17 de março de 2026

A GÊNESIS DA CANÇÃO (#5) – Conheça o processo criativo de cinco novas canções, brasileiras e internacionais

A GÊNESIS DA CANÇÃO é uma fusão das versões focadas em processo criativo das listas ALÉM DA BR (lançamentos internacionais) e LUPA NA CANÇÃO (nacionais), que agora se tornam oficialmente editorias. Sob este domínio, já publicamos e desbravamos em torno de 4 mil lançamentos, de brasileiros e de artistas mundo afora.

A GÊNESIS DA CANÇÃO não muda muito a lógica das edições anteriores. Selecionaremos sempre cinco artistas, que irão contar com suas próprias palavras sobre a criação de suas novas músicas. A diferença é que antes artistas brasileiros ficavam em listas separadas, e agora está tudo junto.

Vale dizer que o conteúdo aqui apresentado tem exclusividade da ARTE BRASILEIRA, escrito sob encomenda. A sequência foi escolhida via sorteio, ou seja, não há “melhores e piores”.

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---> Aneta George - "Rollercoaster" - (FRANÇA / MACEDÔNIA)
Alguns anos atrás, vim para a França para o que deveria ser apenas uma visita de uma semana… e acabei decidindo me mudar para Paris. Até então, eu acreditava que estava destinada a passar toda a minha vida na minha amada Macedônia, o lugar onde nasci e vivi por toda a minha vida. Foi então que percebi que o Universo tem suas próprias surpresas — e, mais importante ainda, que ele apoia nossos sonhos. O Universo apoiou o meu.
Essa mudança me fez refletir sobre a vida, sobre o quão pouco controle realmente temos e como é impossível prever o que vai acontecer, por mais que tentemos. Rollercoaster nasceu dessa percepção — uma tentativa de expressar a natureza imprevisível da vida e a minha entrega a essa força invisível que nos guia. Com um toque de melancolia, a música parece mostrar fragmentos da vida passando como cenas de um filme. Ela fala dessa energia invisível que nos impulsiona, mesmo quando o caminho à frente não está claro.
Compus a canção ao piano, como faço com a maioria das minhas músicas — sozinha, cantando suavemente no silêncio da noite. Em sua primeira versão, a peça tinha um tom mais leve e motivacional. Mais tarde, transformei-a em algo mais profundo e introspectivo, esperando convidar o ouvinte a uma jornada interior.
A mensagem é simples: a vida é uma montanha-russa. Ela sobe e desce, gira e surpreende — mas quando confiamos no processo, as coisas encontram seu caminho e se revelam como devem ser. Somos cuidados.

Comentário de Aneta George

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---> Ger Paiva - "Bar da Terapia" - (BRASIL)
A história de "Bar da Terapia" começou no dia 25 de dezembro de 2024.
Tudo começou com um estalo no silêncio da madrugada. Enquanto o mundo descansava do Natal, eu acordei com uma missão clara: eu queria escrever uma música chiclete, daquelas que grudam na cabeça de primeira, que as pessoas se identificassem e que trouxesse todo aquele humor descontraído que só o sertanejo tem.
Eu fechei os olhos e visualizei a cena: um boteco raiz e, lá no fundão, um homem sozinho com um copo de cerveja. Ali não era só alguém bebendo; era alguém numa sessão de terapia particular. Eu me perguntei: "O que esse homem faz aqui todo santo dia?". A resposta foi o coração da música: ele vai buscar cura. O copo virou o "parceiro ideal", o melhor amigo que ouve tudo sem julgar.
Mas, como a vida gosta de uma ironia, no lugar onde ele foi para se encontrar e curar a mágoa, ele dá de cara com a mulher que o traiu. É aí que a sofrência vira "coisa do inimigo"! Fiz questão de trazer o nosso cotidiano brasileiro: a resenha com o garçom, a pergunta se o estoque vai aguentar a "danada da tristeza" e aquele choro sincero que termina com a percepção de que a mulher se foi e só restou pagar a conta.
Alguns meses depois, resgatei essa poesia em uma aula de canto e piano. Ali, com minha parceira de criação Bea Belo, a música ganhou corpo e melodia. Quando gravamos a primeira "guia", a gente sentiu na hora: a música era viciante e tinha o carisma que o público sertanejo adora. Em meados de 2025, lançamos a versão oficial. Nos primeiros eventos, o termômetro não mentiu: o povo cantava o refrão com uma facilidade absurda. Hoje, início de 2026, o "Bar da Terapia" vem sendo validada pelas rádios e pela mídia, atravessando o oceano — hoje ela cresce organicamente no Brasil e Portugal.
Meu maior desejo é que essa música continue na boca do povo que gosta de uma cerveja e de uma verdade. Que ela traga conforto e alegria para quem se vê na mesma situação do homem da música. Se a dor é inevitável, que a gente possa pelo menos cantar e desabafar juntos nessa grande terapia! Mais do que um hit, "Bar da Terapia" marca meus primeiros passos no cenário musical. Ao unir o dom da composição à entrega na interpretação,eu traduzo o sentimento do povo em melodia. Com essa música, nasce também a esperança de que a verdade e a simplicidade ainda são os caminhos mais curtos para tocar o coração das pessoas. É o início de uma caminhada onde cada verso é uma promessa de que, enquanto houver alguém com uma história para contar e um rádio ligado, a minha voz terá lugar garantido. E que venha ainda muito Sertanejo com o humor e
autenticidade que carrego no meu dia a dia! Eira lasqueira!

Comentário de Ger Paiva

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---> Canacut - "Desobedeça" - (BRASIL)
“Desobedeça” foi uma das primeiras composições da Canacut e, desde o início, já tinha começo e fim definidos. A letra surgiu antes da música; algo raro no processo criativo da banda. Escrita por Mila Barros, a canção trazia uma estrutura clara: uma introdução à capela, um trecho central inspirado nos repentes nordestinos e um final mais denso e pesado. Algum tempo depois, Maurício Scaramal compôs a harmonia no violão e a banda, reunida, construiu o arranjo final. O resultado é a faixa de abertura do novo EP da Canacut, “À mercê do tempo”, com lançamento marcado para o dia 30/10/25.
A canção se desenvolve em camadas sonoras e poéticas. Começa em tom de anunciação profética, apenas voz, com uma verdade desconfortável: para uma mulher chegar longe, é preciso coragem para desagradar. E desagradar a quem? A quem tenta moldá-la desde cedo com conselhos contraditórios sobre como deve agir, vestir, falar e viver. O repente acelerado e inebriante no meio da música é feito exatamente para confundir e simboliza esse bombardeio de ordens conflitantes. Uma experiência que tantas mulheres conhecem de perto.
Inspirada no poema “Be a lady, they said”, da escritora norte-americana Camille Rainville, a letra de “Desobedeça” expõe contradições: se tem opiniões demais, deve se controlar; mas se for quieta, é anti social. Se é casada é empregada não remunerada; se é solteira, está à espera para se casar. Não deve comer muito, mas se come pouco parece um esqueleto. Ordena que se anulem e, ao final, não resta nenhum comportamento certo, apenas a certeza do erro. A música, então, não só denuncia essas violências sutis como também propõe uma saída: DESOBEDECER.
Mais que uma denúncia, “Desobedeça” é um convite à libertação. Um chamado para que mulheres deixem de tentar agradar a todos e comecem a ouvir a si mesmas. É um grito que diz: siga o que acredita, não o que mandam. No caos das exigências externas, a desobediência torna-se um ato de sobrevivência e de autenticidade.

Comentário de Eduardo, integrante da banda

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---> Robert LaRoche - "Sacred Vow" - (ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA)
Sacred Vow é uma música profundamente pessoal sobre redenção. A letra autobiográfica é retirada diretamente da minha luta de décadas contra o vício. E do meu eventual caminho para a recuperação.
A música foi escrita em várias etapas. Comecei com a melodia vocal principal e, em seguida, completei a estrutura de acordes. A letra veio por último. Lentamente e com muita autorreflexão.
Sacred Vow foi gravada no Silver Spring Studio, no interior do estado de Nova York, com meu produtor e multi-instrumentista John DeNicola. Começamos com a gravação dupla do violão. Depois, gravei os vocais principais e harmônicos. Em seguida, vieram uma faixa de contrabaixo e bateria com vassourinhas. Harmônio e dulcimer foram adicionados posteriormente para dar à faixa um som vintage autêntico. O riff de guitarra principal foi tocado lindamente pelo meu produtor John DeNicola em uma guitarra Dobro. O pedal steel foi o último instrumento a ser adicionado, tocado com maestria pelo meu amigo de longa data John Leon.

Comentário de Robert LaRoche

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---> Ciro Belluci - "Identidade" - (BRASIL)
Meu nome é Ciro Belluci, sou cantor, arranjador, instrumentista e ator nascido no interior de Minas, e atualmente morando em São Paulo. A música é, antes de qualquer coisa, a minha forma de me comunicar com o mundo, e quase sempre que escolho meus repertórios, em algum momento tento me conectar com o meu eu-criança e lembro das coisas que cresci ouvindo. Minha família paterna é de músicos militares, e o lado materno sempre gostou muito de música, então desde cedo eu estive ouvindo e experimentando sons diferentes. “Identidade” é um samba do Jorge Aragão que me lembro muito de ouvir na casa do meu avô, ela é parte do disco “Ao vivo”, de 1999. Mas quando a gente é criança, a gente ainda não entende muito de como o mundo funciona. Só depois de um tempo, com amadurecimento e com mais consciência da minha negritude é que fui ouvir o que essa música realmente tem a dizer.
Com o impacto de reencontrar essa canção, resolvi colocar ela num show que fiz em junho de 2024 e foi lá que o arranjo nasceu. Minha principal vontade era que o instrumental soasse tão revoltado quanto a letra, e nessa busca acabei encontrando a frase que abre a minha versão. Ela se baseia num maracatu, mas com acentuações que fogem um pouco do groove convencional, e pra mim essa imprevisibilidade rítmica junto com as escolhas harmônicas dela me trouxeram a sensação de densidade e agressividade que eu queria. Além disso, essa frase acontece propositalmente na harmonia do refrão, pra que as duas coisas pudessem ser sobrepostas, como acontece no final da música.
Desde quando rolou o show, eu já sabia que queria gravar esse arranjo, e um pouco depois, pintou a oportunidade através de um edital da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB-Cultura) e chamei os músicos que já tinham tocado comigo no show: Gladston Vieira na bateria, Matheus Duque no sax, Pedro Gomes no baixo e Pitágoras Silveira no piano. São músicos que já fizeram muitos trabalhos comigo, então tenho uma relação de criação e confiança muito legal com eles.
Quando já estávamos encaminhando pra gravar, pintou a ideia de chamar a Ilessi. Acho que tem tudo a ver, tanto musicalmente quanto pelo discurso, ela estar nesse projeto, e já era uma vontade de algum tempo poder trabalhar com ela. Eu admiro demais o trabalho dela desde que um amigo, Caetano Brasil, me apresentou, e eu sempre trocava ideia com ela pelo instagram, mas nada “oficial”. Quando fiz o convite, a gente teve que esperar pra fazer um malabarismo de datas, mas deu certo! Gravamos ao vivo, no Estúdio Macieiras, em Entre Rios de Minas. Fizemos dois takes, e ficamos com o segundo.
Ainda no estúdio, fizemos também o material visual do projeto que, além de ter o registro do momento da gravação, tem momentos de expressão corporal e outras formas de interpretação, que foi uma proposta da equipe de vídeo e que Ilessi também se jogou sem ressalva. Depois disso, a última etapa foi a gravação das flautas, que fiz em outro momento no estúdio da Bituca: Universidade de Música Popular em Barbacena. Esse naipe de flautas é pra mim o auge da densidade do arranjo, porque sinto que ele deixa a frase ainda mais interessante harmonicamente, pela abertura das vozes, e isso permite que algumas tensões sejam mais enfatizadas.

Comentário de Ciro Belluci

administrator
Fundador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Apaixonado pelo Brasil e por seus grandes artistas.