7 de agosto de 2026

O amor que não precisou pedir perdão ao tempo (Fredi Jon)

Por Fredi Jon (Grupo Serenata&Cia) – Existem pessoas que passam pela vida construindo patrimônios. Outras constroem lembranças. Mas existem algumas, muito raras, que constroem saudades antes mesmo de partirem.

Alexandre era um filho assim. Ao longo dos anos nos chamou muitas vezes. Primeiro, para agradecer aos pais quando deixava a casa onde crescera. Depois vieram serenatas para a esposa, para amigos e outras homenagens da família. Aprendi que, para ele, o amor sempre era urgente.

No Dia dos Pais de 2014, mesmo estando na Europa, ele nos escolheu mais uma vez para sermos sua voz.

Naquela tarde ensolarada de inverno seguimos em trio para Moema.

Seu Giovanni nos recebeu em seu escritório. Assim que o avistamos, nossa cantora abriu delicadamente a pequena cestinha que carregava e lançou ao ar uma chuva de pétalas de rosas.

Jamais esquecerei aquela cena.

As pétalas desciam lentamente e, enquanto tocavam seus ombros e suas mãos, Seu Giovanni as abria como quem tenta parar o tempo e acolher cada uma delas. Não dizia uma palavra, apenas sentia. Seus olhos já estavam marejados antes mesmo da primeira canção terminar.

Depois caminhou devagar até a sala, onde dona Gracinda o esperava. Permaneceram lado a lado durante toda a homenagem, como árvores antigas de raízes profundas.

Alexandre havia escrito um texto inesquecível. Não falou apenas do pai. Falou do homem íntegro, do empreendedor que construiu sua empresa, do mentor que ensinava pelo exemplo, do guerreiro que jamais negociou seus valores. Era uma homenagem ao Dia dos Pais, mas, acima de tudo, um agradecimento por uma vida inteira.

Quando chegou sua vez de falar, as palavras vieram lentamente. As lágrimas, não. Elas encontraram o caminho primeiro. Seu Giovanni chorou.

ona Gracinda também. E nós entendemos que existem momentos em que até a música faz silêncio para ouvir o coração.

Foi a última vez que vimos Seu Giovanni.

Anos depois, descobri que um dos maiores estudos já realizados com pessoas em leito de morte revelou algo desconcertante: elas não sofriam principalmente pelo que fizeram. Sofriam pelo que deixaram de fazer, pelos abraços adiados. Pelos “eu te amo” engolidos. Pelo tempo que acreditavam ainda existir.

E então essa serenata voltou inteira à minha memória.

Será que Alexandre atravessa o luto com o coração menos pesado porque escolheu amar enquanto havia tempo? Será que a saudade dói diferente quando sabemos que entregamos amor em todos os momentos possíveis? Será que existe herança maior do que partir sem carregar o peso das palavras não ditas?

Talvez a vida não nos cobre quantos anos vivemos. Talvez ela nos pergunte apenas uma coisa:

Quem recebeu o melhor de você… enquanto ainda podia sentir suas mãos, ouvir sua voz e enxergar seus olhos?

Porque um dia as flores murcham. As fotografias amarelam. As vozes silenciam.

Mas o amor que encontra coragem para chegar antes da despedida… esse nunca precisa pedir perdão ao tempo.

Conheça a arte de nossa serenata – serenataecia.com.br / 11 99821-5788

[RESENHA] “Machado de Assis, Capitu e Bentinho”, de Kaique Kelvin

Que Machado de Assis se tornou um clássico escritor da literatura brasileira todos sabemos, mas uma dúvida que segue sem.

LEIA MAIS

Dos livros às telas de cinema

Não é de hoje que muitas histórias de livros despertam desejos cinematográficos, algumas dessas histórias ao pararem nos cinemas até.

LEIA MAIS

Podcast Investiga: Por que o rock deixou o mainstream brasileiro? (com Dorf)

As novas gerações se assustam quando escutam que o rock já protagonizou o mainstream brasileiro. Não à toa. Atualmente, o.

LEIA MAIS

CONTO: Os Bicos de Gás e o Cigarro King Size (Gil Silva Freires)

Maldita família. Malditos papai-mamãe-titia, como diziam os Titãs. Kleber era fã incondicional dos Titãs e a proibição paterna de assistir.

LEIA MAIS

“O único assassinato de Cazuza” (Conto de Lima Barreto)

HILDEGARDO BRANDÂO, conhecido familiarmente por Cazuza, tinha chegado aos seus cinqüenta anos e poucos, desesperançado; mas não desesperado. Depois de.

LEIA MAIS

O Som do Passado: Como os Equipamentos Vintage Estão Reconectando Gerações

Mais pessoas, a cada dia, vão além de um breve lazer em ambientes que fazem da viagem no tempo sua.

LEIA MAIS

Bersote é filosoficamente complexo e musicalmente indefinido em “Na Curva a Me Esperar”

A existência é pauta carimbada na música brasileira, como apontamos nesta reportagem de Jean Fronho (“Tom Zé já dizia: todo.

LEIA MAIS

A literatura feminina e os seus desafios

LITERATURA FEMININA: Eu fiquei sem escrever algo concreto por dois meses. Um bloqueio talvez ocasionado pelo meu anseio por coisas.

LEIA MAIS

Existe livro bom e livro ruim?

Muitos já me perguntaram se existe livro bom e ruim, eu costumo responder que depende. Se você leu um livro.

LEIA MAIS

A invisibilidade da mulher com deficiência física (por Clarisse da Costa)

Eu amei o tema da redação da prova do ENEM de 2023: Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho.

LEIA MAIS