21 de agosto de 2026

Geometria e metalinguagem em Marieta Lima

 

Marieta Lima

A pintora Marieta Lima estudou geometria e desenho acadêmico com irmã Inês, no antigo Colégio das Freiras. Tendo, posteriormente, sido professora de desenho. Ademais tinha discípulos com Boulier, Varela e Vicente Vitoriano, frequentadores de sua casa. Esse fato da sua história de artista plástica impregnou de maneira indelével toda a sua obra. Em dois aspectos: primeiro, no exato senso da composição. É inegável que tinha com precisão o tino do manuseio das massas cromáticas, tanto no que diz respeito ao volume e proporção, bem como na harmonia das cores, logrando êxito por meio de contrastes. Tal fenômeno está presente sobretudo nas suas naturezas-mortas, via de regra vasos com exuberantes arranjos florais, sem que atinja exageros. Permanece numa simplicidade que cativa o expectador ao contemplar formas e cores.

Em segundo lugar, dominava a perspectiva, sabendo com exatitude como apor planos e linhas, para conseguir o efeito de realidade que uma paisagem deve ter, por exemplo.

Percebe-se nas suas telas cuja temática são flores, algo puramente imaginativo. Visto ser difícil identificar que flores são aquelas retratadas, ou seja, é como se não pertencessem à flora dos nossos jardins.

Marieta Lima

Ora, isso vem ao encontro de referendar que uma tela não é um retrato da realidade, mas uma obra de arte. E por assim dizer, plena de liberdade imaginativa, no qual o artista se permite criar um outro mundo com objetos inexistes no real empírico. O que importa é o que nos faz interagir com o objeto de arte, o que nos eleva para outra dimensão, o que nos redime de uma realidade que nem sempre aceitamos.

Sendo assim, podemos afirmar o caráter metalinguístico da obra de Marieta Lima: a arte discorre acerca da arte, a invenção de um universo paralelo com sua franca liberdade de engendrar outros objetos que nos permitem negar o cotidiano que nos cerca com seus trabalhos, enfermidades, conflitos, ou seja, tudo o que nos faz sencientes, obrigando-nos a sermos fortes perante as vicissitudes que quase nunca temos culpa de termos escolhido: emanam de um substrato existencial, restando-nos dar uma solução. Também dito condição humana.

Marieta Lima

Até parece que Marieta Lima não estava muito interessada nas espécies de flores cultivadas em nossa região, o que queria saber era se a tela viria a deter uma harmonia de formas e cores, uma leve exuberância de contrastes quedados face àquele que visse fruir. Talvez por isso haja uma espécie de desprendimento e simplicidade, mesmo em se tratando de arranjos florais multifacetados. Quem conheceu a pessoa Marieta Lima sabe o quanto era fina no trato e educada no respeito ao outro. Os amigos sabem disso. Parece que passou para o seu trabalho: a ausência de vaidade.

Enfim, muito do que Marieta Lima retratou em suas belas telas emanou puramente de um espírito que parecia não estar muito impregnado da realidade que nos cerca, embora em sua casa houvesse a presença de alguém que andando, falava muito num ritmo suave, adentrando para uma ampla cozinha, com pequeno jardim, onde colecionava cactus, fazendo questão de receber quem também gostasse, para fazer trocas de mudas. Havia em sua aura uma espécie de mulher que estava ancha no seu corpo esguio, nem alegre, nem triste. Era um ser que tinha vindo ao mundo não como missão ou qualquer coisa que o valha. Viera para se cumprir. Por acaso, foi a nossa principal referência na arte de pintar.

 

OBS:.As opiniões expressas neste ensaio são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da Revista Arte Brasileira.

 

Uma breve leitura dos festivais de ontem e de hoje

Nesta manhã de quinta-feira, dia 22 de março de 2017, acabei de ler o livro “Tropicália – A história de.

LEIA MAIS

O Brasil precisa de políticas públicas multiculturais (por Leonardo Bruno da Silva)

Avançamos! Inegavelmente avançamos! Saímos de uma era de destruição da cultura popular por um governo antinacional para um momento em.

LEIA MAIS

Iaponi: a invenção de uma permanente festa de existir

As formar bruscas, a cada brusco movimento, inauguram belas imagens insólitas. Henriqueta Lisboa   1.   Iaponi (São Vicente, 1942-1994),.

LEIA MAIS

O Abolicionista e escritor Cruz e Sousa

A literatura brasileira se divide em várias vertentes e dentro dela encontramos diversos escritores com personalidades diferentes e alguns até.

LEIA MAIS

A vida em vinil: uma reflexão filosófica sobre a jornada da existência

A vida, assim como um disco de vinil, é uma espiral contínua de experiências e aprendizados, em que cada fase.

LEIA MAIS

A arquitetura sonora de Roberto Menescal

Gênio da bossa nova e ativo no mercado até hoje, Roberto Menescal já teve sua trajetória retratada em seis livros..

LEIA MAIS

Podcast Investiga: A história do samba por meio dos seus subgêneros (com Luís Filipe de

Em 2022, o violonista, arranjador, produtor, pesquisador e escritor Luís Filipe de Lima lançou o livro “Para Ouvir o Samba:.

LEIA MAIS

Heavy metal, juventude e interior paulista; conheça a banda Savage

Porks, um clássico bar de rock n roll em Araçatuba, interior de São Paulo, ousou em convidar uma banda quase.

LEIA MAIS

O Som do Passado: Como os Equipamentos Vintage Estão Reconectando Gerações

Mais pessoas, a cada dia, vão além de um breve lazer em ambientes que fazem da viagem no tempo sua.

LEIA MAIS

Madé Weiner: da atualidade de ressignificar técnicas das artes visuais

  Sempre evitei falar de mim,  falar-me. Quis falar de coisas.  Mas na seleção dessas coisas  falar-me. Quis falar de coisas. .

LEIA MAIS