As editorias ALÉM DA BR e LUPA NA CANÇÃO já publicaram mais 4 mil obras, de todos os cantos do mundo. Agora, estão juntas na nossa lista de lançamentos focada nos mais variados subgêneros do rock n roll. A novidade é que artistas brasileiros e internacionais são apresentados em uma única seleção de cinco músicas. São entrevistas curtas que exploram o básico de cada lançamento musical.
Vale dizer que o conteúdo aqui apresentado tem exclusividade da ARTE BRASILEIRA, escrito sob encomenda. A sequência foi escolhida via sorteio, ou seja, não há “melhores e piores”._
➔ Faiyaz and the wasted chances - "Bleeding Out" - (CANADÁ)
1. O que inspirou a composição de "Bleeding Out"?
Acho que grande parte da composição foi inspirada pela música dos anos 60.
As principais seriam "There She Goes Again" ou "Waiting for the Man" do Velvet Underground.
Há aquele som de guitarra super metálico entre Lou e Sterling, em ambas as músicas, que tem um impacto rítmico incrível. É
bem óbvio em "There She Goes Again". Eu simplesmente adorei a ideia de algo assim, a singularidade do ritmo e da melodia tocando a mesma coisa com um timbre garageiro tão marcante.
Sempre gostei do Lou, mas, mais recentemente, comecei a gostar do Sterling.
2. Gostaria que você refletisse sobre a mensagem da música.
Na verdade, ela tem a ver com superar a dor e não deixar que seu corpo te controle. A mensagem é: EU CONTROLO MEU CORPO, ninguém mais controla e eu posso resolver meus próprios problemas.
"Enxaquecas todas as noites não significam nada para mim" é um "foda-se", eu vou fazer o que eu quero, não o que a dor me obriga a fazer.
3. Musicalmente, como você descreveria essa música?
Sinceramente, eu diria que é uma música garage rock bem afiada, com uma pegada punk. O refrão pega emprestado elementos de metais do soul da Stax Records, os versos são tão primitivos quanto possível, de uma forma intelectual.
Só tem um acorde menor na música inteira, talvez mais um de passagem. Isso, para mim, meio que mantém a vibe primitiva. Mas, no geral, eu diria que a quantidade de acordes — entre 9 e 13, dependendo de como você conta — provavelmente ultrapassa o limite do primitivo. Muitas vezes, é difícil para mim me reconciliar com minhas músicas, sentindo que elas sempre poderiam ser melhores e seguir um caminho diferente. Aceitar que uma música é de um jeito ou de outro musicalmente pode definitivamente ajudar na tomada de decisões.
4. O que a capa do single representa?
Blue, minha parceira e baixista, fez a capa. É uma arte em argila. Ela fez um trabalho incrível e depois animou a capa movendo a posição de certas peças.
Por mais estranho que pareça, é quase uma cópia exata do banheiro que tenho atualmente (embora mais sangrento, mais sujo, com ratos e um cadáver).
Supostamente, é uma espécie de representação visual da letra e da dor que estou descrevendo.
Alguém à beira da morte (sangrando até a morte), enquanto ratos estão por toda parte, esperando por um cadáver, eu acho.
Claro que isso é muito pior do que uma enxaqueca comum, mas você sabe quem disse que o punk rock não tem a ver com glamourizar a dor!
As melhores bandas, para mim, eram aquelas que glamourizavam a dor.
Quero dizer, New York Dolls, pelo amor de Deus!!!
5. Qual é a posição atual da banda na cena musical de Toronto?
Eu luto muito com essa pergunta.
Muitas vezes penso em como minha banda tem sorte de conseguir ótimos shows, tocar com outras bandas legais, participar de grandes showcases ou festivais.
Recentemente, um fã veio falar comigo e disse que alguns dos meus singles lançados estão entre as melhores músicas punk que saíram em Ontário na última década.
Fiquei muito feliz em ouvir isso, mas também fiquei meio assustado.
Por outro lado, às vezes me sinto um tanto deslocado.
É uma espécie de paradoxo: "Tenho certeza de que as pessoas me veem como alguém com um ótimo status na cena musical, que conhece pessoas importantes e faz parte da comunidade"
e, ao mesmo tempo, "Estou um pouco mais velho e não vou a tantos shows como antes, então me pergunto se ainda sou relevante".
É difícil, com certeza. Independentemente de tudo, sou grato à comunidade que cerca minha banda, que me ajuda, vai aos shows, tira fotos ou compartilha minha música.
Sem essas pessoas, sinto que não seria ninguém.
Aprendi a valorizar essas coisas. Conforme me torno um pouco mais experiente, me recuso a ser o tipo de pessoa que não apoia artistas mais jovens.
A coisa mais punk que você pode fazer é ACEITAR e APOIAR a próxima geração que está fazendo isso. Eu me recuso a ser um cara velho e rabugento que fica reclamando das bandas mais novas, lamentando como era bom antigamente.
Para mim, a boa arte é atemporal e não tem idade. Todos merecem!
Respostas de Faiyaz and the wasted chances
➔ Kiltro Attack - "Santiago" - (ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA)
1. Qual foi a fonte de inspiração para essa faixa?
"Santiago" nasceu de uma raiva quieta. Não a que grita — a que observa. Tem um momento em que você começa a enxergar o padrão: nas notícias, nas redes sociais, nas conversas de família. E quando você vê, não dá mais pra deixar de ver.
A distância também teve muito a ver. Vivo em Los Angeles há anos, e olhar o Chile de fora te dá uma clareza incômoda. O que quando você está dentro o barulho não deixa ver, de longe aparece com uma nitidez que dói.
2. Que mensagem a música transmite ao público?
"Santiago" fala de um truque muito antigo: nos manter brigando entre nós para que não olhemos para cima. A direita contra a esquerda, o time A contra o time B, você contra seu vizinho — enquanto os mesmos de sempre continuam vendendo a terra, a água, o que é de todos.
A canção não acusa ninguém em particular. Ela aponta para o mecanismo. Para essa máquina silenciosa que funciona melhor quanto mais barulho a gente faz.
Não quero convencer ninguém de nada. Não tenho um programa político. O que quero é provocar um desconforto: essa sensação de que algo não fecha, de que talvez a briga em que você está metido não seja a briga que realmente importa. Se alguém ouvir a música e por um segundo se perguntar "por que isso me importa tanto e aquilo tão pouco?" — já fiz o meu trabalho.
3. Musicalmente falando, como você descreveria essa canção?
Queria que o som carregasse a mesma tensão da letra. Tem influências claras do nu metal e do metal industrial — esse peso, essa distorção, essa estrutura que te puxa pra dentro da música antes mesmo de você entender a letra. Rage Against the Machine, Nine Inch Nails, Ministry foram referências centrais na minha formação.
Mas teve uma descoberta que não esperava: o espanhol mudou a textura de tudo. As palavras em castelhano caem diferente sobre o metal — têm outro ritmo, outro fio. O idioma me deu uma proximidade que eu estava procurando. Queria que soasse como uma conversa, não como um discurso.
4. Onde o Kiltro Attack se encaixa na cena musical americana atual?
Num lugar que ainda estava vazio. Sou latino, cresci ouvindo nu metal e metal industrial, e sempre senti que existia uma tensão entre esses dois mundos — o rock parecia não ser pra mim, e a música latina não soava como o que eu sentia por dentro.
"Santiago" é a primeira música completamente em espanhol, e fez sentido que fosse assim. Há coisas que em outro idioma não pesam igual. Cantar em castelhano sobre metal não é uma estratégia — é a forma mais honesta que encontrei de dizer o que tenho a dizer.
Acredito que tem muita gente que cresceu entre dois mundos e nunca se viu refletida na música. Que ouve rock mas também carrega uma herança latina. É pra essa gente que faço música.
5. Existe algum detalhe interessante sobre esse lançamento que você gostaria de destacar?
Essa é a primeira vez que canto para a minha terra no seu próprio idioma. E não vai ser a última.
A palavra "Santiago" carrega muito: é a cidade, é o símbolo, é o lugar onde essa contradição vive com mais força. Uma capital que te dá orgulho e dói ao mesmo tempo. Queria que o nome da música já dissesse tudo antes de a pessoa ouvir a primeira nota.
No fundo, se uma música te faz pensar, sentir ou falar com alguém sobre algo que normalmente você não fala — isso é tudo o que peço pra ela fazer.
Respostas de Kiltro Attack
➔ MADANES - "S.U.D STAR" - (REINO UNIDO)
1. Sobre o conceito e as características musicais de "SUD STAR":
Certa vez, afirmei que "o conceito matou a arte", então não há um conceito tradicional aqui. Em vez disso, temos um produtor musical chamado Ran, da IZABO, que é um gênio, e ele não tentou me "embelezar", muito pelo contrário. Minha composição original era muito mais "bonita" e suave, mas ele a levou ao extremo, deixando apenas a parte C como estava. A letra é "picante", e a produção reflete isso. Ran toca todos os instrumentos na faixa, até mesmo aqueles que ele não toca de fato; ele grava fragmentos e os edita digitalmente para criar esse som único.
2. O que inspirou a música e como você retrata essa história na letra?
A música é sobre uma mulher por quem sou apaixonado há anos. Ela é incrivelmente inteligente, linda e mais velha do que eu, alguém que enfrentou muitas dificuldades e venceu. Ela é forte. Um dia, me peguei desejando que ela me quisesse da mesma forma que eu sinto falta de um cigarro depois de um voo. Esse pensamento se transformou na metáfora central da música: ela é esse "cigarro depois de um voo".
Trabalhei na faixa em segredo por um tempo. Certa vez, quando aterrissamos em Brighton, pedi a ela e à filha que me acompanhassem até a área de fumantes do aeroporto e deixei que ouvissem apenas aquela parte específica da música. O resto ainda era "secreto" na época.
Curiosamente, a parte C era originalmente uma música diferente, mais curta, que escrevi usando algumas palavras que aprendi em georgiano, sua língua nativa. No geral, a música carrega um pouco de raiva em relação a ela, misturada com a dolorosa constatação de que, embora ela seja a mulher mais incrível do mundo, ela não é boa para mim.
3. Musicalmente, quais são as características?
Minha identidade musical é tanto uma vantagem quanto um desafio, para o bem e para o mal... misturando estilos na própria música e no álbum. Tendo sido DJ por 19 anos, fui exposto a um vasto mundo da música desde jovem, e minhas influências são diversas. Minhas melodias são frequentemente muito melódicas e estruturadas, inspiradas por artistas como Elton John, The Beatles e música folclórica russa antiga.
No entanto, minhas letras tendem ao estilo cínico e provocativo de Frank Zappa e Ian Dury. São mordazes e incisivas, mas sempre escondem uma história sensível e vulnerável por baixo da superfície.
Respostas de MADANES
➔ HEXXES - "Possession" - (ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA)
1. Como surgiu essa música? Assim como fizemos com nossas outras músicas, Agatha Hexx produziu uma demo em seu estúdio caseiro em Vancouver, Washington (EUA). A demo foi compartilhada com Scarlett e Alastair Hexx. Alastair produziu suas faixas de guitarra em seu estúdio caseiro, usando a demo como referência. Scarlett Hexx então gravou um vocal demo, e a partir daí conseguimos produzir uma demo completa e preliminar. Os vocais finais foram gravados pelo nosso engenheiro de som, Dsalyss Hexx, no estúdio Skull Ranch em Castle Rock, Washington. Ele também mixou e masterizou a música lá.
2. Qual a mensagem?
A mensagem é simplesmente para termos cuidado com o que desejamos.
3. Como você descreveria melhor o som de "HEXXES"? Somos uma banda de electro-industrial liderada por uma vocalista feminina com influências de metal. Nossas influências incluem Gary Numan, Ministry, Switchblade Symphony, Siouxsie and the Banshees, entre outros.
4. Há mais alguma coisa interessante que você gostaria de destacar? Hexxes é uma banda nova e promissora, mas seus membros são profissionais experientes com décadas de atuação na cena musical. Estamos ansiosos para lançar nossas músicas, incluindo remixes de outros músicos renomados, ao longo do tempo. Saúde!
Respostas de HEXXES
➔ NewStyleGic - No way" - (ISRAEL)
1. Qual é o melhor resumo dessa música?
Música dedicada a todos aqueles golpistas online, que eu chamo de insetos de golpe, por aí tentando te fisgar para depois te morder.
2. O que ela diz e o que inspirou a música?
Do meu ponto de vista, os golpistas se oferecem para preencher uma vulnerabilidade no nosso caráter, que normalmente é o lugar onde a gente sucumbe aos nossos medos. Ao fazer isso, a gente sinaliza para o universo que estamos num ponto sem fé, onde perdemos nossa crença e estamos dispostos a preencher o vazio com uma entidade maliciosa. A música oferece um jeito de superar essa fraqueza perigosa simplesmente recusando a tentação temporária com uma declaração decidida dizendo: De jeito nenhum!!! Isso é para nos lembrar que estamos prestes a perder nossa coluna, nossa fé, nosso amor e nosso dinheiro. E fazer um retorno imediato para nós mesmos.
Ao fazer isso, a gente sinaliza para o universo que, se estivermos realmente precisando de ajuda, vamos recebê-la da própria divindade.
A música na verdade veio em um sonho,
eu fiquei com a melodia na memória, mas a única letra que eu tinha era No way. Levou alguns anos e alguns encontros com golpistas online até eu chegar nessa fórmula.
O texto é baseado em mensagens reais de pessoas reais que encontrei nas redes sociais.
Na época em que estávamos trabalhando na música, a gente estava super mergulhado em Yes, a banda, e eu realmente acredito que eles contribuíram com muita inspiração para a formação geral da faixa.
3. Quais são os elementos artísticos da música?
A produção da música foi feita pelo Scott Bennett, que produziu dois álbuns para o grande e saudoso Brian Wilson, dos Beach Boys. Ele também fez os vocais principais e toda a performance instrumental, mas para mim o elemento mais artístico são as harmonias vocais. A progressão de acordes foi construída pelo meu filho Roei Meiri, que me acompanhou no projeto desde o nascimento. Ele também criou o movimento de harpa na intro e na ponte.
4. Conta pra gente, quem é a banda NewStyleGic?
NewStyleGic é um projeto de músicas que vieram para mim em sonhos.
Eu sonhava que estava ouvindo uma música no rádio ou na TV cantada por uma pessoa conhecida ou famosa, tipo Tom Jones ou Stevie Wonder, e aí percebia que aquela música não existia. Normalmente eu lembrava um refrão, um verso e meia frase que me obrigava a completar em estado de consciência, o que no começo me deixava meio inseguro, mas foi melhorando com o tempo. Como as músicas variam de gênero e o estilo é principalmente old-school, eu decidi chamar o projeto de NewStyleGic para dar uma dica do lado nostálgico das coisas, mas colocado em um estilo novo.
Hoje em dia estou montando uma banda de verdade, mas o processo ainda está na fase inicial de se materializar.
5. Por fim, qual é a ligação entre essa música e o seu país, Israel?
A música não se relaciona com uma nacionalidade específica. De forma geral, eu considero qualquer regime um reflexo físico dos nossos medos. É quando acreditamos que precisamos de alguém para cuidar da gente, enquanto não entendemos que o poder está dentro de nós. O golpista na música simboliza terceirizar o nosso poder, o que pode acabar num golpe de phishing ou na tomada completa da nossa obediência e numa rendição total da nossa liberdade. Eu dou uma pista disso quando digo "And obey" no final da música. Mesmo assim, a música prefere evitar mergulhar mais fundo do que isso em questões políticas.
Respostas de Maydad Meiri

