18 de abril de 2026

Canadense Nick Storring navega em ondas brasileiras na música “Mirante” [entrevista]

Artista: Nick Storring (Canadá)

Lançamento: música “Mirante”, 3ª faixa de álbum homônimo

Característica: World Music (Brasil), música ambiente, Neo / Modern Classical

Data do lançamento: 21 de março de 2025

Siga no Spotify, Instagra e Facebook

Qual a melhor descrição que você poderia ter desta música? Em termos musicais, o que você propõe, e quais artistas/gêneros são referências? 

Esta é, na verdade, uma pergunta surpreendentemente difícil, então, por favor, desculpem a longa resposta. A melhor maneira de explicá-la é contando sobre meu processo criativo. Por volta de 2011, cheguei a um ponto como músico em que me sentia puxado para muitas direções diferentes ao mesmo tempo — compondo para conjuntos de câmara, tocando em várias bandas, compondo música eletrônica de vários tipos e muito mais. Eu também era ativo na cena de improvisação livre aqui em Toronto. Eu queria encontrar uma maneira de fazer música que conectasse todos esses interesses díspares. O que fiz foi pegar a ênfase instrumental da música clássica, o processo de estúdio e o grau de controle da música eletrônica, a espontaneidade da improvisação para conduzi-la, e então misturei isso com a variedade de estilos com os quais eu estava envolvido como músico. A música resultante utilizou minhas próprias performances em instrumentos acústicos e elétricos (sem sintetizadores, samplers etc.) e basicamente nenhum processamento eletrônico. Normalmente, agora, quando começo a compor, nem escrevo nada com antecedência — em vez disso, apenas toco um instrumento até descobrir material para iniciar a peça. A partir daí, coloco cada instrumento em camadas… e geralmente há muitas camadas. Achei essa abordagem muito útil, pois sou alguém que busca inspiração em muitos lugares diferentes, e trabalhar dessa forma me permite transitar facilmente entre diferentes estilos. Minha coleção de discos inclui tudo, desde música clássica a pop, de música experimental a diversas músicas tradicionais do mundo todo. No caso específico desta peça, “Mirante”, há alguns elementos notáveis. Para começar, há vários instrumentos brasileiros envolvidos, e este é um tema recorrente em todo o álbum. O primeiro som agudo que se ouve é, na verdade, cavaquinho, mas tocado com uma técnica estranha, e então camadas mais convencionais de cavaquinho se juntam. Posteriormente, aparecem elementos como pandeiro, triângulo, reco-reco, cuíca, cantos de pássaros e uma pequena flauta de bambu brasileira (há também uma grande variedade de outros instrumentos, desde instrumentos associados à música folclórica americana, como o mandocello, até algo como o obscuro instrumento bengali conhecido como khamak, que complementa muito bem a cuíca). A peça também utiliza várias gravações de campo que coletei no Brasil — chuva caindo em venezianas de metal, pássaros e até mesmo o oceano gravado com hidrofones. A música brasileira é a única coisa que estou utilizando de forma mais consciente nesta peça. Pode ser uma surpresa para você, mas a peça dele foi, na verdade, muito inspirada no pagode , pelo qual adquiri o gosto na minha primeira viagem ao Brasil. A progressão de acordes do cavaquinho vem de certa forma disso, e se eu tivesse dedilhado em um padrão de samba, seria muito mais claro. Outra coisa que realmente influenciou esta faixa foi ver o Balé Folclórico da Bahia se apresentar em seu pequeno home theater em Salvador. O poder absoluto daquela música e dança me deixou impressionado e eu queria canalizar um pouco dessa energia aqui, e até mesmo sugerir um pouco da música em si através da percussão pesada que estou empregando. Embora você não ouça a influência deles nesta música em si, também sinto uma forte afinidade por algumas das músicas brasileiras aventureiras de hoje, como o trabalho documentado em selos como QTV e Lugar Alto. Entre os nomes que me vêm à mente imediatamente estão Metá Metá (e seus integrantes individualmente), Crizin da ZO, Caxtrinho, ROSABEGE e DJ Ramon Sucesso. Acho que também é possível detectar elementos de artistas como Alice Coltrane, Fennesz e até mesmo a pulsação da música de Steve Reich ou do gamelão balinês na minha música.

Descreva a relação dessa música e do seu novo álbum com a música e a cultura brasileira. Já toquei um pouco nesse assunto na pergunta anterior, mas, para contextualizar, sou um ouvinte muito curioso há muito tempo e, desde a adolescência, me aprofundo na música brasileira, da MPB ao maracatu. As coisas mudaram em 2016, quando conheci minha atual esposa, Nathalia, que tinha acabado de se mudar de São Paulo para Toronto. Não só me envolvi mais na comunidade brasileira local em Toronto por meio dela, como também comecei a aprender português e, mais tarde, começamos a visitar os pais dela no Brasil. Viajar para lá deixou uma grande impressão em mim, tanto artisticamente quanto em outras áreas. Já fiz turnês e viajei bastante por várias partes da Europa, passei um tempo no México, nos Estados Unidos e visitei várias partes do Canadá, mas o Brasil me deixou com uma sensação muito diferente de qualquer outro lugar que já visitei. Para ser sincero, ainda nem passei muito tempo lá, mas já é um lugar que me parece um segundo lar. É claro que os meus sogros são uma parte importante disso, assim como os vários amigos da Nathalia que moram lá, mas vai além disso. O senso de humor, a ampla apreciação por comida deliciosa, o ambiente natural e, claro, o incrível clima artístico fazem parte disso. Nos próximos anos, espero cultivar ainda mais essa conexão e fomentar algumas relações de colaboração.

Há algo de curioso sobre o lançamento que você queira destacar?

Sem me alongar muito, achei que deveria mencionar que esta música é a faixa-título do meu nono álbum completo, Mirante, do selo canadense We Are Busy Bodies e distribuído pela Redeye. Está disponível em LP, CD e digitalmente (em todas as principais plataformas de streaming) e é meu primeiro lançamento físico a apresentar minha própria fotografia como elemento principal do design. Também vale a pena mencionar que toco mais de 40 instrumentos diferentes ao longo do álbum, incluindo meu instrumento principal, o violoncelo. 

Por fim, quem é o artista Nick Storring?
Você pode encontrar minha biografia completa e atual no seguinte link: https://nickstorring.ca/ about/

Respostas de Nick Storring

Newsletter

As “Dancinhas de Tik Tok” são inimigas da dança profissional?

Os avanços tecnológicos e suas devidas popularizações presenciadas desde o final dos anos 1990 e início dos anos 2000 se.

LEIA MAIS

Mercedes Sosa em 241 palavras

Mercedes Sosa é uma cantora argentina nascida em 1935, na província de Tucumán. É considerada como “a voz da américa.

LEIA MAIS

Livro de Autoajuda

Nem todas as pessoas que escrevem livros de Autoajuda conseguiram resolver seus próprios problemas, mas sempre tem a fórmula mágica.

LEIA MAIS

A Via Dolorosa de Iaperi Araújo

A Via Dolorosa de Iaperi Araujo Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece.E nasce.

LEIA MAIS

Nilson dos Santos: o registro da etnografia de um tempo extinto++++++++++++++++++++++++3

Há pouco se apagou de vezno reduto dos dicionárioscerta palavra-chave. Henriqueta Lisboa 1. Nilson dos Santos (17.06.1970) nasceu em Currais.

LEIA MAIS

Por que Sid teima em não menosprezar o seu título de MC?

Sobre seu primeiro single de 2022, ele disse que “quis trazer outra veia musical, explorar outros lados, brincar com outros.

LEIA MAIS

Goreth Caldas: um sistema de metáforas (das tantas esperas)

Entre os escaravelhos e o arbustodo peito frágil existemsegredos buscando alívioatravés de sussurros. Henriqueta Lisboa 1. Goreth Caldas (Caicó, 1958), embora.

LEIA MAIS

Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa, é inspiração do também Bernardo Soares, cantautor do “Disco

Olá! Eu sou Bernardo Soares, um artista da palavra cantada, compositor de canções que atua a partir de Curitiba, no.

LEIA MAIS

Rosana Puccia dá voz a mais dois temas atípicos no mercado musical brasileiro

Em atividade discográfica desde 2016 quando apresentou o álbum “Cadê”, Rosana Puccia é, de verdade, uma colecionadora de canções atípicas,.

LEIA MAIS

CONTO – “Luen: Na completa escuridão” (Samuel da Costa)

Alika, não sabia o que dizer, nem o que fazer, paralisada ela passou a prestar atenção, na figura abissal, que.

LEIA MAIS