3 de maio de 2026

Playlist “Além da BR” #287 – Sons do mundo que chegam até nós

Somos uma revista de arte nacional, sim! No entanto, em respeito à inúmeras e valiosas sugestões que recebemos de artistas de diversas partes do mundo, criamos uma playlist chamada “Além da BR”. Como uma forma de estende-la, nasceu essa publicação no site, que agora chega a sua 287ª edição. Neste espaço, iremos abordar alguns dos lançamentos mais interessantes que nos são apresentados.

Até o primeiro semestre de 2024 publicávamos também no formato de texto corrido, produzido pela redação da Arte Brasileira. Contudo, decidimos publicar apenas no formato minientrevista, em resposta aos pedidos de parte significativa dos nossos leitores.

The New Standard – “If This is Goodbye” – (Dinamarca)

Qual é a origem da música ? De onde você tira sua inspiração?

Desde que ouvi o Keith Jarret Trio nos anos 80, eu era apaixonado pelo repertório standard e especialmente pelas belas baladas do cancioneiro americano. Fascinado por como essas melodias fortes conseguiam sobreviver ao teste do tempo e permanecer frescas depois de tanto tempo.

Quais aspectos do jazz você traz para esta peça?

Também tenho um amor profundo pela música brasileira e especialmente pelas canções de Antonio Carlos Jobim. Como na música Always Blue (Saudade È), escrevo algumas letras em português primeiro. Então, com esta peça, tento honrar toda essa tradição, mas também trazer algo novo, outras influências.

Sobre o que você canta na letra e qual é a sua mensagem?

A letra é uma história de amor, sobre um casal se afastando. A importância de estar presente no momento e sempre tentar falar sobre as coisas com a pessoa amada – inclusive sobre as coisas difíceis. De certa forma, a história é uma continuação de Always Blue. Será que o casal teria uma última chance?

Como você compararia essa música a outras de outros artistas?

Com toda a modéstia, tento estabelecer um novo padrão para a produção musical. Com os melhores músicos, um arranjador indicado ao Grammy e engenheiros de som de renome mundial.

Há algo interessante ou especial que você gostaria de destacar na sua maneira de fazer música?

Cada uma das minhas músicas tem sua própria pequena jornada. Da ideia original na minha cabeça, até a masterização final no Abbey Road Studios. Espero que se possa ouvir, pois a produção tem muita garra, com os melhores solistas e cantores. Por exemplo, Jan Harbeck é o melhor saxofonista de Copenhague, e Lars Jansson é considerado o melhor pianista da Escandinávia.

Respostas de Thomas Lyngdam (The New Standard)

Donald Dogbo“Yako” – (Canadá)

O que inspirou essa composição?

Yakouma expressão marfinense que significa “condolências”, é mais do que uma simples canção: é um grito do coração. Nesta faixa profundamente comovente, Donald Dogbo presta homenagem aos artistas perdidos durante a pandemia, aos imigrantes ilegais que pereceram no mar e a todos aqueles que choram a perda de um ente querido. Motivada por sons culturalmente diversos e emoção pura, Yako nos convida à memória, à compaixão e à resiliência.

Qual o tema dela?

Condolências e simpatias.

Musicalmente, o que você explorou?

Donald foi inspirado por uma melodia tradicional da Costa do Marfim e por ritmos tradicionais que ele costuma ouvir, como Mbalax, blues Mandingo e ritmos 6/8.

Afinal, quem é o canadense Donald Dogbo? 

Donald Dogbo é um baterista e percussionista marfinense renomado por sua habilidade de fundir ritmos africanos tradicionais com a energia do jazz contemporâneo. Herdeiro de uma linhagem de bateristas, ele se destacou por seu groove poderoso, criatividade sem limites e carisma no palco. Baseado em Montreal desde 2014, ele rapidamente ganhou reconhecimento na cena artística local, e sua carreira deu uma guinada em 2024, quando foi coroado como Revelação do Jazz pela Rádio-Canadá. Após o sucesso de seu primeiro álbum, Coubli  (2021), ele está preparando o lançamento de seu segundo projeto,  Ségui Sô , previsto para outubro de 2025. Este último álbum continua a fundir ritmos africanos com sons contemporâneos e é acompanhado por colaborações ousadas. Dogbo aspira levar seu universo musical para além do Canadá, construindo pontes entre culturas por meio de seus shows e música.     

Respostas de Donald Dogbo

Ninni“A Meravilha” – (Itália)

Ninni, primeiramente, quem é você, quem é este artista?

Sou um compositor e músico instrumental que se inspira em trilhas sonoras cinematográficas, valsas e diversas tradições da world music.

Qual a origem da música?

Em “A Meravilha” tentei capturar aquela sensação de maravilhamento que sentimos quando estamos totalmente presentes diante de algo extraordinário. Uma sensação que temos quando estamos em contato com a natureza.

Qual seu tema?

Concentrei-me em instrumentação suave, sons suaves e imaginei uma mulher apreciando a atmosfera primaveril enquanto caminhava por um campo de tulipas. É sobre conexão, suavidade e curiosidade.

Quais propostas musicais você traz na canção?

“A Meravilha” dá continuidade à tradição de meus trabalhos recentes, como “Vott’a venì”, “Samba do amor” e “As ondas do mar”. Todas são canções instrumentais. Meu objetivo é uma música instrumental que fale diretamente à alma. Para mim, esta peça representa o ápice dessa visão: uma jornada transcendente moldada pelas texturas de diferentes culturas.

Há algo de curioso que você gostaria de destacar?

Eu simplesmente segui o fluxo: acho que um músico dá o seu melhor quando se deixa levar sem pensar muito em técnica, arranjos, etc.

Respostas de Ninni

Pia Paez “Quero Não” – (Venezuela)

O que inspirou essa composição?

Eu passei por um longo relacionamento de maltrato psicológico. E tem sido muitos anos trabalhando em mim. Essa música foi para pôr um ponto final nessa história. Me dar meu lugar. E mesmo inspirar outras pessoas que estejam passando por situações de dúvida. Ambíguas. Tolerando demais. Saber dizer: dessa vez, quero não. E cortar. Sair do vínculo.

Qual a mensagem da música?

Simples. Saber dizer “obrigada, mas vou passar”. Saber sair de um lugar que não te faz bem. Cedo ou tarde. Mas sair.

Musicalmente, o que você explorou?

Eu queria mostrar nessa música uma transformação. Começar numa vulnerabilidade enorme até chegar a uma sensação de fortaleza no final da track. Explorei o R&B, que é um ritmo muito sensível, e quis combinar com beats de funk brasileiro. O funk sempre é mais pra festa, e eu queria introduzir o funk numa música triste até. E fiz a letra em português. Sempre gosto de mostrar a minha conexão com o Brasil.

Você diz que essa música é fruto da sua conexão com o Brasil, fale mais sobre isso.

Eu sou venezuelana. Num ponto da vida, fiquei apaixonada pelo português do Brasil. E quis ir aprender a língua. Morei em São Paulo e comecei fazendo um estágio numa agência que respondeu um dos e-mails dizendo: “Não conseguimos te pagar, mas tem comida”. Eu procurei uma habitação e fui lá. Cantava todas as sextas-feiras na Henrique Schaumann. E às vezes no bairro da Liberdade. Fiz amizades que têm durado a vida inteira, cantei bossa e dancei samba, e virei brasileira da vida. Então às vezes quero me expressar em português. E mostrar meu amor pelo país. A influência.

Há algo de curioso que vocês queiram destacar?

Só destacar o videoclipe, que é um material visual que ficou muito lindo. Da mão da minha querida amiga Solene Moreau e do cinegrafista Malik Isasis. Desde que escrevi a música, sabia como eu queria o vídeo. Me mostrando muito vulnerável, tão machucada como eu tinha ficado na vida real. E acho que o resultado foi exatamente a tradução da música. Se alguém não entender a língua, pode só olhar o vídeo.

Respostas de Pia Paez

Diggan“Crafted with Love” – (Haiti / EUA)

De uma maneira geral, apresente esta música aos leitores do ALÉM DA BR.

“Crafted with Love” é uma música espiritual e edificante que celebra a natureza divina da existência humana. É um lembrete gentil de que cada pessoa é única em seu design e especial, criada à imagem do Altíssimo. A música carrega uma mensagem de gratidão, autoestima e encorajamento, convidando os ouvintes a reconhecerem seu próprio valor e potencial.

Esta faixa combina letras inspiradoras com uma melodia suave, criando um santuário sonoro onde os ouvintes podem refletir sobre seu propósito e se sentirem elevados. É música para a alma, projetada para lembrar às pessoas que simplesmente estar vivo é uma bênção que vale a pena celebrar, e que todos temos o potencial de brilhar como diamantes em nossas próprias maneiras únicas.

O que você diz na letra, qual sua mensagem?

As letras falam sobre a natureza sagrada da vida humana e nossa conexão com o divino. A mensagem central é que todos somos “criados com amor lá de cima” – significando que cada pessoa é uma criação deliberada e bela, com dons e propósitos únicos. Eu queria lembrar aos ouvintes que eles são feitos à imagem do Altíssimo, o que lhes dá valor inerente e potencial.

A música encoraja as pessoas a abrirem suas asas e se tornarem quem foram destinadas a ser – abraçar sua natureza cuidadosa e amorosa e se reconhecerem como “diamantes em formação”. É, em última análise, sobre gratidão pela vida, pela Mãe Terra como nosso santuário, e pela simples bênção de estar vivo. A mensagem é: se você está ouvindo isso, ainda está aqui por uma razão, então abrace o momento e receba a bênção da existência.

E como esta música surgiu?

Esta música surgiu de um período de profunda reflexão sobre a beleza e o propósito da existência humana. Eu estava contemplando como cada pessoa carrega algo divino dentro de si, mas muitas pessoas lutam para ver seu próprio valor e potencial. Me senti inspirado a criar algo que pudesse servir como um lembrete musical de nossa natureza sagrada e do amor que foi colocado na criação de cada um de nós.

As letras chegaram até mim quase como uma oração ou meditação – palavras que senti que precisavam ser compartilhadas com outros que poderiam estar passando por momentos difíceis ou questionando seu valor. Eu queria criar um santuário musical onde as pessoas pudessem se sentir abraçadas pelo amor e lembradas de seu lugar único neste mundo.

Musicalmente, o que você trabalhou nesta música?

Musicalmente, me concentrei em criar uma paisagem sonora calorosa e envolvente que complementasse a natureza espiritual e edificante das letras. O arranjo foi projetado para parecer um abraço gentil, com melodias suaves e harmonias que criam uma sensação de paz e conforto. Eu queria que a música se sentisse como um santuário em si – um espaço seguro onde a mensagem pudesse ser recebida com o coração aberto.

A produção enfatiza elementos orgânicos e cheios de alma que apoiam a mensagem da música sobre criação natural e amor divino. Cada escolha musical foi feita para realçar a sensação de ser “criado com amor” – desde os ritmos gentis que espelham uma batida cardíaca até os tons calorosos que criam uma atmosfera de aceitação incondicional e encorajamento.

Há algo de curioso e relevante que você queira destacar?

O que acho mais significativo sobre esta música é como ela parece alcançar as pessoas exatamente quando precisam ouvir sua mensagem. Notei que os ouvintes frequentemente a descobrem durante momentos em que estão questionando seu valor ou passando por tempos desafiadores. É como se a música encontrasse seu caminho para os ouvidos certos no momento certo, o que parece uma bela confirmação de seu propósito.

Outro aspecto relevante é como a música faz a ponte entre o espiritual e o cotidiano – é ao mesmo tempo uma oração e uma celebração, tanto um lembrete de nossa natureza divina quanto um encorajamento para viver plenamente no momento presente. A frase “se você está ouvindo essa vibe, você ainda está vivo” se tornou particularmente significativa para mim, pois captura a verdade simples, mas profunda, de que nossa própria existência é algo pelo qual devemos ser gratos.

Respostas de Diggan d’Adesky

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