14 de agosto de 2026

A GÊNESIS DA CANÇÃO (#25)

A GÊNESIS DA CANÇÃO é uma fusão das versões focadas em processo criativo das listas ALÉM DA BR (lançamentos internacionais) e LUPA NA CANÇÃO (nacionais), que agora É oficialmente editorias. Sob este domínio, já publicamos e desbravamos em torno de 4 mil lançamentos, de brasileiros e de artistas mundo afora.

Vale dizer que o conteúdo aqui apresentado tem exclusividade da ARTE BRASILEIRA, escrito sob encomenda. A sequência foi escolhida via sorteio, ou seja, não há “melhores e piores”.

➔ Bossa de Valores - "A mão nas suas costas" - (BRASIL)
Eu costumo brincar que, antes de escrever uma música, escrevo uma redação. Escolho um tema, começo a organizar as ideias, sem muita emoção. Só depois aquilo vai encontrando uma melodia e tomando forma. Com "A Mão nas Suas Costas" não foi bem assim, já que foi tudo muito pessoal. Eu sempre escrevo sobre diferentes formas de amor, mas percebi que nunca tinha escrito sobre uma das relações mais importantes da vida de qualquer pessoa: a relação entre pais e filhos.
A inspiração, obviamente, veio do meu filho de 13 anos e da minha filha de 3. Ela chegou à nossa família por meio de um processo de adoção e, talvez por isso, eu esperasse encontrar muito mais diferenças do que semelhanças entre eles. Quando comecei a escrever, criei uma espécie de personagem que reunia algumas características dos dois. As cenas vieram de coisas cotidianas, como os medos da infância. Outras vieram dos questionamentos e conflitos que aparecem na adolescência (são muitos!).
O curioso é que, enquanto escrevia, fui percebendo que a convivência diária criou muito mais semelhanças entre eles do que eu poderia imaginar. Os medos mudam de forma, as perguntas são diferentes, mas a necessidade de acolhimento, orientação e segurança continua presente. Acho que a música nasceu justamente dessa descoberta. Em determinado momento, ela deixou de ser sobre uma criança ou um adolescente específico e passou a falar sobre algo que atravessa diferentes fases da vida.
Eu acredito muito nessa forma de criar os filhos: mostrar o caminho sem ser protecionista demais. Também não posso resolver todos os problemas por eles. O máximo que posso fazer é ajudá-los a construir ferramentas para lidar com a vida quando a vida acontecer. Essa acabou se tornando a principal reflexão da música. Não a de proteger os filhos de tudo, mas a de estar presente enquanto eles aprendem a caminhar com as próprias pernas.
A parte musical já existia havia muitos anos. Era uma melodia que estava guardada esperando a história certa. Uma curiosidade: como acontece com boa parte das músicas que escrevo, a primeira versão nasceu em inglês. A letra já estava praticamente pronta quando percebi que aquilo não fazia sentido. Se a música era para os meus filhos, ela precisava estar em português. Então reescrevi tudo, e hoje acho que foi a melhor coisa que poderia ter acontecido para essa canção. Quando ela ficou pronta, percebi que eu tinha escrito sobre os meus filhos, mas também sobre os meus pais. Ainda me pego repetindo ensinamentos, lembrando conversas e tomando decisões influenciadas por coisas que aprendi quando criança. O último verso resume muito do que eu estava tentando dizer na música: "Mesmo quando eu sair de cena, eu sigo em você". Porque, de certa forma, eu ainda carrego muitas coisas que recebi dos meus pais e espero que meus filhos também carreguem um pouco de mim quando seguirem seus próprios caminhos.

Comentário de Bossa de Valores

➔ Hugo Caneta - "Destilado" - (BRASIL / ALEMANHA)
Falando um pouco sobre o meu processo criativo de forma geral: não encaro a música como um exercício ou uma espécie de obrigação. Prefiro compor quando surgem inspirações espontâneas ou, como já aconteceu algumas vezes, quando alguém me propõe algo muito específico. E foi exatamente assim que nasceu a música “Destilado”.
Ao observar o contexto sociopolítico que vivíamos por volta de 2021/2022, comecei a sentir um certo incômodo ao perceber, principalmente nas redes sociais, uma espécie de guerra de narrativas. Cada um defendia o seu lado com veemência — o que, até certo ponto, é natural. O problema surgia quando se tratava de ouvir o outro, ou ao menos tentar compreender como ele pensa ou enxerga o mundo.
A partir daí, emergiam reações marcadas pela tentativa de impor uma visão própria, como se fosse a única válida. Isso aparece de forma simbólica na música, por meio da metáfora: “Se é destilado que eu falo que é melhor, você deve concordar”. Ou ainda no verso “Me perco se às vezes meu ódio destila o bem”, que traz uma ironia ao expor como, ao nos indignarmos com o discurso de ódio alheio, muitas vezes acabamos reproduzindo a mesma lógica, acreditando estar fazendo o bem.
A escolha do “destilado” como elemento central não foi por acaso. Além de funcionar poeticamente, o termo se encaixa no jogo de palavras que sustenta o conceito da música, dialogando tanto com a ideia literal de uma bebida quanto com o processo simbólico de “destilar” pensamentos, sentimentos e conflitos.
No fim das contas, o que mais me encanta em “Destilado” é justamente a liberdade de interpretação que ela oferece. Pode ser entendida como um diálogo sobre bebida? Sim, por que não. Como uma discussão genérica? Política? Também. Independentemente da leitura, a música encontra um espaço de conexão com quem a escuta.

Comentário de Hugo Caneta

➔ LUDUS - "Na Beira do Amor" - (ITÁLIA)
A Ludus é uma banda vermelha e azul, mas também é um laboratório de processos e experimentos. Com ênfase no som, na música, na escuta, no texto, na cor, no gesto, construímos trabalhos que se desdobram de atividades e atravessamentos cotidianos e “simples”, dentro de um universo de estudos e pesquisa onde são as possibilidades, processos, conexões e trocas que formam a obra. Queremos fazer arte para nos divertir e brincar com coragem, sem medo do erro. O lugar que nos toca
é o de expressão pura e de contato e relação, a partir de mensagens e sensações. Queremos abraçar a intensidade e romper com o medo da expressão, que leva muitos a nunca exporem suas criações.
Dia 26/06/26 lançou ao mundo nosso primeiro E.P., com músicas que fizemos a partir do violão. E é assim que todos os nossos trabalhos se iniciam, imersos nas águas da diversão e da intuição. Mais especificamente, a música ''Na Beira Do Amor'' foi a primeira que escrevemos juntos, em um sofá azul ao lado da mesa de jantar no nosso segundo encontro. Não é à toa que ela carrega esse nome. Cada uma das músicas do EP é cheia de histórias esperando para serem contadas e têm seus processos de formas muito únicas. ''Na Beira do Amor'' começou pelos acordes, com algumas referências indiretas influenciadas pelas
melodias das canções hits de Marcos Valle, tomando sua primeira forma (rústica e muito diferente da versão final) com uma primeira guia onde a letra é uma improvisação. Temos essa primeira guia guardada com muito carinho.
A música foi se desenvolvendo por meio do trabalho feito no Trampolim Estúdio, em São Paulo. Partindo da guia acústica através das mãos do produtor Fábio "LoFabio" Barros, que trouxe uma visão muito original e sensível ao projeto, ela caminhou para um lugar cheio de mistérios e originalidade. A bateria e a percussão ficaram nas mãos de André Heidi Horita, que além de um grande artista, também foi o produtor executivo do projeto. Cabe também uma menção e agradecimento ao nosso engenheiro de gravação Elimarky Filho, sempre muito paciente e talentoso.
A gente quase não lançou esse EP. Por quase um ano ele morou em rascunhos e arestas, e um de nós sempre achava um motivo pra esperar mais um pouco mais— era uma nota desafinada, o chiado que dá pra ouvir no fundo de tudo, a vontade de regravar a voz, de alinhar as expectativas com os produtores e músicos envolvidos, etc. Mas essa demora, e todas essas perguntas, foram essenciais pra gente encontrar a nossa filosofia de trabalho. O EP é um retrato da união de dois
artistas: todas as músicas são feitas juntas e carregam o olhar de um e do outro. O sentimento é de muita gratidão. Este é o primeiro EP da Ludus no mundo e ter o feito dessa forma tornou tudo ainda mais especial.

Comentário de LUDUS

➔ Matheus Wendt - "Dança dos Ventos" - (BRASIL)
Dança dos Ventos nasceu a partir de estudos harmônicos sobre Pinocchio, de Wayne Shorter, combinados à busca por uma melodia simples, cíclica e memorável, inspirada pela economia melódica presente em obras como United. A partir desse contraste, a composição se desenvolveu sobre uma base harmônica densa, explorando diferentes tensões enquanto a melodia permanece clara e cantável.
Ao longo da música, esse material se transforma de maneira gradual e hipnótica, dando espaço para a improvisação e para a construção coletiva. A interação entre os músicos torna-se parte da própria composição, fazendo com que cada interpretação revele novos caminhos e possibilidades.
A gravação integra The Unfolding, meu segundo álbum, lançado em 2026. O disco reúne nove composições que transitam entre o jazz contemporâneo e a world music, aprofundando uma pesquisa sobre improvisação e diálogo entre os músicos. O título The Unfolding faz referência à ideia de desdobramento e transformação, refletindo a continuidade do percurso iniciado em Long Story Short (2024).
A faixa foi gravada ao lado de Pedro Saul (piano e rhodes), Felipe Schütz (contrabaixo acústico) e João Bauken (bateria), músicos com quem venho trabalhando desde a formação do quarteto, em 2023. Ao longo desse período, o grupo se apresentou em eventos como a Noite dos Museus, o Sarau do Solar e a IX Mostra de Artes Cênicas e Música do Teatro Glênio Peres, além de espaços como Espaço 373, Grezz, Café Fon Fon, Odeon e Sala Olga Reverbel. Em 2024, nosso trabalho com Long Story Short foi reconhecido com o Prêmio Açorianos de Música na categoria Melhor Produtor Musical de Música Instrumental, além de indicações em outras quatro categorias e ao Prêmio Profissionais da Música.
O título Dança dos Ventos faz referência a A Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky. Mais do que uma citação direta, a referência procura evocar a ideia de ritual, movimento contínuo e transformação, estes, elementos que atravessam toda a composição e dialogam com o universo sonoro de The Unfolding.

Comentário de Matheus Wendt

➔ The Fool's Journey - "The Fool" - (ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA)
O Louco é o primeiro capítulo de um projeto musical inspirado nos 22 arquétipos dos Arcanos Maiores do Tarô. Para nós, o Louco representa a criança abençoada: a parte de nós que atravessa a vida em total confiança, sem o peso do medo, do controle ou da excessiva seriedade. Como uma criança, o Louco está plenamente presente e aberto às possibilidades. Quando deixamos de gastar tanta energia tentando controlar a vida, essa energia se transforma em criatividade, liberdade e presença. De certa forma, toda a jornada dos Arcanos Maiores é o caminho de nos afastarmos desse estado original e, finalmente, encontrarmos o caminho de volta para ele.
A composição nasceu com Ehren Hanson, enquanto ele estava em Kolkata, na Índia, trabalhando com pouquíssimos recursos além de um OP-XY. Imerso na música clássica vocal do norte da Índia, ele foi profundamente inspirado pela amplitude do ektal, o ciclo rítmico de doze tempos. Ao experimentar melodias, harmonias e ritmos, surgiu uma progressão de acordes que parecia respirar naturalmente em doze tempos. Nos meses seguintes, a música foi crescendo de forma orgânica, guiada muito mais pela intuição do que por um plano pré-estabelecido.
Para mim, esta obra nasce de muitos anos de pesquisa sobre o misticismo, caminhando lado a lado com minha vida como musicista e leitora profissional de Tarô. Ao longo de mais de cinco mil leituras, percebi como grande parte do sofrimento humano nasce do medo, da necessidade de controlar a vida e da crença de que precisamos administrar tudo para estarmos seguros. Com este projeto, quis explorar a condição humana através dos Arcanos Maiores, onde cada carta revela não apenas um desafio, mas também a sabedoria e a medicina que ela oferece.
Desde o início, Ehren imaginou o violão como a voz principal da composição. Quando ouvi a música pela primeira vez, as melodias surgiram quase imediatamente, como se já estivessem esperando dentro dela. Aos poucos, o violão tornou-se a própria voz do Louco: curioso, inocente e disposto a seguir em frente sem saber exatamente para onde o caminho levará. Nossa intenção foi criar uma obra que transmitisse confiança, leveza e a energia criativa que surge quando deixamos de tentar controlar cada passo da jornada.

Comentário de Camila Celin

administrator
Fundador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Apaixonado pelo Brasil e por seus grandes artistas.