6 de novembro de 2026

A vida sempre procura uma fresta (por Fredi Jon)

Por Fredi Jon (Grupo Serenata&Cia) – Para mim, o Dia de Finados deixou de ser apenas uma ocasião para lembrar os que partiram. Tornou-se um convite, às vezes doloroso, a questionar os que ainda estão aqui.

Foi nesse dia que perdi minha mãe. Eu chegava a uma serenata em Moema quando o telefone tocou. Do outro lado, o hospital me comunicava sua partida. Eu estava prestes a cantar para celebrar uma vida, mas naquele instante precisava aprender a conviver com a grande perda. O violão continuava em minhas mãos, mas dentro de mim uma música havia silenciado.

Desde então, passei a observar a existência com outros olhos.

Certa vez, nasceu uma flor na janela da minha cozinha. Não havia ali terra suficiente, espaço adequado ou condições que alguém consideraria favoráveis. Era um lugar quase impossível para florescer. Mas ela encontrou uma brecha. Brotou, cresceu e, um dia, ofereceu sua primeira flor.

Quando percebi sua existência, comecei a regá-la. E tive a impressão de que ela havia descoberto que, para continuar existindo, precisava florir. A cada nova flor, minha atenção se renovava, e mais água eu lhe oferecia. E assim ela floresceu até morrer.

Fiquei pensando: por que a natureza procura qualquer fresta para explodir em vida, enquanto nós, tantas vezes, encontramos todas as razões para não florescer?

Uma pequena planta desafia a impossibilidade, enquanto seres humanos, donos de pensamentos, escolhas e horizontes, aceitam viver em gaiolas. E não falo apenas das gaiolas dos pássaros, mas também daquelas que construímos para nós mesmos: o medo, o preconceito, as paixões que aprisionam, as ideologias que proíbem pensar e as certezas que nos impedem de enxergar.

Como pode quem recebeu asas para voar contentar-se com o espaço entre quatro grades? Quantos continuam respirando, mas já não encontram coragem para discordar, mudar de caminho ou simplesmente ser?

Talvez estar vivo seja procurar frestas, mesmo quando o mundo parece não oferecer portas. Seja compreender que raízes nos dão sustentação, mas não precisam nos impedir de crescer.

E há algo que me ajudou a atravessar a ausência dos meus pais: a música. Ela sempre foi libertadora. Não apagou a saudade, não devolveu presenças, tampouco negociou com a morte. Mas me ofereceu caminhos para continuar. Há uma espécie de milagre em transformar aquilo que dói em algo que pode ser compartilhado. Enquanto canto, não fujo da vida: reencontro-me com ela. Enquanto canto, vivo.

Hoje, quando entro em uma serenata, sei que cada canção carrega uma urgência silenciosa: dizer enquanto há tempo, abraçar enquanto há braços, amar enquanto há presença.

Minha mãe partiu, minha flor também. Ambas me deixaram uma reflexão sobre a brevidade e a beleza da existência.

Neste Dia de Finados, talvez devêssemos visitar não apenas os túmulos de quem partiu, mas também os sonhos que enterramos dentro de nós.

A natureza não pede licença para florescer. A música não pede licença para nos libertar. Por que nós pedimos tantas autorizações para viver?

A morte nos ensina que o tempo é limitado. A vida deveria nos ensinar o que fazer com ele.

E que não esperemos a última serenata para descobrir que ainda havia tanta música dentro de nós.

Conheça nossas serenatas – serenataecia.com.br / 11 99821-5788

Newsletter

Uma nova oportunidade de conhecer a censura no Brasil

Gilberto Gil e Caetano Veloso em exílio na Europa, entre 1969 e 1972. Foto: Reprodução do site da Folha de.

LEIA MAIS

Nilson dos Santos: uma dimensão lúdica da vida

1. Há artistas cuja obra não nasce apenas da técnica, nem do aprendizado formal das escolas de belas-artes, nem muitos.

LEIA MAIS

Quem é Priscilla Pugliese, protagonista da premiada websérie “A Melhor Amiga da Noiva”?

Créditos: Lukkas Marques Formado em Cinema pela Faculdade Nu Espaço, Priscilla Pugliese é atriz, empresária e produtora, funções que exerce.

LEIA MAIS

ENTREVISTA – Literatura de Renan Wangler reforça ancestralidade e luta da população negra

A população negra precisa estar conectada com a literatura, cultura e arte, dessa forma podemos estar conectados com a nossa.

LEIA MAIS

Grata à Deus, Marcia Domingues lança a canção “Feeling Lord”

“Feeling Lord” é a nova canção autoral da cantora e compositora paulistana Marcia Domingues. Com letra em inglês, ela revela.

LEIA MAIS

Bersote é filosoficamente complexo e musicalmente indefinido em “Na Curva a Me Esperar”

A existência é pauta carimbada na música brasileira, como apontamos nesta reportagem de Jean Fronho (“Tom Zé já dizia: todo.

LEIA MAIS

CONTO: A Confirmação do Segredo de Confissão (Gil Silva Freires)

Matar é fácil, até mesmo porque é a arma quem faz o serviço. A mão é apenas o instrumento da.

LEIA MAIS

Loury Alverga: caligrafias do simples e do silêncio

Morreu a solidão aquela vezou nasci eu de minha solidão? Pablo Neruda 1. Ao nos debruçarmos sobre a trajetória de.

LEIA MAIS

Paz, Festa e Legado: Cem anos de Dona Amélia

Era uma noite de dezembro em São Paulo, dessas que misturam o frescor do verão com o brilho das luzes.

LEIA MAIS

Filme nacional que arrecadou mais de R$ 19 milhões, “Lisbela e o Prisioneiro” foi lançado

No dia 22 de agosto de 2003, ia aos cinemas “Lisbela e o Prisioneiro”. Aposto que não sabiam, mas estavam.

LEIA MAIS