18 de outubro de 2026

Rodrigo EBA lança álbum relacionado ao momento melancólico do Brasil [ENTREVISTA]

 

Esse novo lançamento de Rodrigo EBA, assim como muitos outros, tem a preocupação em fazer algo relacionado ao momento que o Brasil está. É assim que Rodrigo dialoga sua música.

— Esse disco é imensamente ligado ao momento melancólico que vivem atualmente as pessoas com alguma empatia e sensibilidade depois do golpe no Brasil. Estamos sob escombros do que o País nos prometeu de democracia e justiça e é cada vez mais difícil acreditar que isso possa mudar. O disco representa esse momento. Chamar o Brasil de fictício, surreal e improvável é uma maneira de dizer o quanto as coisas são contraditórias por aqui, a ponto de parecer uma má ficção. Se a gente colocasse num filme esse comportamento aleatório da sociedade brasileira certamente diriam que é um roteiro ruim.— comentou Rodrigo.

 

Abaixo, veja na íntegra uma entrevista especial que fizemos com o músico.

 

 

Chama muito a atenção o fato de que você fez tudo no disco, como produção, gravação e criação. Como foi para você esses processos?

Eu costumo dizer que faço tudo no disco mais por necessidade que por vaidade. Desde criança dei um jeito de criar meus próprios brinquedos e isso se reflete na minha vida adulta: eu ter aprendido a fazer animação ou gravar minhas próprias músicas se encaixa nisso. Gosto muito de trabalhar com outros artistas, mas é cada vez mais difícil conseguir reunir três ou quatro amigos no mesmo tempo e espaço. Fiquei muito tempo tentando encontrar as condições ideais, mas de uns tempos pra cá resolvi ser mais prático e encarar tudo sozinho. Fica no mínimo mais fácil de gerenciar a agenda tendo uma pessoa só! Eu acho que o resultado seria diferente se tivesse a ajuda, a criatividade e o conhecimento técnico de todo mundo, mas aprendi a chegar num resultado que eu vejo interessante, que representa esse processo solitário de uma maneira autêntica. Fiz isso no meu primeiro disco solo, do ano passado, e é por isso que ele se chama IMPERFEITA INEXISTÊNCIA. Nesse disco agora continuei o mesmo processo.

Paralelamente eu fiz um projeto chamado CANÇÕES SEM TEMPO que foi oposto a isso, com 7 canções e 7 convidados que compuseram e gravaram comigo no menor tempo possível. Foi bom para arejar minhas ideias, pra eu não me isolar criativamente nos processos dos meus discos.

 

POESIA DE ABUTRES foi a única música no disco que não é composição própria. Por que escolheu essa canção para o disco?

Desde que comecei a tocar, no fim dos anos noventa, fazer covers era quase que uma obrigação pra se conseguir shows em barzinhos, e barzinho era o único lugar que se podia tocar naquele tempo. Já nos 2000 conheci o trabalho da banda Katarse. Fui num show deles, eles não tocaram nenhuma cover e isso não fazia falta.

O público cantava junto as letras próprias da banda. Aquilo pra mim foi libertador. Decidi que não faria mais cover a não ser que fizesse muito sentido para o que eu estava querendo expressar e desde então nos meus shows toco só música autoral. Lancei 3 discos e essa é a primeira cover. POESIA DE ABUTRES é uma música do meu primo Fagner Branco, jornalista e produtor cultural. Cantando essa música esse ano percebi que ela descreve perfeitamente a situação do País: estamos apodrecendo sob o sol, direitos interrompidos, esperanças despedaçadas, só que essa situação é uma poesia para quem se alimenta disso. Além disso ela cumpre a função no disco de expulsar a melancolia através da raiva, ela marca o momento em que não sobra nada e é preciso recomeçar. Não que eu acredite muito nisso, mas criei um disco pra tentar me convencer disso.

“É um álbum poético, instigante, reflexivo e político, onde cada faixa impressiona e deixa aquela pulga atrás da orelha”. Faça um comentário sobre isso.

Eu me baseei em alguns estados mentais pra montar a ordem das músicas: da melancolia ao sarcasmo à raiva à ironia ao equilíbrio. Um roteiro que me ajudou a criar uma saída do próprio estado mental que eu estava. As músicas são bem diferentes entre si e nas letras eu adoro brincar com diversas formas e sentidos. Gosto de criar familiaridade com formato pop e vocabulário coloquial e então jogar alguma surpresa. ¿QUEM VOCÊ É?, por exemplo, é uma canção que eu montei como uma sessão de terapia, da gente se sentir se despindo de conceitos sociais, morais e até comerciais pra ver o que sobra. Foi divertido brincar com vários conceitos do que a gente acha que nos define. Ela também defende uma tese de que a nossa individualidade é representada por tudo que a gente faz pela coletividade.

Tem alguma história interessante que envolva o disco?

Pra representar o disco surgiu a imagem de escombros, presente na capa, no nome de uma música e nas peças de divulgação. Eu tenho uma gigantesca e competente equipe de marketing que, pra promover meu disco, instalou milhares de caçambas com entulho nas principais cidades brasileiras. Assim, todo mundo que passar por uma dessas vai lembrar do ¿COMO VOCÊ SE ESTENDE?. Coloquei essa mensagem nas redes sociais e recebi até foto de entulho de Paris pra mostrar que minha equipe de marketing foi mais eficiente do que eu imaginava!

 

Fale mais sobre o seu trabalho, como coisas que não perguntei e que você gostaria de ter dito.

A música e a animação são formas de expressão que utilizo pra tentar digerir o mundo. Elas tem a mesma importância na minha vida e pra mim não faz sentido restringir a atuação artística a só uma forma. Aliás, cada vez mais tenho tido a vontade de expandir ainda mais a área de atuação, talvez dirigindo filmes de imagem real, talvez com exposições envolvendo eletrônica. Quando consigo juntar dois desses num só, como foi no curta Graffiti Dança, no qual eu dirigi e fiz a música, melhor ainda!

 

 

 

 

 

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