26 de julho de 2026

A GÊNESIS DA CANÇÃO (#24)

A GÊNESIS DA CANÇÃO é uma fusão das versões focadas em processo criativo das listas ALÉM DA BR (lançamentos internacionais) e LUPA NA CANÇÃO (nacionais), que agora É oficialmente editorias. Sob este domínio, já publicamos e desbravamos em torno de 4 mil lançamentos, de brasileiros e de artistas mundo afora.

Vale dizer que o conteúdo aqui apresentado tem exclusividade da ARTE BRASILEIRA, escrito sob encomenda. A sequência foi escolhida via sorteio, ou seja, não há “melhores e piores”.

➔ Nay Porttela - "Crazy In Love / Morena Boca de Ouro" - (BRASIL)
“Crazy In Love / Morena Boca de Ouro” nasceu dentro da proposta artística de Essentia Brasilis, um álbum construído a partir de ecos que se plasmaram em diferentes dimensões da cultura musical. Meu interesse estava em criar novos caminhos de escuta por meio da aproximação entre repertórios que, à primeira vista, parecem habitar universos distintos.
A faixa une “Crazy In Love”, composta por Beyoncé, Jay-Z, Rich Harrison e Eugene Record, a “Morena Boca de Ouro”, de Ary Barroso. O ponto que repercutiu em mim foi perceber que, apesar da distância temporal e cultural entre elas, ambas impunham uma força magnética em torno da figura feminina. Existe uma energia de encantamento e presença que atravessa as duas composições, criando uma ponte inesperada entre a música popular brasileira e a música internacional.
Durante o processo de construção, procurei ouvir essas canções para além de seus arranjos originais. Aquilo se pôs no meu destino de uma maneira natural, permitindo que uma obra iluminasse aspectos da outra. Aos poucos, fui percebendo que o encontro não acontecia apenas nas melodias ou nos ritmos, mas principalmente na dimensão simbólica que ambas carregam. O mashup surgiu antes mesmo de eu ousar imaginá-lo, como uma conversa entre épocas, linguagens e culturas.
A estética minimalista de Essentia Brasilis foi fundamental para esse resultado. Inspirada pela bossa nova, cultivei uma sonoridade leve, permitindo ao silêncio tanta importância quanto as notas. Nesse espaço, as faixas puderam revelar novas camadas de significado para a escuta do nosso tempo.
“Crazy In Love / Morena Boca de Ouro” representa a ideia central do álbum: mostrar que a música brasileira possui uma extraordinária capacidade de dialogar com o mundo sem perder sua identidade. Ao reunir Beyoncé e Ary Barroso em uma mesma sonoridade, procurei costurar uma obra que fala sobre atravessamentos culturais através do tempo.

Comentário de Nay Porttela

➔ DoctorBlackstone - "Ode to the Flute" - (BRASIL)
Ode to the Flute nasceu como uma homenagem. Não a um gênero ou a uma técnica específica, mas a um instrumento. A flauta sempre me pareceu um dos timbres mais belos e sensíveis da música, embora raramente seja lembrada como opção de protagonismo dentro da produção eletrônica contemporânea. A ideia da música foi justamente colocá-la nesse lugar, tratá-la como um lead, da mesma forma que se escolhe um sintetizador, respeitando seu timbre, seu espaço e sua capacidade de conduzir uma escuta inteira.
Eu não toco flauta. Sou saxofonista e venho de outra tradição instrumental. Ainda assim, sei reconhecer o que uma música pede em termos de estrutura, atmosfera, andamento, textura e fluxo. Antes de qualquer som existir, esse trabalho começa de forma bastante humana, escrevendo, planejando o espaço sonoro, definindo o BPM, a duração, o papel de cada elemento e o tipo de escuta que a música deve convidar. A flauta entrou aí como escolha estética, não como curiosidade técnica.
A inteligência artificial é parte central desse processo, e isso é dito de forma aberta. Sem IA, essa música simplesmente não existiria. Ela começaria e terminaria como um conjunto de anotações e intenções. A IA é o que dá vida a esse desenho, operando dentro de limites muito claros. Eu não escolho cada nota que será tocada, mas escolho o ambiente onde essas notas podem existir, o comportamento do instrumento, o grau de liberdade, a tensão e o momento em que a música deve ou não se resolver. A criatividade acontece nesse diálogo.
Esse trabalho também não acontece no vazio. Faço parte de uma comunidade ativa de criadores e produtores, e foi nesse convívio que percebi algo interessante. Muitos nunca haviam ouvido uma música em que a flauta ocupasse esse lugar central. Não porque esse tipo de música seja impossível, mas porque a flauta não aparece como escolha natural na paleta sonora deles. Nesse sentido, Ode to the Flute acabou apresentando a Flauta a um grupo de pessoas que talvez não teria contato com ela.
Se música feita com inteligência artificial é arte ou não, não é a pergunta que guia esse trabalho. A pergunta é outra: a música é coerente, é honesta, é bonita? Para mim, a beleza está justamente no fato de que essa obra só poderia existir nessas condições, neste tempo e com esse meio. É uma ode no sentido mais simples da palavra, um gesto de respeito a um instrumento antigo e delicado, recontextualizado por uma tecnologia contemporânea, sem esconder o processo e sem pedir permissão à tradição.

Comentário de DoctorBlackstone

➔ Yann Loisel - "Foundation" - (FRANÇA / ALEMANHA)
Muitas vezes, escrevo músicas para me lembrar de coisas que considero importantes — uma espécie de lembrete pessoal. Nestes tempos caóticos e desafiadores, em que as pessoas parecem estar se afastando cada vez mais umas das outras ao redor do mundo, senti que escrever uma música focada na união me ajudaria a manter essa ideia presente na minha
mente.
A gravação desta versão de “Foundation” não estava realmente planejada, pois já estou trabalhando em uma versão com banda completa da música junto ao Roots Republic, com quem lancei duas canções no ano passado. Eu estava gravando no Famous Gold Watch Studio, em Berlim, para o álbum de remixes da lendária banda alemã iLLBiLLY HiTEC, quando Alex
Brechow, o produtor, me perguntou se eu toparia gravar rapidamente uma faixa minha antes da sessão que havíamos originalmente agendado.
Então simplesmente começamos a gravar ali mesmo, em um ambiente muito simples e intimista — apenas voz e violão. Gravamos como uma sessão ao vivo, sem overdubs, para criar uma atmosfera direta e sincera, aproximando o público o máximo possível da energia da performance.

Comentário de Yann Loisel

➔ Kauam - "Lindo de Verdade!" - (BRASIL / FRANÇA / PORTUGAL)
"Lindo de Verdade!" é uma canção nascida a partir das letras políticas de Chico Buarque, mais especificamente o álbum Chico Buarque De Hollanda Nº4, de 1970.
Em 2024, eu era tenor no Coro Juvenil do Rio de Janeiro do Instituto Brasileiro de Música e Educação, contralto no coro Vozes da Diversidade do Grupo de Cidadania LGBT+ Arco-Íris, bolsista de extensão do Pontão de Cultura Digital da Escola de Comunicação da UFRJ e ator em peças teatrais. No currículo é lindo, mas eu estava emocional e fisicamente exausto - tive burnout aos 19 anos.
Aparentemente, o único que me entendia era o Chico de 54 anos antes: o dinheiro traz obrigações, e essas obrigações chegam com prazos de entrega. Na madrugada que escrevi a canção, estava muito ansioso para uma prova de cálculo que teria na faculdade. Sentei com meu violão e já cantando, escrevi num papel as coisas que eu queria ter e - como homem negro pobre bissexual da Baixada Fluminense - não tive oportunidade de me imaginar tendo.
Um tempo depois, fui convidado a produzir uma das edições do LABIC Brasil, projeto da ECO/UFRJ, MinC e Mídia Ninja, em Brasília. No meio do meu país vi a história dessa música - a produtividade, o medo e a resistência - refletida na história de Afro Honey, que gostou do som e levou para o estúdio Black Monster, onde Ally Akin produziu, captou e masterizou a canção.
Apaixonado por visuais, pensei logo na gravação do videoclipe: como faríamos? Fizemos um pocket show na Batalha da Escada, batalha de rima que acontece na UNB, pedindo ao público que gravassem e participassem da apresentação. Eu vejo muitos pontos que poderiam ter dado errado, mas apenas fluímos com o sonho. Essa é uma das minhas músicas que fortalecem minha mente quando me sinto incapaz de fazer algo; eu preciso apenas de 3min44s e imaginação fértil.

Comentário de Kauam

➔ Doutor Blackstone - "Claire" - (BRASIL)
Fazia tempo que eu não lançava nada. Tinha sido chamado no trabalho para tentar salvar um projeto que já estava morrendo, e essa novela vinha sugando minha sanidade dia após dia. Continuei praticando, testando instrumentos e estilos, mas faltava o motivo para publicar. Ele apareceu de um jeito que eu não esperava: nesta semana nasceu minha sobrinha. O nome dela é Claire.
Preciso fazer um desvio antes de chegar à música. Tenho um livro favorito, "Memórias Póstumas de Brás Cubas", que li no colégio e nunca consegui esquecer. Tem uma frase no fim que nunca saiu da minha cabeça: "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria." Essa frase sempre foi a base da minha decisão de não ter filhos, o que não significa que eu não fique feliz quando outra pessoa escolhe o caminho oposto. A chegada da Claire caiu exatamente nessa contradição: um ponto de luz dentro de uma visão que costuma ser bem mais cinza.
Vendo as primeiras fotos dela, fiquei pensando na loucura que devem ser os primeiros minutos de uma vida. Muita gente falando ao mesmo tempo, luzes fortes, o ar enchendo os pulmões pela primeira vez, o som do próprio choro ecoando pela sala. Deve ser caótico absorver a realidade inteira de uma vez. Assim como qualquer pessoa, eu também passei por isso, só não tenho memória nenhuma desses primeiros minutos. Então decidi fabricar uma. "Claire" é a tentativa de capturar esse momento inefável a partir de quem acaba de chegar, e não de quem observa de fora.
No fim, "Claire" é menos uma homenagem e mais um exercício de imaginar o que ninguém consegue lembrar. Todo mundo viveu esse primeiro minuto e ninguém guarda registro dele; é, talvez, a experiência mais universal e ao mesmo tempo mais impossível de recuperar. Foi essa lacuna que me interessou.

Comentário de Doutor Blackstone

administrator
Fundador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Apaixonado pelo Brasil e por seus grandes artistas.