17 de março de 2026

A GÊNESIS DA CANÇÃO (#4) – Conheça o processo criativo de cinco novas canções, brasileiras e internacionais

A GÊNESIS DA CANÇÃO é uma fusão das versões focadas em processo criativo das listas ALÉM DA BR (lançamentos internacionais) e LUPA NA CANÇÃO (nacionais), que agora se tornam oficialmente editorias. Sob este domínio, já publicamos e desbravamos em torno de 4 mil lançamentos, de brasileiros e de artistas mundo afora.

A GÊNESIS DA CANÇÃO não muda muito a lógica das edições anteriores. Selecionaremos sempre cinco artistas, que irão contar com suas próprias palavras sobre a criação de suas novas músicas. A diferença é que antes artistas brasileiros ficavam em listas separadas, e agora está tudo junto.

Vale dizer que o conteúdo aqui apresentado tem exclusividade da ARTE BRASILEIRA, escrito sob encomenda. A sequência foi escolhida via sorteio, ou seja, não há “melhores e piores”.

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---> Rosabelle - "Lailah Hallelujah" - (ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA)
Quando chegaram as férias escolares de verão, eu sabia que queria me dedicar à música. Meu pai e eu reservamos uma semana inteira para morar juntos no estúdio, e isso se tornou o cerne deste projeto. Não se tratava apenas de gravar — tratava-se de criar um espaço onde eu pudesse me conectar com a música e descobrir como eu queria contar sua história.
A base começou com os instrumentos. Meu pai gravou primeiro as guitarras e a bateria, criando texturas que transmitiam uma sensação de solidez e, ao mesmo tempo, de amplitude. Depois disso, eu adicionei o piano — focando em acordes e dinâmicas que complementassem o arranjo sem comprometer sua simplicidade. Meu jeito de tocar era suave, dando espaço para a música respirar.
Durante alguns dias, apenas ouvi. Deixei a música me envolver até sentir onde minha voz se encaixava nela. A versão original da canção tem muitos versos, então precisei decidir qual deles transmitia a emoção que eu queria compartilhar. Por fim, escolhi o verso final — me pareceu o final mais sincero.
A gravação dos vocais aconteceu rapidamente assim que eu estava pronto. Em apenas duas ou três tomadas, capturei a parte principal e depois adicionei as harmonias por cima. Essas harmonias eram especiais porque não soavam forçadas — surgiam naturalmente, como se a música estivesse esperando por elas.
A última etapa foi a mixagem, que fizemos juntos ao longo de alguns dias. Mesmo tendo sido tudo feito em um estúdio caseiro, o processo pareceu profissional, mas profundamente pessoal. Foi um esforço familiar, repleto de paciência, apoio e inspiração. No fim, a música não me reflete apenas como artista — ela reflete o amor e a conexão entre meu pai e eu que a tornaram possível.

Comentário de Rosabelle Lailah

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---> BRINCESS - "phonk" - (BRASIL)
O processo criativo de “phonk”, colaboração entre a artista brasileira BRINCESS, o venezuelano G.nio e o produtor americano Jamaal Andersson, nasceu da vontade de unir culturas e criar algo que fugisse do comum. A ideia era misturar a sensualidade do reggaeton com a energia pulsante do funk brasileiro, resultando em uma batida que fosse tanto dançante quanto sofisticada. Desde o início, BRINCESS queria representar o poder feminino com uma voz delicada, porém firme — algo que se destacasse mesmo entre graves intensos e percussões marcantes.
Durante a produção, Jamaal trouxe sua experiência internacional para dar à faixa um acabamento moderno, incorporando elementos eletrônicos e texturas melódicas que deixaram o som mais envolvente. O estúdio se tornou um espaço de experimentação — cada um trouxe suas referências e estilos, e o resultado foi um equilíbrio perfeito entre o groove latino e o ritmo do funk carioca.
A voz de BRINCESS foi o fio condutor da música, expressando atitude e confiança sem perder a suavidade. G.nio complementou com seu flow vibrante e espontâneo, adicionando um toque urbano que atravessa fronteiras linguísticas e culturais. Juntos, criaram uma química que transforma a faixa em uma celebração da diversidade e da fusão sonora.
O groove da faixa carrega o DNA do funk brasileiro, mas também bebe das raízes do reggaeton, com batidas que convidam à dança e melodias que grudam na mente. Essa mistura, somada a nuances de pop alternativo, cria uma atmosfera vibrante e cinematográfica — como se cada batida contasse uma história de ritmo, liberdade e identidade.
Em resumo, “phonk” é mais que uma música — é um manifesto de conexão cultural. Um som que mostra o poder da colaboração global e a beleza de unir o melhor de três mundos: o calor do Brasil, a alma latina da Venezuela e a precisão criativa dos Estados Unidos.

Comentário de BRINCESS

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---> Loubback - "O Que Posso Ser" - (BRASIL)
"Desde criança, a música sempre esteve presente na minha vida, mas foi por volta dos 16 anos, ao arriscar cantar uma música de Raul Seixas em um karaokê, que descobri minha paixão pelo canto. Aos 18, comecei as aulas de canto, aprendi violão e, enquanto a vida seguia com estudos, trabalho e família, a música permaneceu como pano de fundo, aparecendo em momentos íntimos, em casa, com violão ou karaokê.
Em 2018, tudo mudou quando passei a integrar, como vocalista, a banda de covers de rock e pop rock Golden Valley Brazil, fazendo com que a música deixasse de ser coadjuvante para assumir, de vez, o papel de protagonista na minha vida. Nesse período, aprofundei novamente os estudos de canto, iniciei minhas primeiras composições e, desse movimento criativo, nasceu o encontro com o cantor e produtor André Leite, a quem apresentei algumas dessas músicas. A partir dessa parceria, meu primeiro álbum autoral ganhou forma e vida.
A jornada como artista independente, porém, é marcada por desafios: investimentos constantes, estudo, trabalho duro e um reconhecimento que nem sempre acompanha o esforço. Nesse contexto, surgem dúvidas, cansaço e a tentação de recuar. Ao mesmo tempo, cresce a consciência de que o dom recebido traz uma missão: levar palavras de reflexão, conforto, provocação, crítica e oração por meio da música.
Foi em meio a esse conflito interior que nasceu “O que posso ser”. A canção emergiu de forma muito verdadeira, como um desabafo da alma, refletindo o peso das escolhas que podem tanto libertar de amarras internas e externas quanto aprisionar em arrependimentos e incertezas. Ela ecoa perguntas profundas: e se eu tivesse continuado? e se eu tivesse seguido por outro caminho?
Por fim, “O que posso ser” sintetiza a essência da minha proposta artística: um olhar sensível sobre os dilemas humanos, com linguagem acessível e poética, emoldurada por uma estética indie consistente. Ao explorar conflitos internos, identidade, fé, vulnerabilidade e sentido de vida, a canção busca criar laços profundos com quem escuta, convidando cada pessoa a olhar para dentro e se perguntar, também, o que pode ser."

Comentário de Loubback

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---> Gabriele Rizzo - "Let It Go" - (SUÍÇA)
"Let It Go" foi escrita pelo meu produtor, Sergio Fertitta, que tem um instinto incrível para melodias que transmitem emoção e força. Quando ele me apresentou a ideia inicial, senti imediatamente uma profunda conexão com a música, mesmo antes de entrar na cabine de gravação. Parecia o início de um novo capítulo para mim, e eu sabia que essa faixa refletiria um momento de mudança muito pessoal na minha vida.
Embora eu não seja o autor da letra, a história por trás de "Let It Go" se alinha muito com as minhas próprias experiências. A mensagem de deixar de lado as expectativas, aceitar as reviravoltas inesperadas da vida e permitir que o crescimento pessoal aconteça naturalmente é algo que vivenciei intensamente nos últimos anos. Essa verdade emocional tornou muito fácil para mim interpretar a música como se fossem minhas próprias palavras.
Quando Sergio apresentou a composição completa com as partes do coro, as harmonias cinematográficas me impressionaram imediatamente. O clímax coral representa o momento em que você finalmente expira e se liberta de tudo o que estava guardando dentro de si. Gravar essas partes foi incrivelmente impactante. Mesmo no estúdio, senti arrepios.
Todo o processo foi tranquilo e muito natural. Sergio criou uma atmosfera onde eu pude me concentrar puramente na emoção e na interpretação. A introdução ao piano, a construção da música, as camadas orquestrais e o coro foram todos concebidos para guiar o ouvinte da intimidade à libertação — da tensão à desapego. Meu trabalho foi dar voz a essa jornada emocional.
A mensagem central de Let It Go é simples: às vezes a vida nos redireciona, e em vez de lutar contra isso, crescemos com a experiência. A canção incentiva a abertura, a confiança e a coragem de se aventurar no desconhecido. É por isso que interpretá-la é tão pessoal para mim, mesmo que a composição tenha vindo da mente brilhante de Sergio. É uma canção que carrega sua visão musical — e a minha verdade emocional.

Comentário de Gabriele Rizzo

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---> Lux The Lion - "Drummond" - (BRASIL / CABO VERDE / PORTUGAL)
Minha infância foi sagrada e “nota 6”: classe média mediana, rua como mapa infinito, pão com margarina no recreio e gincanas que terminavam em abraço. A ausência do meu pai virou presença multiplicada pela minha mãe, meus avós e meus tios — amor em excesso, o melhor alicerce que já tive. Foi ali que aprendi que simplicidade é riqueza. Eu rio de mim mesmo quando o ‘amor com dor’ parecia poesia …
As melhores canções sempre nascem quando paramos de procurar frases de efeito e escutamos o que ficou. No caso de Drummond, ficou o pó da calçada, o suco de caju em copo de plástico, a pressa da campainha da escola, as brigas resolvidas em cinco minutos. Escrever essa canção foi voltar para esse agora que a vida adulta tenta apagar. Foi fotografar um fim de tarde e revelar depois. Eu rio de mim mesmo quando o ‘amor com dor’ parecia poesia …
“Drummond” veio assim, despretensiosa: “A gente sentava no quarto pra ver / abria um disco novo, assistia até MTV / no carpete enroscados só eu e você”. Três notas — “já é Legião” — e pronto: telefone fora do gancho, “tem alguém aí?”, o Discman tocando Kid Abelha, o convite bobo e lindo: “se for comigo / eu sei, você vem”. É menos estratégia e mais memória que insiste. Eu rio de mim mesmo quando o ‘amor com dor’ parecia poesia …
Entre gerações, reconcilio pontas: o estoicismo dos avós, as perguntas dos pais, o nosso cansaço de pensar demais. O primeiro acorde foi para alguém, o segundo para mim, o terceiro para quem escuta e reconhece o próprio retrato. “Oh, lua que embala / um poema de oitava série / a flor com dor rimando / virava Drummond” — e eu abraço o exagero adolescente com carinho. Eu rio de mim mesmo quando o ‘amor com dor’ parecia poesia …
No fim, prometo só honestidade: uns acordes simples mas com carinho, algumas imagens que cabem no bolso e um refrão que encontra quem precisa. Se essa música te achar — no trânsito, no fone, no toca-discos — que aqueça sem queimar e ilumine sem doer. Agradeço minha esposa, meus filhos, minha família inteira e todos os “nãos” que me ensinaram o “sim” que interessa. Eu rio de mim mesmo quando o ‘amor com dor’ parecia poesia … porque, no fim, é exatamente isso que é.

Comentário de Lux The Lion

administrator
Fundador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Apaixonado pelo Brasil e por seus grandes artistas.