28 de julho de 2026

A GÊNESIS DA CANÇÃO (#23)

(lançamentos internacionais) e LUPA NA CANÇÃO (nacionais), que agora É oficialmente editorias. Sob este domínio, já publicamos e desbravamos em torno de 4 mil lançamentos, de brasileiros e de artistas mundo afora.

Vale dizer que o conteúdo aqui apresentado tem exclusividade da ARTE BRASILEIRA, escrito sob encomenda. A sequência foi escolhida via sorteio, ou seja, não há “melhores e piores”.

➔ Vitre - "Saudades do Impossível" - (BRASIL)
O processo de composição teve início em meados de agosto de 2024. Foi um período em que eu me encontrava muito desiludido em relação à minha vida pessoal e ao mesmo tempo introspectivo, procurando por respostas que não vinham. Eu tinha plena certeza de que um de meus grandes sonhos da vida estava sendo concretizado, mas infelizmente me dei conta que tudo não passou de uma ilusão. E que a essa altura já não seria mais possível acontecer.
A primeira frase da letra da música - "Tem um vazio que me segue como sombra das memórias que nunca foram vividas...". - surgiu espontaneamente em minha cabeça, e a partir daí já senti que uma nova canção estava nascendo.
Os dias se seguiram e enquanto pensava em soluções para lidar com os meus dramas pessoais, novos versos (que de certa forma conectavam com o que eu sentia naquele momento), surgiam, e eu passei a anotá-los, já pensando em aproveitá-los para esta composição ou talvez futuramente em alguma outra. O verso "Olho pro céu buscando respostas que não chegam, nas estrelas que não brilham mais pra mim" foi o segundo a ser por mim anotado e, inicialmente, seria sequencial àquela primeira frase, mas após a estruturação da letra, achei que ficaria melhor deixá-lo para o início da segunda parte.
Com parte da letra já escrita após cerca de um mês, peguei o meu violão e iniciei efetivamente a composição da música. O refrão definitivo só ficou pronto depois de três semanas. Anteriormente, eu havia escrito duas outras versões, que não me agradaram muito. A ponte - "nas páginas em branco da minha história, desenho um futuro que nunca verei" foi a última parte da canção a ser escrita.
Ao final, fiquei bastante satisfeito com o resultado, pois apesar de a ideia da música ter partido de uma experiência pessoal, acredito que qualquer ouvinte irá se identificar com o tema, já que ela trata de um sentimento humano universal e atemporal - a ânsia ou o desejo por algo que nunca aconteceu e que provavelmente nunca acontecerá.

Comentário de Vitre

➔ Jova - "Caindo sem saber voar" - (BRASIL)
“Caindo sem saber voar” nasceu de uma sensação de perda e desorientação amorosa. Eu queria falar sobre aquele momento em que a gente segue a vida, mas por dentro ainda está meio sem rumo, tentando entender o que sobrou depois de um amor. A frase “tô caindo sem saber voar” veio como a imagem mais direta desse sentimento: estar em queda, sem saber ainda como lidar com isso.
A música também carrega muito das minhas memórias afetivas e sonoras. Cresci na Baixada Fluminense, cercado por música, ensaios, guitarras, metais e sonoridades populares, e acho que essa mistura aparece na faixa, entre a sofrência, o brega romântico e o indie brasileiro.
O processo começou pela escrita, de forma bem intuitiva, quase como uma conversa atravessada pela madrugada. Depois, a canção ganhou corpo na produção com Alencar Martins. A entrada da Corama foi essencial, porque trouxe uma outra voz para responder esse sentimento, como um eco emocional. No fim, vejo “Caindo sem saber voar” como uma música que não tenta consertar a dor, mas acompanhar quem está passando por ela.

Comentário de Jova

➔ Lux The Lion - "Bonnie & Clyde" - (BRASIL / CABO VERDE / PORTUGAL)
Depois que os fios brancos chegam, a maioria de nós começa a pensar nos caminhos que não escolhemos. “E se tivesse sido assim?” “E se eu tivesse ido, ou ficado?” Isso não tem necessariamente a ver com arrependimento. Às vezes é só aquele bichinho que morde a cabeça da gente, lembrando que dentro de cada vida existe também uma vida que não aconteceu.
“Bonnie & Clyde” nasceu sem querer, numa tarde de domingo ao piano. Talvez por isso ela fale desse lugar com simplicidade. Não é uma música exatamente sobre fuga, embora talvez também seja. Para mim, ela fala principalmente daquelas respostas que não complicam. Eu sempre preferi as pessoas do tipo: “vamos?” “vamos”. Sem assembleia emocional. Sem relatório. Só aquela ligação que todo mundo, em algum momento, já imaginou receber ou fazer: “fica pronta que eu estou passando”.
Pra ser honesto, correndo o risco de perder o romantismo lúdico que se espera, estava chovendo e começou a entrar água por baixo da porta. Me lembrei de uma frase que ouvi uma vez, daquele tipo que ninguém sabe a origem. “Amor de verdade é como água, preenche todos os espaços”. Daí veio o “feito chuva…”. A música foi surgindo como uma pequena história sobre impulso, amor e caminhos paralelos. Despretensiosamente como as coisas que eu normalmente mais gosto, ela fala de coisas simples. Além da chuva, café no quintal, cheiro que invade, malas prontas e alguém esperando no portão. Simples e dura como saudade que nos volta ao centro, que transforma as coisas numa espécie de mitologia particular que todo mundo tem. Daí vem Bonnie e Clyde, Maria e Lampião, Priscilla e Elvis, Hades e Perséfone aparecendo como espelhos desta mesma ideia.
Sou músico (apaixonado e não profissional) desde criança. Não vivo de música, mas gosto de pensar que algumas canções buscam com insistência um caminho para nascer nesse mundo. Gosto de pensar que todas as minhas composições vieram assim e essa também apareceu para mim. O instrumental foi gravado no Brasil e os vocais foram gravados no estúdio Blim, em Lisboa, mas a origem real dela continua sendo aquela tarde de domingo, quando uma frase simples começou a puxar uma história inteira.
No fundo, “Bonnie & Clyde” fala sobre esse universo paralelo que todo mundo visita em silêncio. Sobre duas pessoas que, sem querer, criam uma história só delas. Meio Bonnie e Clyde, meio Maria e Lampião, meio qualquer casal que já quis sair do lugar antes que a vida explicasse demais. Sem querer, eu fiz mais uma história. Uma canção sobre nós dois.

Comentário de Lux The Lion

➔ Seventh Seal - "Drive" - (ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA)
“Seventh Step” nasceu da ideia de escrever uma peça de jazz que nunca se acomoda totalmente no conforto de um pulso regular. Eu queria que a composição transmitisse a sensação de caminhar por uma cidade onde tudo está ligeiramente fora do eixo: passos, semáforos, conversas, tempo e instinto. O compasso em 7/8 se tornou o coração da peça justamente por criar naturalmente essa sensação de movimento para a frente, mas com um desequilíbrio sutil.
A música foi inspirada por reflexões sobre como a vida moderna muitas vezes parece ritmicamente desalinhada. Todos estão tentando encontrar seu lugar, chegar na hora certa, se mover junto com os outros, mas o padrão continua mudando sob seus pés. A frase “on the seventh step” virou uma metáfora para aquele momento em que o equilíbrio quase se encaixa perfeitamente, mas algo inesperado inclina o chão.
Do ponto de vista da composição, a faixa é construída em torno de uma subdivisão 3+2+2, com certa influência da sensação rítmica do Devr-i Hindî, mantendo ao mesmo tempo uma linguagem enraizada no jazz moderno. O groove precisava ser claro o bastante para que o ouvinte pudesse senti-lo, mas inquieto o suficiente para manter a banda levemente em estado de alerta. Essa tensão entre precisão e instabilidade moldou a linha de baixo, os acentos da bateria e o fraseado vocal.
O processo criativo teve muito a ver com fazer o compasso irregular soar natural, e não técnico. Eu não queria que a música parecesse um exercício em 7/8; queria que ela tivesse swing, respirasse e contasse uma história. A introdução com violão fretless de nylon, os acompanhamentos do Rhodes, as cores do trompete com surdina e o solo de sax tenor foram todos escolhidos para dar calor e atmosfera urbana à faixa, preservando sua energia cinética.
Na letra, “Seventh Step” segue a mesma lógica do ritmo: imagens curtas, pensamentos interrompidos, meias decisões e sinais humanos em constante mudança. A cidade se torna uma espécie de partitura viva, escrevendo sua própria linguagem irregular. A ideia final é que, mesmo quando as pessoas não se alinham perfeitamente, o groove ainda pode mantê-las juntas.

Comentário de Seventh Seal

➔ Brendon Siemsen - "In The Clouds" - (AUSTÁLIA)
"In the Clouds" começou como um trabalho para um curso de produção musical que fiz no Berklee College of Music. O briefing daquela semana em particular forneceu a estrutura inicial, mas a forma como a peça se desenvolveu seguiu meu estilo habitual de composição. Minha escrita é sempre guiada por melodia e emoção, e normalmente dedico tempo a experimentar ideias melódicas sobre uma progressão de acordes ou uma base rítmica até que algo ressoe e comece a tomar forma.
Assim que descubro um motivo melódico que me chama a atenção, começo a construir uma estrutura em torno dele. Para mim, a composição é frequentemente um processo orgânico de exploração, em vez de seguir um plano rígido. Ao longo dos anos, acumulei uma grande coleção de esboços e ideias inacabadas, e "In the Clouds" passou muito tempo guardada em um disco rígido, junto com muitas outras peças, aguardando a oportunidade certa para ser desenvolvida.
Quando decidi gravar um EP com minhas composições originais, revisitei meus arquivos e selecionei um pequeno grupo de peças com as quais ainda sentia uma forte conexão emocional. "In the Clouds" se destacou imediatamente, e tanto eu quanto o produtor Phil Turcio sentimos que ela tinha potencial para se tornar uma faixa forte do projeto. Phil reinventou o arranjo, dando-lhe uma nova identidade, mas preservando o caráter melódico que nos atraiu inicialmente para a música.
O processo de gravação envolveu a reconstrução da faixa do zero. Substituímos a bateria programada original por um baterista ao vivo, Phil regravou as partes de teclado e eu regravei a melodia e criei um solo improvisado para a seção intermediária. A colaboração trouxe uma nova energia e profundidade à música que não estavam presentes na demo original.
A improvisação desempenha um papel central tanto na minha composição quanto na minha performance. Muitas das minhas composições são concebidas como estruturas que permitem o surgimento de conversas musicais espontâneas, e "In the Clouds" não é exceção. Embora a melodia e a estrutura forneçam a base, os elementos de improvisação garantem que a música permaneça viva, evoluindo e assumindo um caráter ligeiramente diferente a cada execução. A gravação em estúdio é cuidadosamente elaborada e produzida, enquanto a versão ao vivo expande a música, simplifica-a e permite que ela evolua no ambiente.

Comentário de Brendon Siemsen

administrator
Fundador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Apaixonado pelo Brasil e por seus grandes artistas.