28 de julho de 2026

O mistério dos carros gêmeos e o sapo que parecia saber de tudo (Por Fredi Jon)

Por Fredi Jon (Grupo Serenata&Cia) – Era uma tarde fria de junho. Estávamos a caminho de uma serenata no Brooklin quando algo completamente inesperado aconteceu.
Paramos em um semáforo e, de repente, o silêncio dentro do carro foi quebrado por uma sequência de exclamações.
— Não é possível!
Ao nosso lado estava um carro exatamente igual ao nosso.
Mas quando digo exatamente igual, não estou exagerando. Era a mesma cor, o mesmo modelo, o mesmo ano e até o mesmo estado de conservação. Parecia que alguém havia feito uma cópia perfeita do nosso veículo.
Já estávamos rindo da coincidência quando percebemos um detalhe ainda mais inacreditável.
No vidro dianteiro balançava um pequeno sapo pendurado.
O problema é que o nosso carro também tinha um sapo pendurado no vidro.
E não era parecido.
Era igual.
Mesmo tamanho. Mesmo formato. Mesma posição. Parecia que alguém havia copiado até o enfeite.
Por alguns segundos ficamos olhando para o outro carro sem saber se ríamos ou se tentávamos entender aquela cena improvável. Entre brincadeiras e teorias absurdas, alguém comentou:
— Acho que encontramos nosso carro em uma realidade paralela.
A gargalhada foi geral.
Mal sabíamos que aquele encontro curioso combinava perfeitamente com a missão daquele dia.
Fomos contratados para ajudar a integrar um grupo de moradores de um residencial. Segundo nossa amiga Silvia, que havia sugerido a serenata, a convivência por lá não andava fácil. Já tinham tentado várias iniciativas para aproximar as pessoas, mas os resultados eram pequenos. Havia grupos fechados, diferenças de opinião e pouca disposição para criar novas amizades.
Quando chegamos, percebemos que o desafio era real.
Mas a música costuma enxergar caminhos onde outras ferramentas não conseguem.
Começamos com canções alegres. Depois vieram lembranças de programas antigos, comerciais que marcaram época e histórias que despertavam memórias afetivas. Foi bonito observar o que acontecia. Pessoas que mal se cumprimentavam começaram a completar juntas os jingles antigos. Outras passaram a compartilhar histórias da juventude. Aos poucos, o ambiente foi ficando mais leve.
Também trouxemos mensagens simples sobre convivência, respeito e amizade. Nada de discursos longos. Apenas reflexões capazes de lembrar que todos carregamos alegrias, dificuldades, sonhos e fragilidades muito parecidas.
As brincadeiras fizeram o resto.
O que começou com alguns sorrisos tímidos terminou com rodas de conversa, risadas espontâneas e uma atmosfera completamente diferente daquela que encontramos ao chegar.
Dias depois, Silvia me ligou empolgada.
— Fredi, deu certo! O pessoal continua comentando o encontro. Parece que finalmente descobrimos como virar a chave. As pessoas estão mais próximas.
Desliguei o telefone lembrando do carro gêmeo encontrado naquela tarde gelada.
E pensei numa curiosidade da vida.
Às vezes, passamos tanto tempo procurando as diferenças que esquecemos o quanto somos parecidos. Assim como aqueles dois carros idênticos cruzaram nosso caminho por acaso, muitas pessoas que acreditam ser tão diferentes compartilham histórias, sentimentos, medos e sonhos muito semelhantes.
Ai veio a reflexão: Será que o segredo da convivência esteja justamente aí?
Não em procurar o que nos separa, mas em descobrir aquilo que nos faz reconhecer um pouco de nós mesmos no outro.
E se alguém me perguntar qual foi a grande estrela daquela serenata, certamente eu responda sem hesitar: O sapinho, claro.
E pensando bem, talvez aquele sapo pendurado no vidro estivesse ali para nos lembrar de algo. Durante a vida, todos nós acabamos tendo que “engolir alguns sapos”. Pequenos desentendimentos, diferenças de opinião, manias dos outros que nos incomodam e situações que não acontecem exatamente como gostaríamos. Mas naquele residencial, as pessoas descobriram que conviver não significa concordar com tudo. Significa aprender a valorizar o que nos aproxima mais do que aquilo que nos separa. Curiosamente, naquela tarde encontramos dois carros idênticos, com dois sapos idênticos balançando no vidro, e fomos justamente ajudar um grupo que precisava perceber o quanto seus moradores também tinham mais semelhanças do que diferenças. A vida tem senso de humor, porque, no fim das contas, quando aprendemos a engolir alguns sapos, acabamos abrindo espaço para colecionar muito mais risadas, amizades e boas histórias para contar. E aquela, sem dúvida, virou uma delas.

Conheça nossa arte da serenata – serenataecia.com.br / 11 99821-5788

Newsletter

Lupa na Canção #edição19

Muitas sugestões musicais chegam até nós, mas nem todas estarão aqui. Esta é uma lista de novidades mensais, com músicas.

LEIA MAIS

Pedro Pereira: azul que te quero azul

Comer muito mel não é bom; assim,a investigação da própria glórianão é glória. Provérbios 25:27 A pintura de Pedro Pereira.

LEIA MAIS

Rogério Skylab: o feio e o bonito na MPB

Criador do estilo “punk-barroco” (o punk que se expressa através de contrastes), o compositor Rogério Skylab (1956 -) é um.

LEIA MAIS

Mercedes Sosa em 241 palavras

Mercedes Sosa é uma cantora argentina nascida em 1935, na província de Tucumán. É considerada como “a voz da américa.

LEIA MAIS

Manuelito: para além de um mestre da fotografia

Oriundo do Ceará,Manuelito veio residir em Mossoró, aqui permanecendo e trabalhando até o final de sua vida. Suas fotografias deixavam.

LEIA MAIS

Artistas destacam e comentam álbuns de 2023 e de outros anos

Sob encomenda para a Arte Brasileira, o jornalista Daniel Pandeló Corrêa coletou e organizou comentários de onze artistas da nova.

LEIA MAIS

Uma breve leitura dos festivais de ontem e de hoje

Nesta manhã de quinta-feira, dia 22 de março de 2017, acabei de ler o livro “Tropicália – A história de.

LEIA MAIS

Damião Costa: a pintura como morada do instante

O artista Damião Costa (São Vicente, RN, 1987), desde a infância, quando os olhos se detinham nos leilões televisivos de.

LEIA MAIS

CONTO: Os Bicos de Gás e o Cigarro King Size (Gil Silva Freires)

Maldita família. Malditos papai-mamãe-titia, como diziam os Titãs. Kleber era fã incondicional dos Titãs e a proibição paterna de assistir.

LEIA MAIS

Bersote é filosoficamente complexo e musicalmente indefinido em “Na Curva a Me Esperar”

A existência é pauta carimbada na música brasileira, como apontamos nesta reportagem de Jean Fronho (“Tom Zé já dizia: todo.

LEIA MAIS