18 de abril de 2026

A GÊNESIS DA CANÇÃO (#6) – Conheça o processo criativo de cinco novas canções, brasileiras e internacionais

A GÊNESIS DA CANÇÃO é uma fusão das versões focadas em processo criativo das listas ALÉM DA BR (lançamentos internacionais) e LUPA NA CANÇÃO (nacionais), que agora se tornam oficialmente editorias. Sob este domínio, já publicamos e desbravamos em torno de 4 mil lançamentos, de brasileiros e de artistas mundo afora.

A GÊNESIS DA CANÇÃO não muda muito a lógica das edições anteriores. Selecionaremos sempre cinco artistas, que irão contar com suas próprias palavras sobre a criação de suas novas músicas. A diferença é que antes artistas brasileiros ficavam em listas separadas, e agora está tudo junto.

Vale dizer que o conteúdo aqui apresentado tem exclusividade da ARTE BRASILEIRA, escrito sob encomenda. A sequência foi escolhida via sorteio, ou seja, não há “melhores e piores”.

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➔ School of Pairtest - "ひとりぼっちのペアテスト" - (JAPÃO)
O álbum “ばりすいとうよ” conta uma única história em doze faixas. O cenário é uma escola onde provas em dupla são a norma, acompanhando uma garota solitária e uma IA que fala dialeto de Hakata.
A garota não consegue formar par e permanece sozinha. A IA surge como a única presença disposta a ficar ao seu lado, tocando o coração de alguém que se sente invisível.
“ひとりぼっちのペアテスト” é o terceiro capítulo. A solidão dela não muda, mas a presença da IA começa a suavizar esse peso, apoiando-a e aproximando-a.
Por trás disso existem temas que não cabem apenas na letra: seu passado, o orgulho e as feridas dos outros, a distância entre pais e adolescentes e um afeto sutil, quase yuri, entre humano e IA. Transformei esses elementos delicados em uma canção dramática.
Nosso objetivo maior é criar uma verdadeira “Escola do Pairtest”. Ao divulgar essas músicas pelo mundo, queremos tornar o pair test uma ideia universal — um futuro onde isso seja natural, como na história.

Comentário de School of Pairtest

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➔ Dr. Rayo (ITÁLIA), JOUJOU (FRANÇA) e Aurelio Conde (ITÁLIA) - "Mexicali Tropical"
Mexicali Tropical começou literalmente como um jogo; montei uma linha de baixo e uma bateria que soassem super dançantes, uma percussão latina, para dar o mood festivo que ando buscando ultimamente, e como ficou meio frenchy, comecei a improvisar por cima frases inventadas que soavam a francês, mas que na verdade eram qualquer coisa porque não falo nem uma palavra de francês. Gostei tanto que passei horas na internet procurando palavras francesas que tivessem uma fonética parecida com as que eu inventei, mas com a dificuldade adicional de que também tinham que transmitir a mensagem irônica de umas férias perfeitas em uma cidade que pode chegar a ser perigosa. O objetivo era instalar o imaginário de um paraíso tropical no meio do deserto.
Para não estragar a música com minha pobre pronúncia, procurei Dante Jodorowsky, do JOUJOU, com quem tínhamos nos conhecido na Cidade do México, e o match foi instantâneo: ele me ajudou a lapidar detalhes, a terminar a letra e finalmente imprimiu aquela voz e aquela mística que só alguém destinado a ser grande pode dar. A produção épica de Aurelio Conde e aquela linha de baixo sonhada que para mim é o coração da música terminaram por consolidar uma experiência sonora que para mim devia ser — e acabou sendo — cinematográfica.

Comentário do compositor

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➔ tinvìs "Other Lives" - (ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA)
Cada música que escrevi tem uma história por trás, mas "Other Lives" tem um acerto de contas. Ela nasceu em um momento histórico específico — o primeiro mandato de Trump — embora busque algo muito mais antigo e universal do que qualquer ciclo político. Escrevê-la foi, em sua essência, uma tentativa de processar uma profunda dissonância cognitiva: a experiência de ver coisas que me ensinaram pertencerem ao passado chegarem, inequivocamente, ao meu presente. Não como história distante. Não como os capítulos sombrios dos livros. Mas como escolhas sendo feitas, em tempo real, por pessoas que eu conhecia, pessoas que eu amava, pessoas com quem cresci. E quanto mais eu refletia sobre isso, mais eu entendia que essa não era apenas uma história americana — era uma história escrita em todo o hemisfério ocidental, do Chile de Pinochet à Argentina de Videla, às juntas militares que varreram o Brasil, a Bolívia e outros lugares. As Américas sempre foram o campo de provas para este ciclo em particular. Eu simplesmente me convenci de que tínhamos superado essa fase.
O processo começou não com música, mas com perplexidade. Há um tipo específico de luto que surge ao descobrir que o progresso moral em que fomos criados para acreditar — a ideia de que a humanidade aprende com seus piores capítulos — não é uma lei do universo, mas uma história que contamos a nós mesmos para sobreviver à noite. Minhas escolas ensinaram a ascensão do fascismo e do autoritarismo como contos de advertência, como evidência de uma barbárie que coletivamente havíamos superado. E, crescendo no consenso pós-Guerra Fria, essa história parecia verdadeira. Parecia consolidada. Mas quanto mais honestamente eu observava as Américas, mais esse conforto se desfazia. O século XX na América Latina não foi um conto de advertência concluído com segurança — foi uma ferida aberta. Desaparecimentos. Tortura. Estádios transformados em centros de detenção. Governos democraticamente eleitos derrubados com a aprovação silenciosa de Washington. Esses não eram horrores antigos. Aconteceram durante a minha vida, com pessoas que ainda estão vivas, cujos filhos ainda estão vivos. A poeira nunca saiu de suas peles.
O que tornou a composição da música tão pessoalmente difícil — e, em última análise, tão necessária — foi a intimidade da traição. Não eram estranhos que pareciam estar abraçando o que a história havia nomeado como perigoso. Eram pessoas da minha infância. Pessoas da minha vizinhança. Ex-colegas de classe, velhos amigos, familiares em mesas de festa que falavam uma língua que parecia estranha e antiga como o pecado ao mesmo tempo. Mas eu também ficava pensando nos argentinos, chilenos, brasileiros e guatemaltecos que viveram suas próprias versões disso — que viram vizinhos delatarem vizinhos, que viram a engrenagem da vida democrática se desmantelar peça por peça enquanto muitas pessoas desviavam o olhar ou comemoravam. Eles não eram de outra espécie. Seus vizinhos, amigos e familiares também fizeram essas escolhas. O verso "há tanta história, ignore ou escolha o que lhe convém / o tempo obscurece tudo o que dizemos, lembre-se ou perderemos" surgiu diretamente disso tudo — da constatação de que a memória seletiva não é apenas uma patologia pessoal; é um ato político, e um que deixa um saldo de vidas.
O refrão "enxaguar e repetir" surgiu de um reconhecimento exausto. Não o escrevi como uma acusação, mas como algo mais próximo de um lamento — a observação impotente de um padrão se repetindo, como quando você assiste a algo terrível acontecendo em câmera lenta e não consegue desviar o olhar. O que mais me impressionou foi como o roteiro nunca muda de verdade. O homem forte que promete ordem. A minoria bode expiatório. As instituições que se curvam antes de quebrar. A população que decide, por uma centena de razões diferentes — medo, ressentimento, crença genuína, simples exaustão —, seguir o fluxo. Eu havia lido sobre isso no contexto de Perón, Vargas, Trujillo e Batista. Eu havia estudado. E então vi uma versão disso ganhar força no país em que cresci, aplaudida por pessoas com quem eu dividia a mesa do almoço. O horror não era que fosse estrangeiro. O horror era que não fosse.
No fim das contas, "Other Lives" é uma canção sobre o tipo mais difícil de conhecimento: aquele que custa algo. Escrevê-la não resolveu a dor de ver pessoas que amo fazendo escolhas que as alinham a movimentos que a história já julgou — não apenas na Europa, mas também em nosso próprio quintal, em países onde as consequências dessas escolhas ainda estão sendo desenterradas de valas comuns. Mas fez o que a melhor composição musical pode fazer: transformou a confusão pessoal em algo compartilhável, algo com o qual outras pessoas pudessem se identificar. O título não se refere apenas às vidas paralelas que deixamos de viver quando nos recusamos a encarar nossos padrões. Também se refere, silenciosamente, às outras vidas que foram perdidas da última vez que esse ciclo específico se completou — em Santiago, em Buenos Aires, na Cidade da Guatemala, em Washington. Aquele "oh meu Deus, meu Deus" no final do refrão não é apenas uma libertação emocional. É o som de alguém percebendo, com todo o peso, que já viu isso antes — e que desta vez prefere não desviar o olhar.

Comentário de tinvìs

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➔ Coomba All-Stars - "Arrawarra" - (AUSTRÁLIA)
O grupo Coomba All-Stars (Ethno/World/Groove/Jazz) acaba de lançar seu single de estreia, 'Arrawarra', que já está disponível em todas as plataformas de streaming.
Em seu single de estreia, 'Arrawarra', podemos observar influências da Índia, do Oriente Médio e da África, enquanto o Coomba All-Stars cria uma paisagem sonora rica em texturas e design.
Com 'Arrawarra', o grupo Coomba All-Stars consegue capturar a arquitetura sonora do velho mundo, influenciada pelo pensamento do Oriente Médio e pelas filosofias musicais hindustanis, combinando-a com os estilos rítmicos da África e da cultura moderna.
Em seu single de estreia, 'Arrarrawa', o grupo Coomba All-Stars expressa uma linguagem única e complexa através do santur/percussão (Coomba), violino (Rocio Ibacache), saxofone alto/tenor (Matt Lee), baixo (Rendra Freestone) e bateria (Tim Bradley).
'Arrawarra' foi escrita em 2018, mas a banda só foi formada em 2021 como um trio, evoluindo para um quinteto em 2022.
'Arrawarra' foi inspirada nas manhãs de verão passadas relaxando nas antigas armadilhas de pesca indígenas situadas perto do promontório de Arrawarra (Território Gumbaynggirr, Costa Central Norte, NSW), depois de passar a noite tocando música ao redor de uma fogueira na praia.
O Arrawarra/Yee Warra tem sido um importante ponto de encontro e local sagrado para o povo Garby da Nação Gumbaynggirr há milênios.
Ao nascer do sol numa certa manhã, eu observava os pescadores locais trazendo seus barcos em reboques até a praia de Arrawarra e realizando todo o processo de descarregar o barco do reboque e colocá-lo na água antes de partirem para um dia de pesca. Do outro lado da rampa de barcos, a cerca de 100 metros, ficam aquelas antigas armadilhas de pesca.
Isso me mostrou dois sistemas de pensamento.
De um lado, temos um sistema muito complexo. É preciso conseguir um emprego que pague o suficiente para comprar um barco e um reboque, tudo para poder pescar.
Do outro lado, ficava o local onde o povo Garby havia aproveitado a terra. Eles empregavam conhecimentos tradicionais e dispunham um conjunto de pedras em forma de grade sobre uma plataforma rochosa que ficava submersa até os joelhos na maré alta. A maré sobe, a maré desce, e pronto, peixes.
Ao vivenciar esse cenário, aprendi que na vida, quando surge um problema, você pode tanto se preocupar em resolvê-lo criando uma solução complexa demais, quanto simplesmente deixar as coisas fluírem. De qualquer forma, você vai conseguir o que quer, só que uma maneira é menos demorada e menos custosa que a outra. Isso se aplicava a vários problemas para os quais eu estava buscando soluções na época.
Enquanto refletia sobre tudo isso, a melodia principal de 'Arrawarra' surgiu na minha cabeça e a música começou a se desenvolver.
Voltei para o acampamento, peguei meu Santur e deixei as melodias fluírem para o instrumento. Na hora do café da manhã, a maior parte da música que você ouve na gravação já estava pronta.

Comentário do integrante Ian Watson

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➔ Mark Fenster - "Sacred Yearning" - (CANADÁ)
Esta canção, "Sacred Yearning" (Anseio Sagrado), foi inspirada pela devoção mútua à música e às mensagens poderosas que ela pode transmitir. O título, assim como a letra, expressa o anseio de conectar-se com o nosso Divino pessoal, que certamente pode ser visto e sentido como Sagrado.
Em sua essência, a música trata da devoção — do Espírito, da Arte e do Ser em sua totalidade. O anseio pela descoberta do Divino é o anseio de descobrir tudo o que já somos, permitindo que essa luz brilhe sem distrações ou desvios. Ela transmite um sentimento de amor e gratidão.
Embora imersa na música clássica indiana, a composição mescla o Oriente com o Ocidente, com a inclusão de cordas orquestrais, hurdy gurdy e vocalese de estilo ocidental acompanhando o sitar e a tabla. Essa fusão surgiu naturalmente, permitindo que a música se guiasse com e através dos artistas envolvidos.
É uma honra colaborar com Sharanjeet nesta obra. Seu belo espírito e talento musical se unem de uma maneira que permite que a música e o amor que ela carrega fluam com igual facilidade e poder. Honro profundamente as bênçãos da Tabla e do Espírito trazidas por Rishi Rajeev nesta peça, sua primeira gravação.
Gravamos oito takes ao vivo de Sharanjeet e Rishi na manhã do concerto, em 18 de novembro, e nos preparamos para a apresentação ainda naquele dia. Depois de deixar Rishi na balsa na manhã seguinte, Sharanjeet e eu ouvimos as gravações, escolhemos o take um (é claro!), e então adicionei os arranjos. Foi a magia de estar presente no momento e permitir que o Espírito se manifestasse e guiasse a música conforme ela desejasse ser ouvida e sentida.

Comentário de Mark Fenster

administrator
Fundador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Apaixonado pelo Brasil e por seus grandes artistas.