20 de abril de 2026

Vicente Santeiro: releitura e permanência das imagens sacras

                        IDEIA 
Lampejo idêntico
ao da lâmpada
a iluminar
os quatro cantos

Henriqueta Lisboa

1.

Vicente Santeiro

Vicente Santeiro (1979) nasceu em Natal, onde reside desde sempre. Um tanto de autodidata, outro de influência de Assis Marinho, embora sejam bastante diferentes, tanto na maneira de pintar quanto nos temas. Suas composições visuais são plasmadas com um esmero que espanta, há como se fosse uma aura construtivista, uma reflexão acerca do objeto que retrata.

Utilizando a simetria bilateral em todos os seus trabalhos, adentra por preencher todos os espaços que haja ao redor da figura central, mesmo que certos símbolos não detenham a menor relação com o foco principal. Podemos citar aqui os cajus pendurados em inúmeras telas; não passam de um elemento regional.

Outra coisa observada é a estaticidade das personagens, como se tivessem posado para o pintor. Isso, que parece uma espécie de hieratismo, talvez esteja relacionado ao estilo predominante nos santos e ícones da Igreja Católica. De outra feita, pode ser que almejem algo questionado pelos agnósticos, um valor intrínseco à imagem. Temos que ver que não passa de um constructo estético; não é feito para se adorar. É muito mais para se ter nas salas de estar, funcionando como adorno.

O que importa, no final das contas, é o fato estético em evidência. São os planos, as superfícies, as tintas e suas nuances, as linhas, a combinação ou o contraste de cores, conduzidas com maestria para retratar santos e orixás. O que conta mesmo nisso tudo é o como e não o que está organizado no quadro. Vale pelo significante e não pelo significado.

Vicente Santeiro manuseia bem os mitos oriundos de várias tradições religiosas da cultura nacional. Ausente de preconceitos ou algum viés discriminatório. Por outro lado, as personagens retratadas sugerem uma sutil tridimensionalidade, como se houvesse uma pequena distância entre as partes dos corpos e o fundo da tela. Para efeito de compreensão, é como se fossem sutis esculturas pregadas nas dimensões de comprimento e largura. Como sabemos, a tela resguarda tão-somente essas duas medidas; o que vai sugerir a tridimensionalidade é o uso da perspectiva, conseguida através do desenho exato e das sombras.

2.

Vicente Santeiro

Uma das principais características do pintor é a presença da simetria bidimensional. As figuras, com uma intrínseca seriedade, ocupam o centro do quadro, sendo que todo o entorno está ocupado com atavios que servem não apenas para ornamentar, mas integram o ethos da poética do artista, que parece ser uma nova maneira de resgatar a iconografia dos santos da Igreja Católica ou entidades do Candomblé.

O curioso é que tais pormenores enfeitando a tela não nos chegam como um excesso de informação, mas como uma necessidade de deixar o tamanho da tela resguardada por signos que remetem à figura central ou à presença de símbolos relacionados ao Nordeste, como os cajus em muitas telas.

Não se pode deixar passar, ao se mirar com atenção as telas, do quanto estão povoadas de uma série de símbolos à guisa de adornos. O intuito dessa presença é menos de enfeite, mas muito mais buscando afastar o Horror vacui (medo do vazio), que já tinha sido estudado pelo filósofo grego Aristóteles, contudo ele não fez referência às artes. Usamos aqui simplesmente para efeito de compreensão. Mas não há como contemplar o todo da tela sem observar que tais elementos agregam valor estético, no sentido de que o todo é dotado de uma grande harmonia. Esse equilíbrio de formas é uma invariante na História das Artes do Ocidente. Todos os quadros aqui estudados detêm esse ponto de fuga que sai da personagem principal e busca preencher o resto dos espaços com outras imagens.

3.

Vicente Santeiro

No conjunto de telas, destaca-se a presença de muitos trabalhos, verdadeiros primores, com o mesmo tema: São Cosme e Damião. Eles eram irmãos gêmeos, atendiam gratuitamente os pobres. Santos extremamente populares em três religiões: Igreja Católica (comemora-se em 26.08), Umbanda e Candomblé. Viveram no século IV d.C., foram perseguidos, devido a serem cristãos, pelo Imperador Diocleciano. Condenados à morte, foram decapitados. Convencionou-se como protetores dos médicos e farmacêuticos. Seus atributos para identificação são o livro (conhecimento livresco representando a medicina) e a palma (simboliza a vitória por terem sido mártires, triunfo sobre os opositores).

Na Umbanda, Cosme e Damião (no sincretismo) estão associados às crianças, à sua proteção e à alegria que meninos e meninas aportam em uma residência. São divindades que seguem as crianças, amparando-as, e estão associados aos Ibejis (orixás representantes da infância e a consequente alegria condutora que trazem, enriquecendo qualquer herdade). Esses dois gêmeos aparecem na obra de Vicente Santeiro de umas tantas formas e cores diferentes.

Uma vez que são presença, leva-nos a refletir acerca da arte como variações de formas e cores, quer dizer, imprimem sua constituição, como a maneira com a qual se faz representar um objeto. O que podemos inferir é que a arte não é conteúdo, não é um tema que emana de uma tela, mas são formas buscando uma singularidade para representar da maneira mais diferente possível o que existe como necessidade na mente do artista.

É o caso das inúmeras telas modelando São Cosme e Damião. Essa imagem parece representar algo na vida do pintor, na medida em que proporcionou tantos modos de apresentação dos mesmos, sempre hieráticos ou eivados de silêncio, como se estivessem resignados à sua condição de ocupar socialmente o lugar de mártir (testemunha).

4.

Vicente Santeiro

Vejamos alguns exemplos do que podemos encontrar nas telas de Vicente Santeiro.

A Iemanjá plasmada em um azul e inúmeras nuances dessas cores, assemelhando-se a uma Vênus que saísse de seu domínio que são as águas. Concebida com acrílica sobre compensado naval. Tudo se confunde, para ressaltar essa deusa originada da África, uma orixá das águas salgadas, protegendo, enquanto rainha do mar, os seres e vegetação dos mares e oceanos. Existem outras versões, como acontece com todo mito, ela não seria apenas a divindade dos mares, mas também dos rios e lagos, com suas águas doces.

Esse matriarcado, quando aportou no Brasil, trazida pelos escravos negros, fundiu-se com santas da Igreja Católica, vindo a ser no sincretismo Nossa Senhora dos Navegantes, isso depende de cada lugar ou tradição dos negros. Podem ser outras santas. Só não se altera uma coisa, que é a padroeira dos pescadores.

Para além dessas digressões feitas acerca do sincretismo religioso, cujo epicentro é uma figura espiritual, interessa-nos apontar como foi modelada, como se fez retratar para causar um efeito estético precioso, apenas no manuseio da cor azul. Conquanto essas observações sobre essa personagem que tem grande importância em três religiões: Católica, Umbanda e Candomblé.

Por ter sido concebida em um monocromatismo da cor azul, podemos lembrar o significado dessa cor. Está relacionado à espiritualidade, e a tudo o que diz respeito à harmonia e calma, assim como se evocasse também à seriedade, unção que inspira confiança. Talvez seja pela maneira como se porta face aos que evocam ou retratam essa senhora das águas. Pensamos que aqui o pintor atingiu seu fastígio, mesmo sendo matéria de difícil escolha, quer dizer, temos um mestre da cor e das formas, com uma enorme consciência do seu trabalho.

É curioso observar o relevo acidentado do fundo, com palmeiras ocupando as partes mais altas das colinas. Os elementos à guisa de ornamentos são andorinhas, cajus, barcos, um farol, casas modestas no sopé da tela, o manto inteiro, e luzes emanam do interior, como se fossem janelas. O rosto não tem semblante, existe sim, um espaço negro sugerindo uma saturação da cor azul, que de tão apurada foi iniciando pelo azul marinho e fechando, até adentrar pelos meandros da cor negra.

Há uma outra personagem que também se veste de azul, sendo esta uma Nossa Senhora, cujo manto azul com seu fundo ocre, ressalta ainda mais sua figura como central e sua importância. Segue a mesma estrutura da anterior, apenas havendo um clareamento no fundo. Aqui também podemos observar as palmeiras, andorinhas, cactos, peixes, sem que haja uma sobrecarregada coleção de imagens, funcionando como excesso de informação.

Podemos arrolar toda uma plêiade de telas de muito bom gosto e pintadas com esmero. Há um São João Menino, com o cordeiro e o cajado nas mãos, e um jogo de figuras geométricas conformando bandeiras, que, como sabemos, está relacionado às festas em homenagem ao santo, que vem anunciar seu primo: o Messias.

Um São Francisco enquadrado, dentro de uma rígida simetria bilateral; o santo no meio, a separar em duas bandas exatamente iguais. Podemos observar duas árvores ladeando o personagem principal, dois pavões, cactos, palmeiras, andorinhas e um brilhante sol. É uma das principais telas nas quais podemos falar em espiritualidade, bem claro que é no sentido de uma contemplação condutora de um sossego para a alma.  A arte como um espelho para os que estão à procura de um silêncio, de uma quietude da mente.

Quero dizer a respeito da similaridade das duas partes formando um todo, exala esse clima de elevação e remete a uma necessidade interior do referente constituído na tela. Acredito que a grande maioria sabe da bela história de São Francisco de Assis, sem que para isso precise professar a fé da Igreja Católica. Falo apenas de um homem com uma experiência de vida cujo livre-arbítrio o conduziu a escolher determinado caminho onde estavam as coisas simples.

5.

Vicente Santeiro

O talento e a criatividade do pintor Vicente Santeiro o conduziram para constituir uma forma de pintura na qual se mesclaram várias áreas do conhecimento, formando um amálgama de rara beleza, na qual cores e superfícies mostram o quanto podem ser dúcteis, gerando beleza e miscigenação de áreas do conhecimento nem sempre aparentadas ou fronteiriças.

Quero dizer de uma simbiose que não apenas manuseou os procedimentos inerentes ao ato de expressar, tais como: cores, texturas, planos, geometrias etc. Essa pintura que se caracteriza como detentora de exímio conhecimento técnico também trouxe o mito, a religião e a cultura do Brasil, com sua diversidade fundada basicamente em três etnias: o branco, o negro e o índio.

Assim sendo, trouxe toda uma gama não apenas de símbolos relacionados aos personagens principais apresentados nos limites de um quadro, mas traçou novas maneiras de usar esses símbolos, fazendo ver sua criatividade e caráter imaginativo. Portanto, é suficiente contemplar algumas telas para se constatar essa nova escritura, ao fundar com harmonia esse amálgama de um novo que não causa estranhamento, mas brotar uma empatia diante do que se está acostumado a ver, só que por um outro viés.

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