17 de maio de 2026

A GÊNESIS DA CANÇÃO (#15)

A GÊNESIS DA CANÇÃO é uma fusão das versões focadas em processo criativo das listas ALÉM DA BR (lançamentos internacionais) e LUPA NA CANÇÃO (nacionais), que agora É oficialmente editorias. Sob este domínio, já publicamos e desbravamos em torno de 4 mil lançamentos, de brasileiros e de artistas mundo afora.

Vale dizer que o conteúdo aqui apresentado tem exclusividade da ARTE BRASILEIRA, escrito sob encomenda. A sequência foi escolhida via sorteio, ou seja, não há “melhores e piores”.

➔ Enda de Miranda - "Que Saudade - Mozart Lacrimosa Cover" - (BRASIL / FRANÇA)
O Lacrimosa de Mozart é uma obra fascinante e de uma beleza comovente. O fato de Mozart não ter conseguido concluí-la, mas de ela ainda assim ter vindo à luz, atravessado o tempo e chegado até nós, a torna ainda mais preciosa.
Minha ligação com essa obra vem da época em que eu estudava solfejo. Minha professora nos fez cantar o poema do Dies Irae e, sem que eu soubesse exatamente por quê, esse poema medieval me marcou profundamente. O que eu sei é que gosto muito da sua monodia: é como se houvesse uma vibração particular. A gente se concentra em uma única voz, e acho que isso ressoa ainda mais. Além disso, a escrita homorrítmica dessas obras, seja no Dies Irae ou no Lacrimosa, realmente exige escuta; acho isso fascinante.
A ideia inicial deste projeto nasceu de uma proposta do pianista Thierry Eliez, que quis revisitar essa obra sob uma nova perspectiva. Ele reorquestrou o material musical em colaboração com Biztoofly, em um diálogo artístico que permitiu o surgimento de Que Saudade.
Em Que Saudade, não se trata do Juízo Final nem do julgamento das almas, mas de um sentimento particular que só existe, em sua forma escrita, na cultura lusófona: a saudade. É uma palavra que não tem realmente equivalente em francês, embora possa evocar uma nostalgia profunda, uma melancolia, uma falta. Que Saudade expressa a ausência profunda de algo ou de alguém, muitas vezes de forma irreversível.
A escrita da letra foi confiada a André Luiz De Souza. Os textos, as sessões de gravação e as filmagens dos visuais são fruto de um trabalho em equipe que eu valorizo particularmente. Eu espero que vocês gostem desta música, que expressa ao mesmo tempo a força do amor e a dor da separação, tanto quanto ela nos agrada.

Comentário de Enda de Miranda

➔ Roots of Creation, Eric Swanson, SOJA, e Jacob Hemphill - "Oblivious (Please Dont Go)" - (ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA)
“Oblivious” começou há mais de um ano com uma ideia simples: até você aprender a dizer não, seu sim não tem significado real. Originalmente, escrevi a música pensando em outro artista, mas quanto mais eu a ouvia, mais me sentia conectado a ela e decidi lançá-la por conta própria.
Costumo compor com Jacob Hemphill, então entrei em contato para saber se ele gostaria de participar da faixa. Ele me respondeu com um verso incrível que acrescentou ainda mais profundidade à música. Conversei com Brett Wilson sobre o álbum, e ele se identificou imediatamente com a ideia e quis produzi-lo ao lado de Trevor Buckingham. Juntos, eles construíram uma base instrumental sólida para que todo o resto se desenvolvesse a partir dela.
Ao longo do ano seguinte, nossos amigos do Roots of Creation se juntaram à faixa, e foi incrível ver a energia de todos se unindo. Helman Escorcia também compôs uma linda linha de metais que complementa perfeitamente a música. Há tantos espíritos incríveis entrelaçados nesse ritmo. Eu posso ter escrito a música, mas toda a equipe lhe deu vida, e você pode sentir essa emoção e energia do começo ao fim.
Em sua essência, “Oblivious” fala sobre amor, perda e o poder de encontrar a própria voz. Esperamos que inspire as pessoas a se manterem fiéis à sua verdade.

Comentário de Eric Swanson

➔ The Bahama Soul Club - "RUMBA LOCA" - (PORTUGAL)
Com “Rumba Loca”, o Bahama Soul Club eleva a temperatura em sua jornada pela Andaluzia. Após o sucesso surpreendente de “El Rocío” – com sua atmosfera flamenca irreverente – eis que surge a próxima festa animada.
Mais uma vez, o inconfundível som das Bahamas se une ao puro fogo andaluz: guitarras, palmas, o calor cru do flamenco misturado com linhas de metais encorpadas e bongôs vibrantes, criando um coquetel explosivo perfeito para bares de praia, clubes e rádios. “Rumba Loca” é flamenco em sua forma mais selvagem – intenso e divertido, tradicional e totalmente “Bahama”, com seu toque de Midas inconfundível que brinca com os clichês que amamos.

Comentário de Bahama Soul Club

➔ Todd Mosby - "Palomino" - (ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA)
A canção de samba “Palomino” é inspirada na minha infância, que passei cavalgando e cuidando dos cavalos na fazenda da nossa família. É uma bossa nova galopante, rica em harmonia, no estilo de Antônio Carlos Jobim, mas com trechos que trazem mudanças de acordes inesperadas, vocais de fundo que se elevam e linhas melódicas marcantes e cheias de energia. A faixa oferece a mistura perfeita de sofisticação musical e aconchego do dia a dia. Essa música presta tributo aos cavalos em geral e ao Palomino em particular. Um animal lindíssimo, o cavalo traz muita sabedoria e graça à terra em que pasta, e essa canção é uma homenagem a eles e à sensação de montar um desses grandes animais.
Eu adoro escrever músicas descritivas, que também lembram a música de programa impressionista que era popular em sua época. Quando componho, geralmente começo com uma progressão de acordes interessante, que inspira a improvisar em cima, e logo em seguida vem uma ideia melódica. Essa música incorpora alguns dos meus tipos de acordes favoritos: acordes min9, acordes maior 7, diminutos, colocados dentro de uma estrutura de progressões ascendentes e descendentes. Tive uma influência bem cedo ouvindo o primeiro álbum do Hermeto, ao qual Palomino presta uma homenagem distante. Debussy, Jobim e Hermeto também usaram a escala diminuta de maneiras muito interessantes. Nos últimos quatro compassos antes de voltar ao início da música e ao vamp final, eu incorporo esse som e essa escala únicos na composição como uma ponte e um encerramento melódico diminuto estendido.
Palomino foi gravada ao vivo no estúdio, sem overdubs. Ficamos com a terceira tomada, e os vocais foram gravados depois. Tocar esse arranjo com músicos de nível mundial faz tudo soar melhor. Tive o Tom Scott no aerofone, Vinnie Colaiuta na bateria, Michael Manring no baixo fretless, Dapo Torimiro no Crumar Rhodes, eu na guitarra archtop e Lola Kristine e Laura Vall nos vocais. O saudoso e grande Milt Hinton (o baixista mais icônico da história do jazz) uma vez me disse que a música só é tão boa quanto seu elo mais fraco. Acho que a corrente estava bem forte nessa sessão. Gravamos a faixa no estúdio D do The Village Studios, em Los Angeles. É um dos estúdios de gravação mais icônicos da cidade. Praticamente todos os grandes álbuns dos últimos 80 anos foram gravados lá, incluindo Aja do Steely Dan, o primeiro álbum de Crosby, Stills and Nash, Fleetwood Mac (para quem o estúdio D foi originalmente construído), Eric Clapton, Neil Young, John Mayer, Elton John, Sting, entre muitos, muitos outros.

Comentário de Todd Mosby

➔ Robson Aparecido - "Samba do novo amanhecer" - (BRASIL)
O “Samba do novo amanhecer” foi uma composição que considero fruto de uma guinada musical voltada para o passado da minha infância. Comecei a tocar na adolescência, motivado por Raul Seixas, Legião Urbana, mas principalmente pelo Nirvana. Depois de tocar muito grunge, formei uma banda com amigos para tocar alguns covers na linha do Glam Rock e do Proto-Punk, como Stooges, MC5, Bowie e T-Rex. Era sensacional!
As composições vieram em seguida, mas só consegui lançar um disco inteiramente com minhas letras em 2023, com a banda Namastex. Ali, a música brasileira e o rock que eu tocava antes se misturaram, e foi uma aventura bacana. Porém, eu já estava imerso no som brasileiro, pesquisando a exuberância do nosso cancioneiro. Fui me aprofundando no trabalho de Marcus Pereira, nosso grande guardião excelsior do que temos de melhor na pátria musical. Eu estava vibrando com as raízes brasileiras.
Nesse contexto, surgiram três novas composições, entre elas o “Samba do novo amanhecer”. O interessante é que o estilo desse samba-canção era o mesmo que eu ouvia quando meu avô cantava. Além disso, vivi até os 16 anos na Zona Leste, onde acompanhava o time amador Botafogo de Guaianases, com muito samba, futebol e amor! Ônibus com bandeiras alvinegras saíam do extremo da Zona Leste da capital paulista em direção ao antigo estádio da CMTC, no bairro da Armênia, para os jogos do programa “Desafio ao Galo”, transmitido pela TV Record. Um clássico!
Eu realmente me entreguei a toda essa atmosfera. Nas apresentações de meu avô, que era um excelente cantor, no estilo bel canto . Aliás, ele era irmão de João Gonçalves , o “rei do forró de duplo sentido”, autor de Severina Xique-Xique . Por fim, acredito que essa seja uma composição de um roqueiro psicodélico que cresceu — e voltou a ser criança. Inclusive, nas gravações, por mera coincidência, ele estava com uma camiseta dos Ramones. Abraços e espero que gostem do nosso trabalho.

Comentário de Robson Aparecido

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Fundador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Apaixonado pelo Brasil e por seus grandes artistas.