13 de janeiro de 2026

Amores da adolescência: Uma segunda chance

Por Fredi Jon (Serenata & Cia) – Era uma tarde de verão tão quente que dava pra fritar ovo no asfalto e derreter mágoas antigas, e foi justamente nesse clima que uma senhora nos procurou para uma missão que mais parecia cena de filme: entregar uma serenata ao seu amor de juventude… 60 anos depois.

Dona Matilde, uma senhorinha de cabelo bem branco, bem penteado, perfume antigo e coração inquieto, queria reencontrar Agenor, seu amor de adolescência, seu primeiro namorado e, talvez, ainda seu amor da vida. O detalhe? Ele agora tinha 76 anos, e ela também. A adolescência havia ficado no retrovisor da vida, mas o coração dela… ah, esse ainda batia como se fosse hoje.

A história deles? Dois jovens apaixonados, promessas de casamento, planos de uma casinha branca com varanda e um cachorro chamado Jujuba. Mas, como toda boa novela, veio a reviravolta: Matilde engravidou, os pais ficaram furiosos, mudaram de cidade e cortaram qualquer contato com Agenor.
Fim do capítulo. Ou pelo menos parecia.

Sessenta anos depois, ela ainda não sabia se ele estava vivo, casado ou morando no planeta Terra, mas decidiu tentar. Planejou tudo com a precisão de uma espiã da terceira idade:

— Se ele estiver sozinho, vocês leem essa cartinha aqui, cheia de emoção e poesia. Mas se ele estiver com a esposa… leiam essa outra, mais neutra, bem no estilo ‘feliz aniversário, amigão’.

Além disso, ela nos deu uma missão paralela: encontrar “a toca do coelhão”, não riam, esse era o apelido carinhoso de Agenor, por causa dos pelos brancos que, segundo ela, “brotavam em lugares improváveis desde os 18 anos”.

E lá fomos nós, uma dupla de seresteiros com cara de cupidos desacreditados, batendo de prédio em prédio no bairro de Pinheiros, perguntando com toda a discrição possível:

— Boa tarde, por acaso aqui mora o senhor Agenor? Cabelos brancos, mais ou menos 1,70m, sorriso que destrói corações desde 1959?

Na quarta tentativa: BINGO! Encontramos o esconderijo do coelhão. Subimos o tom da esperança, afinamos os instrumentos e nos posicionamos na portaria ansiosos pela historia que iríamos descobrir.

Minutos depois, lá vem ele: camisa florida, cabelo impecável e uma desconfiança no olhar que dizia: “Da onde saíram esses malucos”?

Começamos a cantar. Músicas italianas, românticas, recheadas de nostalgia, o tipo de repertório que não deixa dúvidas: alguém aí estava tentando fazer o tempo voltar.

Mas… nada. Nenhuma piscadinha. Nenhuma lágrima. Nenhum sorrisinho suspeito. Agenor ou tinha coração de pedra ou era um mestre em disfarces emocionais. Estávamos prestes a ler a carta de dona Matilde, a declaração que cruzou décadas, quando…

PLIM!
Elevador abre.
Sai uma senhora sorridente e já abraçando Agenor. Pra nossa decepção era sua esposa.

Mudamos de roteiro em três segundos. Nem a CIA conseguiria improvisar tão rápido. Guardamos a carta do amor eterno e lemos a versão “amigos distantes mandam um abraço”. Cantamos, sorrimos, fizemos o papel dos animadores de festa da saudade e, no final, os dois nos agradeceram com educação e sorriso de praxe.

Mas o olhar dele… ah, aquele olhar de canto de olho, como quem reconhece uma música que marcou a vida inteira… Aquilo dizia mais que mil serenatas.

Será que ele sabia que era ela? Será que fingiu não saber, por respeito à vida atual? Ou será que, naquela noite, procurou no Google: “como encontrar Matilde, grávida aos 16, sumida há 60 anos?”

Talvez ele tenha entendido tudo. Talvez ela tenha tentado mais uma vez. Talvez a vida ainda tenha reservado mais uma serenata, quem sabe, dessa vez, sem plateia, sem disfarce, sem roteiro alternativo.

No fim das contas, a vida é mesmo isso: uma coleção de “e se…”
E quem disse que é tarde pra um novo capítulo?
Nossas duvidas só uma nova serenata poderá responder, espero. Rsrs.

Escrito Por Fredi Jon (Serenata & Cia) para a ARTE BRASILEIRA

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