21 de outubro de 2026

Conceição Fernandes: a presença e a valia do silêncio na arte

1.

Conceição Fernandes

Conceição Fernandes (Mossoró, 16.05.1957) é atualmente professora aposentada, tendo atuado como professora nas redes estadual e municipal. Dedica-se às atividades que aprecia e preenche seu tempo com jardinagem e pintura. Estudou Arteterapia pela Universidade Potiguar. Ingressou no curso de Educação Artística na UFRN, tendo sido aluna de escultura de Socorro Evangelista, que acabou assumindo o papel de mestra. Foi assim que surgiu o seu interesse pela terceira dimensão, pela escultura em diversos materiais, sobretudo o mais simples: a argila. Outrossim, estudou cerâmica e modelagem com Regina Guedes.

De temperamento inquieto, não poderia ficar presa a um só material; por isso lhe chegaram, quase que naturalmente, os diversos meios para formatar seus trabalhos na escultura, tais como pedra-sabão, arenito, pedra grês, resina, mármore sintético, marmoline imitando granito, concreto patinado, resina imitando granito.

Ora, o fato de amanhar materiais vários fez com que organizasse na sua mente uma coleção tanto de minérios como de texturas ou de paleta diversa, já que as esculturas, durante o processo de mistura do material primário, recebem cor diferente uma da outra. Esse fenômeno ocorre sempre que se misturam dois materiais de origem diferente, sejam naturais, como a argila, sejam sintéticos. Quase sempre é uma cor baça e, caso o artista saiba desenhar as linhas da peça, origina-se uma escultura de beleza e linhas simples, quase sempre estilizada ou que remete a uma imagem do corpo humano. É o caso de Conceição Fernandes.

Embora tenha se destacado nas artes visuais, em pinturas que logo comentaremos, foi na escultura que repontou com uma originalidade que a fez brilhar com intensidade, criando peças de grande lavor. Sua intrínseca heterogeneidade a fez engendrar esculturas de grande sensualidade, tanto manuseando um par como grupos de pessoas em momentos lascivos. Mesmo que alguns ponham nossa cabeça em dúvida, como outros que se lançam mais para o explícito, não há como conduzir a outro pensamento se não o da dança em grupos de indivíduos despidos.

Para apreciar a obra de Conceição Fernandes, necessário se faz abster-se de uma moral que a sociedade insiste em querer apontar, ditando como deve ser o comportamento das pessoas quando se trata do nu sem rodeios, mas explicitando uma naturalidade, sem pudor e sem os necessários grilhões que a cultura ensinou desde sempre a ser e parecer. Como podemos ver, sua obra é multifária, inquieta e plena de uma identificação com o heterogêneo, refratando repetições que conduzam a imitações de si mesma ou de outros escultores.

2.

Conceição Fernandes

Na sua pintura, destaca-se como exímia retratadora das paisagens naturais, sobretudo de pequenos córregos descendo entre pedras e vegetação. Com efeito, parece que o contemplar  uma natureza mais agreste, sem levar os índices nos quais o humano encontra-se subliminar, conduz a um conjunto de telas no qual não há a presença de habitantes, sujeitos voltados para algum ofício ou exercitando alguma espécie de elaborar o que pode ser feitio das pessoas, como cortar sebes, podar, fazer mudas, ou qualquer que seja, desde que remeta ao trabalho com a vegetação.

Essa série é bastante curiosa na sua deliberada maneira de se confrontar com o real. São muitas telas de um delicado impressionismo, sendo que metade procura retratar o solo com seus riachos, suas opulentas árvores e algumas casas despidas do elemento humano. Essas paisagens rurais evocam o silêncio e uma vida bucólica, que faz lembrar o ideal do Romantismo: o culto à natureza e a fuga da cidade em busca de um locus antípoda à agitação do urbano.

3.

Essa ânsia por lugares plácidos, nos quais estão presentes signos que remetem ao sossego, aparece de diversas maneiras, desde um banco com uma menina e sua bicicleta, como se estivesse descansando do passeio, rodeada por árvores com folhas amarelas, sugerindo uma estação outonal. Pode-se considerar o signo do silêncio como quedo e sereno, antípoda ao burburinho dos parques urbanos.

4.

Na pintura de Conceição Fernandes, há uma coleção de animais e flores que reforça a nossa relação com elementos do Romantismo. Além dos córregos singrando entre pedras e árvores, em recortes que não apontam o lugar onde fica o estuário (se é que há), suas pinturas apenas se comprazem em evocar símbolos do silêncio e de uma vida tranquila.

Conceição Fernandes

Reforçando esse silêncio no qual a presença humana não foi posta como um dos elementos da tela, como já disse, a pintora preocupou-se em retratar uma coleção de animais sempre em um estado que lembra a tranquilidade: os peixes deslizando como se fossem em um aquário, cavalos-marinhos, pássaros sobre galhos, flores como o lírio, estrelítzia. As flores firmam-se na tela, causando no espectador dois fenômenos: o preciso retrato de um objeto da realidade e o estético. Elaboradas sobre tela ou madeira, pintadas com acrílica ou óleo, as pinturas não abandonam seu quase obrigatório culto ao silêncio.

Essa abundância de flores de muitas qualidades, pintadas com esmero e exímio cuidado, conferem uma realidade cujo remanso parece ser uma proposta a que se viva buscando uma quietude interior, contrapondo-se à realidade que nos atribula e acaba por nos fazer confundir o que se quer de verdade como forma de existir, como forma de estar quedo no mundo, como forma de elevar o silêncio a um exercício de espiritualidade, soprando

a azáfama que nos rodeia, quer dizer, uma sociedade que o tempo todo nos cobra, de tempos em tempos, determinadas maneiras de nos comportarmos.

5.

Com efeito, cada tempo detém suas tiranias, suas imposições, demandas que vão da moda à alimentação, passando pelo vocabulário, enfim, deixando muito pouco o que o Espírito do Tempo anterior tenha deixado. Trata-se de uma sociedade com eventos nos quais predominam a zoada e uma felicidade artificial. As redes sociais vieram enterrar de vez valores como a amizade, o bem-querer ou o silêncio sadio de uma busca de si mesmo. O silêncio desses tempos da informática é extremamente tóxico e narcisista; as pessoas não largam os celulares, onde quer que estejam.

Quero dizer com isso que outra espécie de silêncio foi criada, fazendo com que as pessoas fiquem consigo mesmas e manuseando os celulares. Esse silêncio é distinto do proposto pela pintura de Conceição Fernandes, sendo este muito mais uma busca de autoconhecimento ou certo desprezo por essa sociedade cuja soberba e cujo narcisismo foram elevados a valores equívocos. O que aparece é que essa mudez, esse remanso mórbido, veio para ficar. Lamentavelmente. Resta contemplar, de maneira tácita, o silêncio de uma pintura propondo outra forma de ser, diferentemente da que impera nos dias de hoje.

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