22 de outubro de 2026

A GÊNESIS DA CANÇÃO (#26)

A GÊNESIS DA CANÇÃO é uma fusão das versões focadas em processo criativo das listas ALÉM DA BR (lançamentos internacionais) e LUPA NA CANÇÃO (nacionais), que agora é oficialmente editorias. Sob este domínio, já publicamos e desbravamos em cerca de 4 mil lançamentos, de brasileiros e de artistas do mundo afora.

Vale dizer que o conteúdo aqui apresentado tem exclusividade da ARTE BRASILEIRA, escrito sob encomenda. A sequência foi escolhida via sorteio, ou seja, não há “melhores e piores”.

➔ Rigel é a segunda faixa do álbum *Stella*. Desde o meu primeiro álbum instrumental, *Ursa Major*, o tema das estrelas já havia me cativado — não apenas pelo seu poder evocativo, mas também por sua grandeza, imensidão e mistério. Com *Stella*, quis retomar esse tema em uma escala maior, explorando as nove estrelas mais brilhantes visíveis de onde vivo, no Canadá. Cada uma das nove faixas do álbum representa uma delas; Rigel é uma dessas estrelas. A ideia de estruturar o álbum em torno dessas nove estrelas específicas surgiu do desejo de conferir ainda mais força a um tema que já era poderoso.
Há mais de quinze anos, a música modal me fascina. O uso de modos abre caminho para melodias singulares, quase inesperadas. Desde o momento em que descobri essa linguagem, soube que queria explorá-la mais a fundo. A música para cinema — a música composta para as telas — sempre foi central para a minha inspiração, tendo compositores como James Horner como referência fundamental.
Em *Stella*, o ritmo assumiu um papel ainda mais relevante, impulsionado pelas influências do rock da minha adolescência. Eu buscava uma energia crua, a energia de alguém determinado a conquistar seu espaço. Para capturar isso, todo o álbum foi gravado e mixado em fita analógica, em formato de trio: piano de cauda, ​​baixo elétrico e bateria, tudo executado ao vivo.
Rigel, a estrela mais brilhante da constelação de Órion, é uma supergigante. Quis homenageá-la com uma composição que fosse rítmica, visual e misteriosa. Aqui, o próprio tema tornou-se minha maior fonte de inspiração. Busquei deliberadamente evitar qualquer melodia que pudesse soar familiar. Ainda assim, Rigel é, inconfundivelmente, a soma de várias influências: Depeche Mode, pelo uso de teclados melódicos; Miles Davis, que popularizou o jazz modal; Pink Floyd, pelas texturas atmosféricas e etéreas; James Horner, pela abordagem cinematográfica vívida; e Radiohead, pela energia e pelas estruturas musicais não convencionais.

Comentário de Livernoche

➔ Susana Azuara - "Comment pourrais-je te dire" - (ESPANHA)
Nos meus concertos, costumo interpretar minhas próprias composições e também algumas canções em francês. Com o tempo, percebi que essas músicas sempre eram muito bem recebidas pelo público e, um dia, me perguntei: por que não compor a minha própria canção em francês?
Eu já tinha alguns versos escritos havia anos, mas escrever uma música em um idioma que não era o meu parecia um grande desafio. Foi justamente por isso que decidi tentar. Os desafios nos fazem pensar mais e, ao mesmo tempo, são uma grande motivação.
Em um determinado momento, meu parceiro musical, Fernando Oliván, e eu nos reunimos para trabalhar na letra. Estávamos convencidos de que o francês tem uma musicalidade muito especial e queríamos aproveitar toda a beleza natural desse idioma.
Enquanto trabalhávamos, eu já tinha na cabeça uma melodia muito diferente de tudo o que havia composto até então. José Luis Arrazola, meu produtor e guitarrista, compreendeu perfeitamente essa ideia. Ele foi responsável por toda a instrumentação e pela produção musical, e sua maestria fez com que as guitarras manouche soassem incríveis, dando à canção exatamente a personalidade que eu procurava.
Assim nasceu Comment pourrais-je te dire?, minha primeira composição em francês, depois de mais de vinte e cinco canções escritas em espanhol. Foi uma experiência extremamente enriquecedora, que me permitiu descobrir uma nova forma de expressar minha música por meio do jazz manouche, um gênero no qual me senti especialmente à vontade.

Comentário de Susana Azuara

➔ César Baldan, com participação de Tata Rocha - "Dois Sóis" - (BRASIL)
“Dois Sóis” nasceu em 2020, em meio à pandemia, a partir de uma distância que, naquele momento, era também uma experiência coletiva. Eu havia retornado à minha cidade natal, Vitória, no Espírito Santo, depois de quatro anos vivendo em Minas Gerais. Foi durante esse período em Minas que conheci Tatá Rocha, musicista, compositora e artista de Juiz de
Fora. Com o isolamento, nossas trocas passaram a acontecer à distância.
Tatá me enviou um primeiro motivo melódico e alguns versos que já carregavam uma atmosfera muito particular. A partir daí, criei uma segunda seção e fomos desenvolvendo a letra. O processo foi acontecendo de maneira orgânica: experimentando possibilidades, definindo a estrutura e, inicialmente, pensando também nos arranjos vocais. A própria distância acabou se tornando parte do processo criativo, uma música criada por duas pessoas, mas sem a possibilidade concreta do encontro.
A temática de “Dois Sóis” nasce justamente dessa contradição: a existência de uma relação intensa que, apesar de sua força, termina sem que o encontro aconteça. A canção fala sobre aquilo que poderia ter sido, sobre afetos que encontram um limite antes de se realizarem plenamente. Há algo de doloroso nessa impossibilidade, mas também uma espécie de beleza naquilo que permanece suspenso.
Depois de concluída, enviei ao produtor Diogo Spadaro uma versão voz e violão, acompanhada de algumas ideias. Desde o início, pensamos a faixa a partir da densidade e da dramaticidade presentes na letra. A sonoridade foi sendo construída para ampliar essa sensação de distância e tensão, aproximando elementos orgânicos e percussivos de texturas e efeitos eletrônicos, e um arranjo de cordas de Dennys Serafim. Assim, “Dois Sóis” acabou se tornando não apenas uma canção sobre a impossibilidade do encontro, mas também um registro de um momento em que a própria criação precisou encontrar
outras formas de estar perto.

Comentário de Cesar Baldan

➔ Gabriel Lael - "Piracema" - (BRASIL)
Nós dois [Eu (Gabriel Lael) e Luas Olivieri] moramos juntos em uma casa coletiva de artistas em São Paulo. Pouco antes de minha partida – para tocar em um show autoral em um festival em Alter do Chão (Pará), durante a COP-30 – senti a intuição de lhe dizer. "Ainda não sei o que será, amigo. Mas pressinto que te trago de volta um grande presente".
Lá no Pará, depois de dançar muito carimbó e ajudar na produção do festival, decidi caminhar à beira do rio. Alter do chão é o maior aquífero do mundo! A vila fica recostada no Lago Verde, servido da abundância de sete igarapés. E quando o Lago transborda, deságua na imensidão do Rio Tapajós – tão gigante que quase nem vemos sua outra margem.
Fui caminhar à beira dessa água toda, e no ritmo dos meus passos, traçados em compassos de ska, fui improvisando e recebendo a letra da canção. A vitalidade da água e a intenção político-ambiental era o que me instigava.
Já entardecia quando dei a volta. Fui indo contra a correnteza, e no salto de um peixe me veio a eureca! No meio desses tempos malucos, para sobrevivermos enquanto espécie, precisamos ser como a Piracema, subir contra o fluxo de destruição do sistema capitalista, em nome da preservação do que há de essencial para a vida. Assim que encontrei meu violão, a harmonia se apresentou: o baixo cromático que desce como um rio, lentamente; e de repente, no refrão, subimos pro agudo com Piracema.
Chegado de viagem, mostrei os esboços para meu grande amigo, Luas Olivieri. Ambos estávamos muito angustiados com a ameaça de venda dos rios Madeira, Tapajós e Xingu para bilionários abusados. Nos debruçamos sobre esta criação juntos, cantando as possibilidades por horas. Juntos lapidamos os versos para afiar as intenções políticas e passar a mensagem com clareza: RIO NÃO SE VENDE.
Assim nasceu uma parceria em andamento, cultura e política de mãos dadas, ética e estética, inspiração e expressão, fruto de nossa profunda amizade. Este é o primeiro dos lançamentos de tantos porvir.

Comentário de Gabriel Lael

➔ Antonio Adolfo - "As Pastorinhas"
“As Pastorinhas” é uma marcha carnavalesca brasileira composta por Braguinha, com letra de Noel Rosa, lançada em
1934. A canção foi inspirada nos desfiles do folguedo conhecido como pastorinhas, típico do ciclo natalino brasileiro. Tornou-se um clássico do carnaval carioca e da música popular brasileira.
O termo pastorinhas refere-se a manifestações folclóricas de origem portuguesa que encenam a jornada pastoral até o
presépio, com cantos e danças típicas.[2] No início da década de 1930, simultaneamente ao crescimento de blocos carnavalescos no Rio de Janeiro, Braguinha, então estudante de arquitetura, buscava criar uma composição que lembrasse o ritmo dessas apresentações populares.
Em 1934, Braguinha apresentou a primeira versão chamada “Linda Pequena”, interpretada por João Petra de Barros.
Posteriormente, com intervenção de Noel Rosa, a a letra passou a se chamar “As Pastorinhas”. No single lançado por Antonio Adolfo, a música apresenta arranjo baseado no estilo marcha-rancho com um toque jazz trazido principalmente por Antonio Adolfo (arranjo e piano), Jesse Sadoc (flugelhorn) e Marcelo Martins (flauta).

Comentário de Antonio Adolfo

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Fundador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Apaixonado pelo Brasil e por seus grandes artistas.