenham maiores implicações do ponto de vista de uma negativa ou da criação de transtornos psíquicos. Talvez o que suceda seja uma leveza interior ao ancorar essas figuras em seus trabalhos.
Via de regra, quando o artista visual escolhe uma arte abstrata, ou somente figuras geométricas, sucede uma negação da maneira como o humano organiza a realidade. É como se fosse uma espécie de busca de sanativos para curar ou amenizar essa inquietude, considerando que o Ar do Tempo impregna a tudo e todos do planeta. Pouco muda de um lugar para outro. Isso não quer dizer que é uma regra geral nas artes plásticas, porém, é possível levantar esses questionamentos com relação ao ato de optar e situar a presença de pessoas em seus trabalhos figurativos, como sucede com o artista aqui tratado.
Quero evocar o gosto de viver e encarar a vida com mais leveza, sem as sombras dramáticas presentes na obra de alguns artistas contemporâneos. Também é compreensível essa forma de situar a ausência da figura humana ou estilizá-la para tentar entender o que leva o homem contemporâneo a escolher caminhos mais complexos, no qual a falácia impera sem piedade.
Só para se ter uma ideia, podemos apontar algumas características em vigor atualmente: o desenfreado narcisismo e a infantilização. As redes sociais são um exemplo, com sua proposta de mostrar uma felicidade artificial, o que já provou que não “cola”. Só os com vida interior própria ou capazes de ocupar seu tempo com coisas edificantes, tais como ler, escrever, amar de verdade, ter capacidade de superar problemas afetivos, cultivar uma amizade saudável, é que não seguem a onda do coro dos contentes que a nada conduz.
3.
Não nos custa muito a leitura de um escrito do artista: “As imagens são criadas, às vezes, por meio de fotografias, em sua grande maioria, fotografias autorais. Porém, a referência fotográfica é mais geográfica. A construção da cena, com seus personagens, iluminação, ação dos fatos, são criações minhas. Outras vezes, a pintura é 100% criação, quando não se reporta a algum lugar específico”.
4.

Farei uma digressão exegética, tomando como exemplo uma aquarela simples, que funciona como ícone do desembaraço do artista em relação ao alcance da melhor voltagem estética possível. A aquarela No caminho do Salgado (2023) é mais um registro do trato com os trabalhos da vida rural. A construção é extremamente simples e desperta empatia: uma tomada à distância de um homem segurando os arreios de um jumento que, por sua vez, conduz a carroça. Ao lado do homem, uma mulher.
Acredito que o manuseio da aquarela se inscreve somente para colocar em evidência os personagens anônimos da carroça. A pegada está em uma distância na qual não vislumbrarmos o rosto com eventuais semblantes. A carroça encontra-se parada e seus personagens estão contemplando alguma coisa no meio do mato, do lado direito deles.
Desse modo, o que desperta atenção é esse inusitado enquadramento, haja vista que o plano de fundo circunscreve apenas os dois personagens, deixando ressaltar o branco do papel, funcionando como uma intensa luz solar. Há que lembrar o branco nos quatro lados do papel, o tórrido sol no firmamento e sua ardente luz, sempre trazendo o calor nessa região.
Com efeito, a abundância da luz solar, com sua esplêndida transparência, não sofre nenhum empecilho para chegar ao solo. Não apenas contorna, deixando recortado o casal com a carroça, com uma verde vegetação ao fundo, mas enquadra e clareia os personagens presentes na cena. O pouco de vegetação parece ter sido uma intencionalidade do artista, cujo intento é chamar atenção para o referente (tema). Outrossim, é bom saber como se manuseia, com simplicidade e preparo mental e físico, a técnica não tão fácil da aquarela.
Como dissemos, a obra é para ser contemplada de longe, visto que o semblante fica esmaecido e sucumbe frente a outros elementos. Passa a valer tudo o que dispõe transparência, ressaltando uma das titulaturas da aquarela: a leveza. Aqui no contexto, de cores suaves, concernentes à impressão da rubrica do artista no trabalho.
5.

Podemos dizer que Vandenbherg marca suas obras com uma dicção extremamente própria, como se os trabalhos não pudessem negar sua autoria. Tal disposição eleva seu conceito na grande arena das artes do Rio Grande do Norte, cujas veredas, meandros, atalhos conduzem-no, como artista, para as fronteiras da etnografia, na medida em que se encontram, em suas aquarelas, paisagens rurais e urbanas de pequenas cidades. Podemos evocar, sem escusas, sem evasivas, um enquadramento das dimensões da Antropologia Visual.
Nesse sentido, é como se fosse uma cartografia de eventos sucedidos, ainda nesse nosso tempo, em pequenas cidades do sertão, tomando essa região como a tromba e a pata do elefante: o Alto Oeste e o Seridó (o mapa do Rio Grande do Norte assemelha-se a um elefante, como se sabe). Também podemos assuntar o subentendido nas entrelinhas dessa metáfora. Vejamos os títulos de alguns trabalhos: D10 Vermelha, Esquina do mercado, O mercado, Tarde sabugiense, Ao cair da tarde (São José de Espinheiras), Barra bandeira, Chegando em Patu, Malhada, Chegança (em pau-de-arara).
6.
O que é uma metáfora? De maneira simples, podemos dizer que é uma coisa no lugar da outra. O que jaz, então, nesse registro do sertão? Quer dizer, o que ainda perdura de costumes arcaicos relativos a uma vasta região? Esta, detentora de um precioso bioma, a Caatinga, é ímpar no mundo e caminha para a desertificação.
Esse sertão, tão presente no conjunto de aquarelas, declama sua agonia quando exposto em uma retratação. Sim, de toda uma cultura que fecha seu ciclo histórico e não encontram outra coisa para pôr no lugar. Casas com fachadas e platibandas antigas, caminhões como meio de transporte, rurais ainda em uso com belas cores, carroças com jumentos, gado em lugares com sombras e malhadas, pastagens restritas, brincadeiras infantis há muito desaparecidas, lugares de comércio e socialidades nos pequenos mercados.
Ao que parece, não há outra opção a não ser aceitar a dinâmica de Cronos (o tempo), com sua pressa e aperreio, correndo rápido, sem pedir licença, sem a educação de proclamar data venia. Quer porque quer passar, é da sua natureza. Quer dizer, as mutações na vida social, com a alteração do Ar do Tempo, implicam em uma dinâmica nas transformações das relações sociais. Há algo nas classes dominantes cujo mando e poder fazem com que se subordine formas de ser e estar (destruir o patrimônio histórico, por exemplo).
7.

Resta aos que foram testemunhas desse modus vivendi anuir, sabendo de antemão que se trata de pura impotência diante do que vivenciaram na vida sertões adentro. Os que foram testemunhas de um sertão marcado pelos rituais da Igreja Católica, por relações de uma ética cuja palavra valia (falo dos que nasceram na década de 60, por exemplo), por uma vida com rotinas saudáveis, sem muita pressa nos ofícios vigentes e demandados.
Enfim, as aquarelas de Vandebherg A. Medêiros permitem ver um mundo que ainda guarda seus vestígios. Contudo, é inexorável que a tecnologia avance, tome para si os arreios dos cavalos de Apolo, trazendo a luminosidade solar cuja tez agora é fosca (“Branca é a tez da manhã” – Djavan). Porém, interessa à maioria da população assentir, provavelmente, involuntária.
A paisagem rural e as pequenas cidades encontram-se visivelmente em declínio econômico. Não apenas onde residem as pessoas, mas também o bioma desaparece, e já se declaram imensas áreas em processo de desertificação. Eis como tudo se encontra.
Acredito que não haverá outras formas saudáveis de ter uma realidade com sabor simples e agregador, um substrato no qual residam formas de ser, com menos pressa e mais sabedoria.

