30 de abril de 2026

A GÊNESIS DA CANÇÃO (#8)

A GÊNESIS DA CANÇÃO é uma fusão das versões focadas em processo criativo das listas ALÉM DA BR (lançamentos internacionais) e LUPA NA CANÇÃO (nacionais), que agora É oficialmente editorias. Sob este domínio, já publicamos e desbravamos em torno de 4 mil lançamentos, de brasileiros e de artistas mundo afora.

Vale dizer que o conteúdo aqui apresentado tem exclusividade da ARTE BRASILEIRA, escrito sob encomenda. A sequência foi escolhida via sorteio, ou seja, não há “melhores e piores”.

🎧 Ouça a música

➔ Marshall Dane - "Somebody Somewhere' - (CANADÁ)
Quando eu tinha 16 anos, perdi meu melhor amigo.
Tocávamos violão juntos. Cantávamos juntos. Compusemos músicas juntos. Até aprendemos a dirigir juntos. Perdê-lo destruiu algo em mim. Tudo o que me restou foi uma foto que a mãe dele me deu.
Encontrei uma moldura velha e surrada e coloquei a foto dele nela. Essa moldura me acompanha por todos os lugares há 30 anos. Ela esteve presente em todas as mesas de estúdio que já tive — uma lembrança silenciosa de onde comecei e com quem comecei.
Avancemos três décadas.
Eu estava escrevendo com meu amigo Matt Rogers. Depois de quatro horas sem conseguirmos chegar a nada, nos deparamos com uma única frase da qual eu não conseguia me desapegar:
“Alguém em algum lugar está segurando uma foto de alguém que costumava conhecer… e o amor que permanece naquela moldura velha e gasta é um amor que nunca vai embora.”
Aquelas palavras significaram tudo para mim. Tudo o que eu conseguia ver era meu melhor amigo, John.
Não continuamos a compor naquela noite. Na verdade, nunca mais compusemos juntos — Matt optou por se afastar da carreira musical.
Mas eu nunca abandonei aquela letra.
Em 2023, conheci Rosanne Baker Thornley. Pouco depois da nossa primeira sessão de composição, contei a ela sobre uma ideia que eu vinha acalentando há anos — uma música chamada Somebody Somewhere .
Rosie e eu começamos a trabalhar, e o resultado foi como um presente. A letra se tornou uma celebração das pessoas que amei e perdi — meus avós, meu melhor amigo John, minha querida amiga Katie. As pessoas que me moldaram, me inspiraram e me fizeram uma pessoa melhor. Essa música se tornou minha forma de homenageá-las — e o amor que nunca se apaga.
Então surgiu o desafio de gravar algo tão pessoal.
Só havia uma regra: a música tinha que ser feita com amor, assim como a letra.
Rosanne e eu coproduzimos a faixa com Ben Pelchat e Will Schollar. Juntos, a tratamos com cuidado — fazendo com que cada pequeno momento contasse, garantindo que a banda estivesse no clima certo, moldando cada parte até que ela se elevasse e se encaixasse exatamente onde deveria estar.
Desde a primeira nota até a masterização final, cada pessoa envolvida dedicou-se de corpo e alma para fazer esta música brilhar.
E em algum lugar, alguém ainda guarda uma foto — e um amor que jamais se desvanecerá.

Comentário de Marshall Dane

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➔ Musikkollektivet Halvhemligt - "A Fool" - (SUÉCIA)
Minha cabeça está sempre cheia de melodias e ideias para letras, e para "A Fool", tudo começou com a frase "Quem é aquele homem no espelho?", que me veio à mente, provavelmente como uma reação à dúvida sobre se eu estava sendo fiel a mim mesmo.
Rapidamente peguei meu violão e comecei a improvisar, e o primeiro verso e refrão surgiram instantaneamente. Como tive uma boa impressão da música, fui para o meu estúdio continuar a composição.
Eu sabia que queria um riff de metais marcante e um refrão impactante, mas queria manter o início e os versos minimalistas, e quando encontrei o som da kalimba, as coisas começaram a se encaixar.
A mensagem da música é tentar ser fiel a si mesmo ao longo da vida, ser você mesmo e não desistir dos seus sonhos, mesmo que isso signifique nadar contra a corrente às vezes.

Comentário de Anders Vidhav - vocalista da banda

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➔ José Pérez Vargas - "Alienación en vivo" - (CHILE)
Alienação nasce de uma melodia melancólica que compus enquanto refletia sobre como está a sociedade atual: cheia de vozes falsas, guerras, telas e uma crescente falta de empatia.
A partir dessa sensação inicial fui criando diferentes seções musicais que procuram representar essas emoções e contrastes, construindo um percurso sonoro que reflete esse estado de desconexão.

Comentário de José Pérez Vargas

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➔ Saving Nico - "Overtime" - (Bélgica)
Escrevi o início desta música nas primeiras horas de uma noite em claro, quando já tinha desistido de dormir e estava dedilhando meu violão no sofá. Rapidamente encontrei os dois primeiros acordes, que evocavam uma certa tensão que eu queria resolver, mas não conseguia. Muito apropriado para a situação… Eu sentia como queria que a progressão evoluísse, mas não conseguia encontrar os acordes certos imediatamente. Depois de um tempo, voltei para a cama. Foram necessárias mais algumas semanas, algumas noites em claro e algumas sessões com meu pianista até que eu encontrasse a solução. Depois disso, tudo se encaixou rapidamente. Eu vinha pensando no primeiro verso – meu coração está trabalhando em ritmo acelerado – há algum tempo, e o resto da letra surgiu quase naturalmente.
São sobre meu distúrbio do sono. À noite, costumo ficar acordado por horas com palpitações, preocupado. Às vezes, sou acometido por crises de estresse intenso ou pânico, que parecem uma onda de raiva, fazendo meu coração disparar. A razão específica para isso, no entanto, não é necessariamente negativa. Muito pelo contrário. Muitas vezes, me angustio com coisas pelas quais sou realmente apaixonado. Mas esse entusiasmo tende a se transformar em obsessão e desejo de mais, ou em uma incapacidade de deixar ir.
Desenvolvi ainda mais o arranjo da música com os músicos Kobe Van Olmen (piano) e Maximilian Dobbertin (bateria, flauta). Como todas as outras faixas do álbum, nós três a gravamos ao vivo no estúdio. Posteriormente, foram adicionados o contrabaixo (Nicolas Rombouts) e os vocais de apoio (Valerie Van Roey). Felix Machtelinckx cuidou da produção e mixagem. A masterização ficou a cargo de D. James Goodwin.
É o primeiro single de um álbum que será lançado neste outono, chamado Flood.

Comentário de Saving Nico

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➔ Isabella Han-Bolelli - "Immoral Bitch" - (ESTADOS UNIDOS DA AMÉRCIA)
Eu tinha doze anos quando alguém me chamou de imoral pela primeira vez.
Era um cara com quem eu costumava ser próxima. Lembro de ter ficado chocada — tipo, imoral? Que acusação ridícula. Mas doeu. Eu não conseguia entender por que ele escolheu um insulto tão desumanizador. Por que ele de repente cuspiu no meu nome como se fosse inferior ao dele.
Refleti um pouco sobre a palavra e percebi algo: ele só teve problema comigo depois que ganhei confiança. Depois que comecei a usar tops curtos e meus seios cresceram. Depois que comecei a me expressar.
Foi aí que a ficha caiu: "imoral" é a palavra que os homens usam quando se sentem ameaçados. Conforme a revelação se consolidava, eu soube que precisava escrever sobre isso. Eu devia isso a mim mesma. Eu devia isso a todas as mulheres que vieram antes de mim, rotuladas como bruxas e queimadas na fogueira, transformadas em bodes expiatórios quando se recusaram a deixar que outros as diminuíssem.
"Immoral Bitch" é exatamente o que eu, aos doze anos, precisava ouvir. É um lembrete de que ela não é barulhenta demais, estranha demais ou exagerada demais. E eu quero que todos que ouvirem essa música sintam o mesmo. Quero que se sintam apoiados. Quero que saibam que não precisam da permissão de ninguém para se amarem. Quero que saibam que elas são incríveis.

Comentário de Isabella Han-Bolelli

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Fundador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Apaixonado pelo Brasil e por seus grandes artistas.