13 de janeiro de 2026

COMO NASCEM AS CANÇÕES? (lista de lançamentos, p.2)

Já é um sucesso o nosso quadro LUPA NA CANÇÃO, focado em lançamentos nacionais de artistas emergentes. Já são dezenas de edições publicadas, e, agora, apresentamos um novo lado desta ideia, no qual iremos focar no processo criativo. Para isso, apresentaremos sempre cinco artistas, que irão contar com suas próprias palavras como nasceram suas canções, seus novos lançamentos. Vale dizer que o conteúdo produzido por eles tem exclusividade da Arte Brasileira, escrito sob encomenda. A sequência foi escolhida via sorteio, ou seja, não há “melhores e piores”.

Bruno Brocchi“Riding To Let You Go”

“Riding to Let You Go” fala sobre uma travessia emocional.

A inspiração veio de um momento de encerramento de ciclo na vida de alguém: uma despedida importante. A música surgiu como uma forma de processar esse adeus. A imagem de “andar para deixar alguém ir” apareceu como uma metáfora poderosa, que mistura movimento e aceitação, o impulso de seguir em frente com o peso de deixar algo para trás.

O processo criativo começou com uma melodia simples no violão, quase como um sussurro. Aos poucos, fui encontrando as palavras certas, aquelas que não explicam demais, mas carregam sentimento. A letra veio em inglês, talvez porque muitos dos sons que me inspiram também são nessa língua. Foi como escrever uma carta que talvez nunca fosse enviada.

Musicalmente, busquei uma sonoridade que misturasse o folk com elementos elétricos, criando uma atmosfera de estrada, vento no rosto, liberdade melancólica. Contar com o produtor musical Ale Cavena nos arranjos foi essencial para pintar essa paisagem emocional: cada instrumento entrou para reforçar a sensação de movimento e desapego.

Escrever sobre despedidas nem sempre é fácil, mas às vezes é necessário. Pode ser um jeito de entender que deixar ir também é um ato de amor, por você, pela outra pessoa, e pelo que foi vivido. Hoje, quando canto “Riding to Let You Go”, sinto que estou contando uma história que poderia ser minha, mas também de muita gente.

Comentário de Bruno Brocchi

Lazy Life“Balance”

“Balance” nasceu de uma inquietação que sempre esteve presente no autor da letra: a crítica ao modo de vida atual e como padrões são repetidos sem perceber. A música surgiu a partir de uma reflexão quase filosófica sobre moralidade, automatismos e contradições humanas. A premissa da reflexão paira sobre como passamos a vida correndo atrás de coisas e objetivos que são impostos pelo modo que vivemos e o fazemos de forma automática, sem questionar para onde estamos caminhando. O gatilho poético da canção se encontra nas ações humanas, naquilo que muitas vezes é entendido como certo ou errado, mas que podem não estar de acordo com o ideal, quando observadas de fora do ciclo social que as criou.

A construção da letra foi orgânica, com trechos escritos em momentos diferentes, sempre com a intenção de questionar rótulos e dualidades. Termos como “wrong or right” (certo ou errado) e “happiness or sadness” (alegria e tristeza) são apresentados não como opostos simples, mas como formas de aprisionamento emocional. Queríamos que a letra soasse como um desabafo sobre a dificuldade de encontrar sentido dentro de um mundo que exige posicionamentos prontos. Há uma forte crítica à superficialidade da vida performática dos rituais sociais e validação artificial (como as redes sociais), conforme se verifica no trecho “There’s no audience in this play / And the actors are not acting anymore / But it still full of cheers” (Não há audiência nessa peça / e os atores não estão mais atuando / mas continua cheia de aplausos).

Musicalmente, optamos por uma estética que traduzisse o peso e a contenção desse tema, de acordo com o estilo musical que gostamos de classificar como Rock Alternativo. A música começa melancólica, introspectiva, e vai crescendo até alcançar um clímax emocional, sem perder a coerência com o discurso da letra. O arranjo foi construído para servir a essa narrativa, com camadas que refletem o acúmulo de tensão interna e a explosão emocional, caracterizadas pelas bateria pesada, arranjos agressivos de guitarra e o vocal marcante.

O nome “Balance” tem duplo sentido. Ele representa tanto a busca por equilíbrio em meio ao caos quanto a ilusão de equilíbrio que muitos aceitam como suficiente. A repetição de certos versos, como “we are following the circle”, reforça esse loop de comportamentos condicionados que a música critica. Mesmo assim, há um sopro de esperança: a possibilidade de enxergar e de romper o ciclo.

Para a banda Lazy Life, essa faixa marca uma nova fase — mais madura, mais consciente e mais profunda liricamente. “Balance” é o início de um discurso artístico que queremos levar adiante, sem medo de expor nossas contradições e fragilidades. Essa música não tem pretensão de agradar, tampouco foi produzida pensando em nuances “comerciais”, o objetivo era simplesmente encaixar a melodia com a proposta da letra de forma coerente e autêntica. Esperamos que quem a ouça se sinta provocado a questionar e olhar para dentro.

Comentário de LAZY LIFE

Rayane Fortes e Roberta Campos“A Música do Fim”

Na verdade, eu já tinha as estrofes dessa música guardadas há um bom tempo. Ela foi escrita claramente depois de uma ilusão amorosa, mais um término não exatamente de uma pessoa específica, mas desse sentimento recorrente de recomeço, de ter que apagar as fotos, silenciar memórias, lidar com aquele vazio que fica quando um ciclo se encerra. A letra já trazia muito disso.

Quando eu mostrei a música pra Roberta Campos, ela captou tudo com uma sensibilidade impressionante. Em cerca de 30 minutos, ela compôs o refrão, e eu fiquei profundamente tocada. Disse pra ela que parecia um encontro de almas. Acredito muito que a música é uma troca de energia, um estado vibracional mesmo e ela entrou nessa frequência com tanta verdade que trouxe o que faltava: o toque emocional, melancólico, que completa a canção.

Os solos de guitarra fui eu mesma quem criei, em casa, totalmente entregue ao sentimento da música. Depois levei pro estúdio e gravei com o Gustavo, que produziu comigo e conseguiu manter essa mesma atmosfera que eu buscava desde o início.

Foi um processo muito sincero, muito vivo. E fico feliz em poder compartilhar um pouco dessa história com vocês. Obrigada pela oportunidade!

Comentário de Rayane Fortes

Débora Weisner – “CONVITE AO TEMPO”

“Convite ao Tempo” nasceu de um estado liminar — entre o sonho e a vigília. Acordei com uma melodia e palavras estranhas martelando na mente: TI WA RE PÁ PÁ / TI WA RUN PÁ / TI WA RUN PÁ / TI WA RE PÁ PÁ… Era como um mantra, repetido em cadência hipnótica. A princípio, tentei encontrar algum significado para aquelas palavras, como se fossem de uma língua ancestral. Mas nada surgia. Ainda assim, a sequência continuava ecoando, como se pedisse forma.

Meses depois, sentei ao piano e deixei que os dedos encontrassem os acordes que correspondiam àquela melodia insistente. Surgiram dois acordes simples e belíssimos, que abriram caminho para uma composição fluida. A melodia veio exatamente como está na gravação. Ao cantarolar por sobre esses acordes, compreendi: era um chamado ao próprio tempo — esse tempo não-linear, ancestral, espiritual. Quis tratá-lo como uma entidade viva, com quem se dança, negocia, provoca.

A letra nasceu como uma conversa em pé de igualdade com o tempo. Ora ele conduz, ora eu. É uma dança em que se perde e se ganha forma. “Danço com o tempo / em cada passo eu me desfaço / esse é o momento” foram os primeiros versos — e definiram o tom da narrativa. A canção convida ao agora, ao instante presente. Atravessa dimensões íntimas e coletivas, do descalço ao sagrado, do medo à entrega.

A direção musical do meu querido amigo ALEXL foi essencial para dar corpo à atmosfera que eu vislumbrava. A métrica pouco convencional da canção evocou nele o universo da Europa Central, em especial o grupo finlandês Värttinä e o coro Le Mystère des Voix Bulgares. Inspirado nessa estética, ele utilizou um saltério que remete ao som das kanteles finlandesas, além de criar um poderoso coro de 23 “Déboras” sobrepostas nos refrões — uma textura vocal densa, ritualística, quase “bruxa”. Logo no início, a introdução com uma matraca de brinquedo convida os ouvintes a regressar ao Tempo dos relógios despertadores, antes da era digital.

Tudo foi pensado para evocar um tempo fora do tempo: circular, ritual, mágico. “Convite ao Tempo” é uma música que se revelou sozinha e foi me puxando aos poucos. Um chamado a caminhar em ritmo próprio, escutando os sinais sutis da passagem da vida. Ao final, quando canto “nas dobras do vento / cada batida é um sinal / das horas sagradas”, já não falo só de mim — falo de todos nós. Porque talvez o tempo, esse ser indomável, só queira mesmo é que a gente dance com ele.

Comentário de Débora Weisner

Clara Clarissa“Amiga”

“Amiga” é uma canção que nasce do entrelaço delicado entre amor e amizade, em um momento de desentendimento. A letra funciona como uma carta nunca enviada, carregada de emoção e dramaticidade. A inspiração estética vem das rancheiras mexicanas, com seu tom de desabafo íntimo e teatral, onde a dor se transforma em melodia.

A composição surgiu espontaneamente numa tarde de sol fria no parque da Redenção em Porto Alegre, em improvisos vocais gravados. A melodia apareceu de forma quase inteira já nos primeiros registros, como se a música pedisse para existir. Depois disso, a estrutura foi sendo desenhada no violão, com acordes espaçados que sustentam a densidade da narrativa.

Clarissa criou o refrão e somou sua voz à harmonia, costurando com maestria as nuances emocionais da canção. As vozes das duas se entrelaçam em todo o percurso, ora em consonância, ora em dissonância, criando camadas afetivas que reforçam a ambiguidade da relação retratada.

O arranjo é mínimo, mas carregado de intenção: um violão contido, um violino que chora junto, e as vozes que se acompanham como quem se escuta — mesmo em meio ao conflito. Há um cuidado em manter o espaço entre os sons, como quem escolhe as palavras certas numa conversa difícil.

“Amiga” é, acima de tudo, um gesto de vulnerabilidade. Uma tentativa de traduzir os ruídos de uma relação que não se encaixa nos moldes usuais, e que por isso mesmo exige escuta, tempo e coragem para existir em sua complexidade.

Comentário em conjunto pelo duo Clara Clarissa

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