5 de dezembro de 2025

Playlist “Além da BR” #290 – Sons do mundo que chegam até nós

Somos uma revista de arte nacional, sim! No entanto, em respeito à inúmeras e valiosas sugestões que recebemos de artistas de diversas partes do mundo, criamos uma playlist chamada “Além da BR”. Como uma forma de estende-la, nasceu essa publicação no site, que agora chega a sua 290ª edição. Neste espaço, iremos abordar alguns dos lançamentos mais interessantes que nos são apresentados.

Até o primeiro semestre de 2024 publicávamos também no formato de texto corrido, produzido pela redação da Arte Brasileira. Contudo, decidimos publicar apenas no formato minientrevista, em resposta aos pedidos de parte significativa dos nossos leitores.

Ricardo Isea – “Dime” – (Espanha)

Em que momento surgiu essa composição e o que a inspirou?Dime” nasceu de forma inesperada, como costumam surgir as canções que realmente tocam algo profundo. Sem responder a uma única causa, a canção nasceu de um impulso de retornar a momentos simples — aqueles que mais doem quando já se foram. Pequenas cenas — o café da manhã, um sorriso, uma despedida casual — tornaram-se matéria viva para a canção. Mais do que um fato específico, o que a inspirou foi um impulso emocional, nascido naquele espaço difuso onde a experiência e a imaginação se entrelaçam.

Qual é o tema da música? Qual é a sua mensagem? A canção fala daquilo que se perde e não pode ser recuperado. É uma tentativa de alcançar o que já não está mais, de reconstruir, com palavras e melodia, uma presença ausente. Mas não há reclamação nem dramatismo, apenas uma voz que pergunta com serenidade. Não busca obter respostas, e sim acolher a incerteza que permanece quando alguém vai embora. Nesse sentido, “Dime” é uma canção sobre a ausência, o desejo de compreender e a saudade do cotidiano.

Em termos musicais, qual a ligação desta canção com seu país e com gêneros musicais?Dime” tem uma sonoridade que remete ao Caribe hispânico. Está construída sobre uma base rítmica sutil, enraizada na trova latino-americana, com arranjos de violino e trompete que adicionam textura e profundidade. A produção busca equilibrar o calor com a nostalgia. Há uma conexão emocional com gêneros como o son cubano e a charanga, mas também com a canção de autor latino-americana — aquela que coloca a palavra no centro.

Fale sobre o EP do qual esta música é uma das faixas.Dime” é o segundo single do meu EP de estreia, um pequeno conjunto de cinco canções que percorrem diferentes zonas da alma: a perda, a culpa, a saudade, o desejo. Não há uma história linear, e sim uma geografia emocional. O EP foi produzido pelo mestre Lorenzo Barriendos, e trabalhamos com muito cuidado para que cada faixa tivesse sua própria atmosfera. “Dime” ocupa um lugar especial pelo seu tom interrogativo, sua cadência quase de prece, sua mistura de movimento e melancolia.

Conte-nos, quem é o artista Ricardo Isea? Sou venezuelano, nascido em Caracas, e atualmente vivo em Barcelona. Passei quase duas décadas entre América, África, Ásia e Europa, e isso moldou meu jeito de ver, sentir e cantar. Embora a música sempre tenha feito parte da minha vida — especialmente pela influência dos meus pais — minha formação acadêmica é mais filosófica do que musical. Nas minhas canções convivem essas duas dimensões. Deixo-me atravessar pelo emocional, mas também tenho um cuidado especial com a palavra. “Dime”, como outras canções do EP, nasce nesse cruzamento delicado entre quem vive intensamente e quem observa em silêncio; entre quem se entrega e quem tenta compreender.

Respostas Ricardo Isea

JOSHUA – “I LIKE IT ON THE LAKE” feat: Ryan Tyler – (EUA)

QUANDO SURGIU A COMPOSIÇÃO? Eu escrevi a música “I LIKE IT ON THE LAKE” no dia 3 de julho e fui gravá-la em Nashville, Tennessee, no dia seguinte.

O QUE INSPIROU A MÚSICA também inclui QUAL É O TEMA DA MÚSICA? Adoramos passar tempo no lago em família. Ficamos lá praticamente o tempo todo que passamos lá naquela semana, e a paz que sentimos, mas também a emoção de estarmos juntos, foram impagáveis. Foi nesse sentimento de união que essa música surgiu na minha cabeça. Sei quando é uma boa música se ela fica na minha cabeça e eu canto o refrão e outras pessoas a cantam de volta sem nunca ter escrito nada. Então, terminei a composição naquela noite. No dia seguinte, eu estava no estúdio gravando.

COMO EU DESCREVERIA A MÚSICA E O QUE ELA DIZ SOBRE MINHA CARREIRA? Assim que gravei, percebi que tinha uma vibe, mas faltava uma coisa: uma voz feminina. Minha irmã estava me buscando no estúdio para me levar ao aeroporto. Ela entrou no estúdio e eu pedi que ela fizesse os backing vocals na faixa. Ela concordou, e isso realmente faz da música o que ela é hoje. O nome dela é Ryan Tyler. Ela chegou ao top 40 nas paradas country e já estava bem no ramo antes de eu começar, o que só aconteceu em outubro do ano passado, quando lancei meu primeiro álbum. Ela está aposentada agora, então poder tirá-la da aposentadoria foi um sonho que se tornou realidade para mim, porque adoro como nossas vozes soam juntas. Nada supera a harmonia entre irmãos.

O QUE EU QUERO QUE AS OUTRAS PESSOAS SAIBAM? Uma semana depois, em 13 de julho, a música foi lançada (ontem). Parece que está ganhando força. Várias rádios a adotaram e ela já está tocando, incluindo 10 estações no Brasil perto de Campos e muitas rádios locais nos EUA. O Brasil sempre teve um lugar especial no meu coração.

Esta semana, fui notificada de que minha música dance Awakened – Remix estava na 56ª posição nas paradas de dança do Brasil. Eu nem promovi muito a música desde o seu lançamento, então foi um choque total, mas estou muito grata, pois é a minha primeira vez em um lugar que visito há metade da minha vida.   Tenho família lá e meu marido, com quem estou casado há 9 anos, também é brasileiro/gaúcho.

Minha gama de composições musicais pode variar de country a deep house com um toque country. Tenho meu próprio selo, LittleTrees, e o lema da LIttleTrees é “PODEMOS COMEÇAR PEQUENOS, MAS ESTAMOS AQUI PARA CRESCER”.

O principal que quero que o público sinta ao ouvi-la é um sentimento de união. Minha missão é espalhar amor, aceitação e esperança. Tento compor músicas que transmitam isso… E se você gosta de calçar as botas, chutar o chão com os calcanhares, pisar forte, dar cambalhotas ou simplesmente colocar um chapéu de cowboy, aproveite a música! Adoro que vocês estejam compartilhando e quero muito agradecer ao ouvinte por ouvir. Música é para ser compartilhada!

Respostas JOSHUA

Billy Vega – “Hot Lava” – (EUA)

Em que momento surgiu esta composição e o que a inspirou? Esta música nasceu depois de uma noite inesquecível com alguém especial — uma daquelas noites quentes de verão que parecem eletrizantes, como se tudo pudesse acontecer. Cheguei em casa cheia de energia, fui direto para o meu computador e comecei a experimentar sons que capturassem exatamente como eu estava me sentindo naquele momento. Assim que a faixa começou a tomar forma, o refrão simplesmente fluiu de mim — foi natural, como se a música estivesse se escrevendo sozinha.

Qual é o tema da música? Que mensagem ela transmite? O tema central da música é o amor ardente e apaixonado — o tipo de amor intenso, magnético e inegável. É sobre estar com alguém que incendeia o seu mundo da melhor maneira possível. É por isso que a chamei de Lava Quente — é uma metáfora para aquela química ardente e conexão avassaladora que faz você se sentir literalmente em chamas.

Em termos de som, como você descreveria essa música? É uma faixa pop-dance com uma vibe de verão descontraída, mas magnética. Eu queria que ela soasse contagiante e suave, mas com momentos que marcassem — como pequenas explosões sonoras. Logo antes do refrão, há um leve crescimento e uma construção, e então ela se precipita no refrão como uma onda de energia. A ideia é soar como uma aventura de verão quente, emocionante e meio viciante.

Qual é a conexão dessa música com o seu país, os EUA? Sinceramente, sinto que essa faixa transcende fronteiras. Amor e paixão são universais — não importa onde você more, todos nós queremos sentir essa centelha. Então, mesmo morando nos EUA, espero que essa música ressoe com pessoas ao redor do mundo. É mais sobre emoção do que geografia.

Há algo interessante ou único sobre o lançamento que você gostaria de destacar? Sim — esta é, na verdade, a primeira música que completei completamente sozinha, desde a composição da letra até a produção da faixa inteira. Já comecei muitas músicas no passado, mas esta foi a primeira que levei até a linha de chegada. Terminei em dezembro de 2024 e agora estou muito animada (e orgulhosa) de finalmente compartilhá-la com o mundo.

Respostas Billy Vega

GOHAR – “GET OUT MY WAY!” – (Austria)

Qual é a melhor sinopse dessa música?SAIA DO MEU CAMINHO” é sobre me manter firme em quem eu sou. É sobre reconhecer o meu valor e não mais me encolher para deixar os outros confortáveis. Não é raiva — é clareza. Sou eu dizendo: aprendi meus limites e os respeito o suficiente para protegê-los.

Que reflexão ou ideia gerou essa música? E a letra em particular, o que ela diz? Veio da experiência de vida — anos ouvindo como eu deveria agir, como eu deveria me vestir, como eu deveria me apresentar, como eu deveria me apresentar, especialmente como mulher, e como uma criança crescendo em um lar muito conservador. Chegou um ponto em que parei de pedir espaço e simplesmente o aproveitei. A letra reflete essa mudança. Ela diz: “Chega de me apresentar, chega de ser excessivamente educada ou quieta só para evitar desconforto”. Se alguém cruzar a linha, verá que não tenho medo de me defender.

Musicalmente, o que você explorou nessa música? Musicalmente, é poderosa, mas intencional. Há uma tensão na faixa – é assertiva sem ser agressiva. A bateria de metal no final foi um experimento no início, mas acabou se revelando, na minha opinião, uma das melhores escolhas musicais para a música. Essa batida reflete alguém enraizado, calmo, mas absolutamente não deve ser subestimado.

É possível estabelecer uma conexão entre essa música e seu país, a Áustria? Sim, com certeza. A Áustria é uma cultura muito educada, o que tem sua beleza, mas às vezes essa polidez pode parecer um pouco superficial, como se as pessoas estivessem fingindo gentileza em vez de serem totalmente honestas. Então, com esta música, quero dizer: a autenticidade é mais importante para mim do que me encaixar em um molde. E acho que cada vez mais pessoas na Áustria estão começando a sentir o mesmo.

Respostas GOHAR

Malika La Bendita – “Lejos De Mí” – (Marrocos)

Qual reflexão ou ideia gerou essa música? Já ouviu falar do Triângulo Dramático de Karpman? Eu vivi dentro dele. Em loop. Até que deixei de le viver.

Aqui vai a história por trás de “Lejos de Mí” Alguns de vocês talvez já conheçam o Triângulo Dramático de Karpman, aquela dinâmica caótica onde uma “vítima” é atacada por um “perseguidor” e espera desesperadamente que um “salvador” venha resgatá-la.Pois é… esse salvador? Era eu.

Em nome do amor e do cuidado, acabei carregando vidas inteiras nas costas, fazendo todo o trabalho emocional pesado e, aos poucos, me perdendo no processo. Vamos deixar uma coisa clara: não existe papel nobre nesse triângulo, especialmente o do salvador. Pode parecer altruísta, mas é profundamente tóxico. Os limites desaparecem. A necessidade de controlar tudo (emoções, resultados, comportamentos, até mesmo a cura do outro) toma conta.

Há dois anos, comecei a encerrar meus padrões de salvadora, graças ao trabalho profundo e às formações que fiz com minha coach e terapeuta da época.

Escrevi “Lejos de Mí” (“longe de mim”) há mais ou menos um ano para captar exatamente essa sensação de poder e libertação, a de sair, finalmente, de todos os triângulos de Karpman nos quais eu estava presa.

E a letra em particular, o que diz? A letra fala exatamente dessa libertação de padrões relacionais confusos e dramáticos, no meu caso, relacionados ao papel de salvadora. A canção começa com esse ponto de vista antigo, e aos poucos se transforma, ganhando leveza, até alcançar um lugar de consciência e liberdade. É uma celebração dessa emancipação.

Musicalmente, como você a descreve? É uma fusão entre ritmos urbanos da América Latina e batidas do norte da África. Minha música é cheia de alegria, mas sempre com um toque de melancolia, rebeldia ou consciência social por trás.

Qual a relação desse lançamento com o seu país, o Marrocos? Nessa música, faço homenagem a um ritmo tradicional do norte da África e do Marrocos chamado chaabi, que aparece no final da faixa. Também canto um trecho em minha língua nativa: o árabe marroquino, ou “darija”.

E, por fim, há algo de curioso que você queira destacar? Sim! Meu nome é Malika, sou um puro produto do “terroir” marroquino — mas me sinto latina de corazón desde sempre. Tenho a convicção de que o norte da África e a América Latina têm muito em comum. Minha música celebra esse denominador comum: os ritmos afrodescendentes, a alegria, a gratidão, e as pressões socioculturais que ainda pesam sobre nossos ombros.
Ainda não falo português, mas já visitei algumas cidades lindas do seu país maravilhoso — e energeticamente, me senti em casa.

Repostas Malika La Bendita

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