27 de junho de 2026

A GÊNESIS DA CANÇÃO (#19)

A GÊNESIS DA CANÇÃO é uma fusão das versões focadas em processo criativo das listas ALÉM DA BR (lançamentos internacionais) e LUPA NA CANÇÃO (nacionais), que agora É oficialmente editorias. Sob este domínio, já publicamos e desbravamos em torno de 4 mil lançamentos, de brasileiros e de artistas mundo afora.

Vale dizer que o conteúdo aqui apresentado tem exclusividade da ARTE BRASILEIRA, escrito sob encomenda. A sequência foi escolhida via sorteio, ou seja, não há “melhores e piores”.

➔ ZeVitor - "Deixe-me Ir" - (BRASIL)
A composição dessa música veio a partir de uma estranha sensação crescente de guerras, desde que foi escrita o mundo parece ter entrado em uma nova fase de conflitos armados, redefinições de fronteiras e de uma política que usa da força bruta para imperar. Nesse cenário, a composição se desenvolve a princípio num desejo de liberdade e de outros caminhos para se viver nesse tempo contemporâneo. No primeiro verso fica evidente que existe um desafio relacionado à resolução de problemas que parece ser feita sempre em termos bélicos: “sem a terra tremer / sem você atirar / outros mísseis por quê / resolver é brigar”. No segundo verso, talvez a explicação de por que andamos armados de incompreensão: “não tem fé que faz / o papel de ilusão / se o preço da ação / de quem quer sempre mais / é um sonho no bolso / a bandeira na mão / e não ter tez de paz.” Então as reflexões que formam essa música passam todas por um olhar ao comportamento do ser humano e de como ainda não consegue lidar com as diferenças de forma diplomática, além de constantemente ter uma visão seletiva do mundo, concordando apenas com aquilo que reafirma o seu lucro e a sua ideologia. Essa canção foi destacada do álbum Imago Mundi, e fazer a transformação dela para esse feat com o Xande de Pilares foi desafiador, pois não era a nossa intenção entrar
em um território com tanta história tentando fazer a cópia de um molde para ser aceito. Então todo o conceito de reconstrução desse arranjo surge da curiosidade de juntar certos timbres, como: o violão tenor, o violão dinâmico, a viola nordestina… instrumentos com características muito próprias em sua sonoridade e que instantaneamente nos abrem uma janela temporal e nos transportam para as décadas de 30, 40… O oficleide levaria a textura musical ainda para antes, sendo um sopro
que começou a ser usado no início do século XIX e parou de ser fabricado em 1900… Essa busca por uma heterotopia brasileira nos presenteou com a forma da música, que ainda conta com a presença de uma série de elementos percussivos, dentre eles um capacete de guerra e uma cápsula de bala… fazendo um passeio e criando sobreposições de ritmos em diferentes momentos da música, as percussões imprimem diversos subgêneros nessa obra final. Sem dúvida, olhar para trás e para a modernidade de músicas como o Corta-Jaca de Chiquinha Gonzaga nos inspiraram a tentar encontrar novos rumos para a feitura dessa canção como um “Maxixe Moderno”.

Comentário de ZeVitor

➔ Ricardo Bacelar - "Mestre Novo da Guiné" - (BRASIL)
“Mestre Novo da Guiné”, de Ricardo Bacelar e Airto Moreira, já está disponível nas plataformas
digitais e integra o álbum Maracanós, lançado internacionalmente pelo selo Jasmin Music. A faixa
nasce de um encontro criativo intenso no Jasmin Studio, em Fortaleza, onde os artistas
trabalharam em regime de imersão, explorando ideias de forma livre, guiados pela improvisação e
por uma escuta profunda entre piano, percussões e texturas sonoras.
O resultado é uma música que articula, com naturalidade, elementos da tradição afro-brasileira
com uma linguagem contemporânea, revelando um diálogo maduro entre dois músicos de
trajetórias marcantes. A faixa se destaca no álbum por sua dimensão vocal e por construir uma
narrativa simbólica em torno da figura de um mestre ancestral, associado à transmissão de
conhecimento, identidade e memória cultural.
“Mestre Novo da Guiné” integra um projeto mais amplo que deu origem ao álbum Maracanós e a
um longa-metragem em produção, conectando música e imagem em um mesmo processo
criativo. Trata-se de uma obra que reflete liberdade artística, colaboração e a vitalidade da música
brasileira em diálogo com o cenário internacional.

Comentário de Ricardo Bacelar

➔ Edik San - "Désespoir Contenu" - (BÉLGICA)
"Desespero Contido" nasceu da dor de uma perda pessoal e da urgência de quebrar o silêncio sobre o suicídio. A canção é um tributo a um amigo que escondia sua batalha interna sob uma máscara de felicidade. Diferente da realidade trágica, na letra o personagem escolhe a vida; escrevi esses versos projetando o diálogo que nunca tivemos, no qual eu tentaria convencê-lo de que a tempestade passaria. Para mim, a arte não pode ser limitada por tabus, e a preservação de uma vida é infinitamente mais valiosa do que qualquer aprovação social.
A escolha da Bossa Nova foi intencional: embora o gênero seja famoso pela alegria, ele possui uma linhagem de elegância capaz de abordar a melancolia com a sutileza do termo técnico que dá título à obra — um estilo presente em peças de Tom Jobim e de outros autores de Bossa Nova. Para materializar essa visão, utilizei a inteligência artificial como ferramenta de execução. Embora a letra seja inteiramente minha, a IA "cantou" e tocou os instrumentos sob meu comando rigoroso, onde determinei via prompts cada detalhe de ritmo e harmonia para honrar a tradição sonora brasileira.
Diferente das poucas e raras referências diretas ao tema na música brasileira, como as de Paulo Vanzolini ou d'Os Mutantes, minha intenção foi evitar metáforas excessivamente veladas que pudessem diluir a mensagem de prevenção. O objetivo é que a música sirva de alerta para estarmos mais próximos de quem amamos e, simultaneamente, funcione como um recurso terapêutico para profissionais de saúde mental, ajudando a nomear sentimentos que muitas vezes são sufocados pelo isolamento.
A missão desta obra ultrapassa fronteiras linguísticas devido à gravidade do tema em escala global. Após o lançamento da versão em português, no dia 20 de abril, e sensibilizado pelas altas taxas de suicídio em países europeus e asiáticos, decidi adaptar a mensagem para outros idiomas. No dia 25 de abril, lançarei a versão em francês "Désespoir contenu" (com videoclipe no YouTube), visando o público da França e Bélgica. Em maio, chegam as versões em coreano, japonês e russo, em datas que serão definidas em breve, buscando levar acolhimento a culturas onde o desespero muitas vezes também é vivido de forma contida.
Por fim, este projeto é um convite à empatia e à escuta ativa. Que "Desespero Contido" ajude a desconstruir a necessidade de fingir que está tudo bem e incentive a busca por ajuda profissional. Se esta Bossa Nova, em qualquer uma de suas línguas, fizer uma única pessoa escolher o amanhã ou um amigo ser mais atento ao outro, minha missão de transformar o luto em uma ferramenta de cura e esperança terá sido plenamente alcançada.

Comentário de Edik San

➔ Tommy Mora - "We're On Fire" - (ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA)
"We're On Fire" é um hino poderoso e carregado de emoção que captura a inquietação, a divisão e a urgência da vida na América atual. Tendo como pano de fundo a tensão social e a turbulência política, a canção canaliza a frustração e a angústia sentidas por milhões que veem famílias sendo destruídas, comunidades fragmentadas e a justiça cada vez mais distante.
Por meio de imagens vívidas e letras cruas e evocativas, “We're On Fire” retrata uma nação que parece estar em chamas — consumida pelo medo, pela raiva e pela incerteza. O fogo torna-se tanto um símbolo de destruição quanto um chamado à conscientização, refletindo a intensidade emocional dos protestos, a dor do deslocamento e a luta por dignidade e humanidade.
Mas esta não é apenas uma canção sobre desespero — é uma canção sobre resiliência. À medida que o refrão se intensifica, surge também um sentimento de união e esperança. "We're On Fire" transmite, em última análise, a mensagem de que, mesmo nos momentos mais sombrios, existe uma força coletiva que se recusa a ser extinta. Ela lembra aos ouvintes que a mudança é possível, que a compaixão pode superar a divisão e que um futuro melhor e mais livre ainda está ao nosso alcance.
Combinando urgência com esperança, “We're On Fire” é mais do que música — é uma declaração, um protesto e uma promessa de que as chamas que sentimos hoje podem iluminar o caminho para algo melhor amanhã.

Comentário de Tommy Mora

➔ Pete Davies - "Born to be a Problem" - (REINO UNIDO)
“Born To Be a Problem” surgiu de um sentimento que carrego há muito tempo — aquela sensação de não me encaixar, de dizer a coisa errada ou, às vezes, de não conseguir dizer nada. É sobre falta de comunicação, excesso de reflexão e o peso silencioso de se sentir incompreendido, até mesmo pelas pessoas mais próximas.
Quando eu era mais jovem, muitas vezes tinha dificuldade em expressar o que realmente sentia. Isso me acompanhou, e com o tempo percebi quantas pessoas convivem com esse mesmo ruído interno. A música não fala de uma história específica, mas de algo mais universal — a dificuldade de se conectar e o medo de errar.
Musicalmente, eu queria que essa emoção fosse transmitida de forma direta e enérgica. O pop-punk me pareceu a linguagem certa — cru, honesto e imediato. As guitarras impulsionam tudo, enquanto o vocal carrega aquela sensação inquieta de pensamentos que não se aquietam.
O título "Nascido para Ser um Problema" tem um toque de ironia, mas também reflete algo muito real — aquela voz interior que pode fazer você se sentir como se o problema fosse você. Acho que muita gente reconhece esse sentimento, mesmo que nem sempre fale sobre ele.
No fundo, esta música fala sobre conexão — e como isso pode ser difícil às vezes. Se ela ajudar alguém a se sentir compreendido, mesmo que por um instante, então terá cumprido seu propósito. “Born To Be a Problem” já está disponível em todas as principais plataformas de streaming, incluindo o Spotify, e marca uma direção mais pessoal na música que estou criando.

Comentário de Pete Davies

administrator
Fundador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Apaixonado pelo Brasil e por seus grandes artistas.