23 de setembro de 2026

“O pai do povo”, conto de Brendow H. Godoi

A moça responsável pelos resultados diários da pesquisa eleitoral estava terminando a apuração de intenção de votos. O comitê partidário cuspia gente para fora. As pessoas se abanavam com os santinhos do candidato a Senador: Rubens Nogueira, o cabeça de chapa do partido. Um homem de origem humilde que se tornou um poderoso empresário dono de uma rede de postos de combustível.

Rubens estava impaciente, suando feito um porco. Andando pra lá e pra cá, ansioso pelo resultado que não saía de jeito nenhum. Ele disputava a última das duas vagas pelo Senado, já que uma delas estava praticamente preenchida.

O primeiro colocado era um nome forte de um partido grande. Um larápio que estava na política há trinta anos. Rubens sabia que o jeito era lutar pela segunda cadeira. E estava disposto a dar tudo por isso.

— Essa merda não vai sair mais não, ô filhinha?

Quando a moça esboçou que havia terminado, ele arrancou os resultados das mãos dela. Estava louco. Vivendo a expectativa de ver seu nome no topo das intenções para a segunda vaga.

Mas não foi isso que aconteceu: em seu lugar, figurou o nome de seu grande adversário: Antônio Quintas, dono da rede de postos concorrente. De acordo com as pesquisas, Rubens estava cinco pontos atrás.

O homem virou um bicho. Agarrou uma mesinha de centro e jogou em cima de um grupo de apoiadores. Girou o punho numa crise desequilibrada e acertou uns quatro mais próximos. Gritou até sangrar a garganta:

— Desgraçado!


Ele precisou ser amparado por Álvaro, seu único filho. Um rapaz de vinte e dois anos, cheio de sonhos. Sua mãe morrera no parto, o que fortaleceu diretamente o laço paterno.

Os dois eram carne e unha. Álvaro sempre fez questão de exaltar o orgulho que sentia pelo pai. E o genitor, por sua vez, nunca deixou de escancarar seu amor incomensurável pelo moço, que trancou a faculdade de engenharia mecânica para ajudá-lo na campanha eleitoral.

— Pai, ainda faltam duas semanas para a eleição! Ele não vai liderar até o final. Essa vaga de senador é sua!

— Antônio é um verme! Sempre foi a pedra do meu sapato. Ostenta a imagem de bom samaritano, mas não vale nada! Ele já me tirou muita coisa. Mas dessa vez não vai conseguir tirar. De jeito nenhum!

O filho balançou a cabeça, preocupado. Nunca vira o pai naquele estado.


Rubens estava absurdamente obcecado pela candidatura. Mirando aumentar a popularidade, dois anos antes do pleito, começou a investir rios de dinheiro em favores sociais. Fez promoção em seus postos de combustível, construiu praças públicas, deu remédio de graça e visitou asilos. Há pelo menos dois anos sua vida girava em torno do projeto político.

— Álvaro, preciso saber se me ama de verdade. O quanto você ama teu pai?

— Que pergunta é essa? Sabes que sempre te amei! Sou capaz de tudo pelo senhor!

— Capaz de tudo, é? — Rubens sorriu. Colocou a mão no ombro do rapaz e contou seu plano.


O plano era matar o concorrente. Rubens foi categórico ao dizer que a única maneira de se eleger era assassinar Antônio. Seu maior pesadelo era imaginar o adversário empossado. Se isso acontecesse, não suportaria tamanha humilhação.

— Pai, você está louco? O senhor bateu a cabeça? Quer mesmo matar um homem por política? Por poder?

— Claro que não, meu filho! Isso será por um bem maior: será pelo povo! Tudo pelo povo! Antônio é um canalha que só pensa em si. Se ele vira Senador, não irá ajudar a população. Mas eu vou. Eu estou pronto para me dedicar cem por cento aos pobres!

O rapaz era lúcido e tinha um bom coração. Sempre foi pacífico. Relutou, mas acabou cedendo. O amor pelo pai falou mais alto. Convenceu-se que de fato o genitor seria um Senador melhor. Decidiu participar do assassinato:

— E como nós faremos isso?

— Nós, não. Você vai fazer!

— O quê? Aí já é demais! Eu não vou matar ninguém sozinho!

— Não dá pra simplesmente meter uma bala no homem, Álvaro. A morte tem que parecer um acidente. Você está se formando em engenharia mecânica e conhece de carros. Vivia fuçando meu jipe quando era mais novo. Quero que corte os freios do carro dele.

Novamente o rapaz relutou, mas decidiu compactuar com o plano diabólico do pai.


Três dias antes das eleições, Antônio Quintas daria um grande comício numa cidade vizinha. Ele viajaria de madrugada para chegar aos preparativos bem cedo. Era a oportunidade perfeita.

Furtivo, Álvaro conseguiu entrar no galpão do comitê rival. Cortou o sistema de freios do carro do adversário com um alicate e um jogo de chaves. Fez de uma forma que parecesse falha mecânica. De início, o carro teria freios normalmente. Mas em um declive forte, os cabos arrebentariam.

E foi o que aconteceu: numa descida de serra, o carro do oponente perdeu os freios e caiu na ribanceira. Antônio morreu na hora. Morreram também sua esposa e o casal de filhos que estavam no veículo.

Houve uma comoção nacional. Os jornais não falavam de outra coisa a não ser sobre a morte do candidato a senador e de sua família inteira, três dias antes da eleição que parecia ganha. Álvaro entrou em estado de choque. Ele se tornou o assassino de quatro pessoas inocentes. Um maldito demônio sujo.

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