17 de maio de 2026

A GÊNESIS DA CANÇÃO (#17)

A GÊNESIS DA CANÇÃO é uma fusão das versões focadas em processo criativo das listas ALÉM DA BR (lançamentos internacionais) e LUPA NA CANÇÃO (nacionais), que agora É oficialmente editorias. Sob este domínio, já publicamos e desbravamos em torno de 4 mil lançamentos, de brasileiros e de artistas mundo afora.

Vale dizer que o conteúdo aqui apresentado tem exclusividade da ARTE BRASILEIRA, escrito sob encomenda. A sequência foi escolhida via sorteio, ou seja, não há “melhores e piores”.

➔ Janet Devlin - "Working For The Man" - (IRLANDA)
"Working for the Man" foi escrita num dia cinzento e chuvoso em Londres. Eu estava compondo com o adorável Jack Savoretti num apartamento na Portobello Road. Eu tinha apenas 17 anos e era bem inexperiente em compor músicas com outras pessoas. Então, naturalmente, eu estava um pouco nervoso. Principalmente porque eu já era um grande fã do trabalho do Jack. Fizemos duas músicas nos dois dias em que compusemos juntos: "Delicate", que entrou no meu álbum de estreia, e "Working for the Man", que infelizmente não entrou. Digo infelizmente porque sempre foi uma das minhas favoritas e também uma das favoritas dos fãs. Tanto que, nos últimos 13 anos, ainda a toco em shows. Mas eu sabia que, quando chegasse a hora certa, eu finalmente a gravaria e lançaria. Honestamente, a música se escreveu sozinha. Parecia um daqueles momentos em que o universo simplesmente pega a caneta e escreve para você. Assim que coloquei a caneta no papel, as palavras fluíram em cerca de uma hora e meia.
Desejo de independência. Vindo direto da escola, onde você sente que não tem controle de nada. Você sabe onde tem que estar e quando tem que estar lá. Cronogramas de provas, cronogramas de revisão, cronogramas de tarefas de casa. Você é colocado em um sistema que dita seu caminho na vida e a pressão que vem com ele. Eu passei disso para a TV de realidade. O que, na verdade, tornou o processo de participar da televisão muito mais fácil de lidar. Eu estava acostumado a receber ordens sobre para onde ir, a que horas pegar o ônibus e a seguir uma rotina rígida. Novamente, aquela sensação de pressão de "meu futuro depende disso". Embora eu nunca tivesse tido um emprego, eu estava muito familiarizado com a sensação de estar preso em uma "corrida dos ratos". Quase perdendo de vista minha própria identidade e quem eu era como indivíduo. Honestamente, acho que é por isso que lutei tanto e escolhi o caminho que escolhi - o de ser um artista independente. Mesmo depois de muitos anos, ainda é difícil e eu não sou rico de forma alguma, estou vivendo e morrendo pela minha própria espada. De forma alguma estou tentando dizer que trabalhar das nove às cinco é uma coisa ruim. Não é. Acho que também fui influenciada pelas experiências dos meus pais. Ambos tinham empregos em tempo integral e ainda cuidavam de quatro filhos com menos de cinco anos. Eu via o quanto eles trabalhavam para conquistar o que tínhamos na vida e o quanto estavam exaustos por causa disso. De muitas maneiras, eu sentia raiva por eles. Raiva do sistema em que vivemos. Que eles pudessem trabalhar incansavelmente para colocar dinheiro no bolso de outra pessoa. Obviamente, esse sistema não mudou desde que escrevi a música. Ainda me deixa furiosa. É por isso que a música ainda me parece tão verdadeira e relevante, tantos anos depois.
Na minha última viagem a Nashville, gravei 22 músicas em 3 dias. Essa música TINHA que ser uma delas. Como já tinha ido lá algumas vezes para gravar, eu sabia que os músicos iam arrasar... e arrasaram mesmo. Foi mágico ouvir a música que eu amo há tanto tempo finalmente ganhar vida. Passar de uma pequena demo gravada no meu laptop com o Jack, no GarageBand, para uma banda completa ao vivo no Blackbird Studios. Foi como fechar um ciclo. Se eu, aos 17 anos, tivesse uma bola de cristal, poderia ter previsto onde a música chegaria. E não só isso, mas também ter um dos meus ídolos, Vance Powell, mixando a música em Nashville. Lembro da banda me elogiando quando ouviram a música pela primeira vez. E ficaram meio surpresos quando eu disse que a tinha escrito aos 17 anos e que nunca tinha trabalhado até então.
Em relação à direção da música, nem me lembro de ter precisado falar muito. Acho que a emoção da demo e o contexto da letra já indicavam como a música soaria. É necessariamente country? Provavelmente não. Mas a abordagem musical pareceu tão adequada ao clima que eu queria transmitir. Não pensei demais nisso, nem a banda.
Levei a faixa de volta para Londres para gravar os vocais. Como era de se esperar, estava chovendo. Mas estava chovendo tão forte que o microfone captava o som. Acabei abrindo a porta, sentando no chão e gravando a chuva para criar um ambiente. Sem imaginar que isso entraria na versão final da música. Para minha surpresa, quando ouvi o Vance mixando, ele tinha mantido os sons da chuva. O que é uma referência perfeita à demo, porque dá para ouvir a chuva batendo nas claraboias durante toda a faixa.

Comentário de Janet Devlin

➔ The Yum Yum Tree - "Turn Down the Noise" - (ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA)
Escrevi isto numa época em que me sentia afundando, mas decidi que não tinha medo de falhar, mesmo que fosse de forma ruidosa e pública. Percebi que precisava mergulhar de cabeça e presumir que tudo daria certo de alguma forma. E se não desse, haveria mais sobre o que escrever.

Comentário de Andy Gish (The Yum Yum Tree)

➔ Tim McInnes - "Real Reel" - (CANADÁ)
A melodia de "Real Reel" ficou martelando na minha cabeça por semanas. Ela me lembrou outra música. Depois de pesquisar um pouco, descobri qual era: "All My Loving", dos Beatles.
Se você cantarolar qualquer trecho de "Real Reel", encontrará semelhanças com "All My Loving". Eu não queria que soasse muito parecido com a música dos Beatles, e com certeza não queria ser processado por Paul McCartney, então mudei alguns acordes e toda a cadência da melodia.
A música se tornou instrumental — uma reel canadense para violino. É semelhante às reels que tocam na costa leste do Canadá, só que muito mais lenta. Eu queria que a melodia soasse mais lírica.
Eu toco piano, ukulele e banjolele (usando síncope) na música. Meu amigo Kelvin Enns, que mora a apenas quatro casas de distância, tocou violino. O resultado foi uma música fácil de ouvir, com uma vibe alegre. É uma "Real Reel" no sentido de que nenhuma IA foi usada. Todos os instrumentos foram tocados de forma orgânica. É simplesmente uma música divertida.

Comentário de Tim McInnes

➔ The Wheel Workers - "Fine Time (Live)" - (ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA)
“Fine Time” surgiu de uma colisão entre som e tema — começando não pelas letras, mas por uma sensação. A música nasceu daquele acorde de trítono dissonante na guitarra, um intervalo deliberadamente instável e sem resolução, que parecia exigir tensão. Esse início se tornou o ponto de partida emocional: algo inquieto, algo à beira do colapso, algo que se recusa a se acomodar. A partir daí, a banda mergulhou nessa instabilidade, deixando-a explodir em um riff pesado, com influência grunge, ao mesmo tempo catártico e confrontador.
Liricamente, a música foi inspirada por uma frustração crescente com os ciclos recorrentes de guerra e os sistemas que os perpetuam. Em vez de abordar o tema com solenidade, a composição adotou um tom mais afiado e irônico — canalizando a raiva através do sarcasmo. Versos como “hark the herald profits sing” cristalizam essa perspectiva, reinterpretando imagens tradicionais de forma inquietante e acusatória. A intenção não era apenas protestar, mas expor o absurdo e as contradições presentes na engrenagem do conflito.
Os versos refletem uma sensação de imediatismo caótico — pensamentos fragmentados, imagens viscerais e perguntas diretas sobre crença, violência e obediência. Há uma sensação de estar sobrecarregado pelo ruído das certezas, onde a própria convicção se torna perigosa. Essa ideia — “certainty’s a deadly thing” — se torna um fio condutor, conectando o pessoal ao político. O narrador não observa o caos de fora, mas está imerso nele, tentando compreender forças muito maiores do que ele.
Musicalmente, a banda apostou em uma energia crua e ao vivo para refletir essa urgência. Gravar a faixa como parte de Live from the Attic reforçou essa abordagem — sem overdubs, sem polir imperfeições, apenas a banda reagindo em tempo real. Essa decisão amplificou a intensidade da música, fazendo com que ela soe menos como uma declaração construída e mais como um momento que se desenrola diante do ouvinte. A tensão entre contenção e explosão tornou-se essencial para a identidade da faixa.
No fim, “Fine Time” define o tom não apenas do EP, mas da direção criativa mais ampla do projeto. É uma música enraizada na tensão — entre som e silêncio, raiva e ironia, controle e caos. Nesse sentido, funciona tanto como uma declaração inicial quanto como um alerta: um reflexo de um mundo que parece constantemente à beira do colapso, e de uma banda que escolhe encarar essa realidade de frente, em vez de ignorá-la.

Comentário de The Wheel Workers

➔ Solid Plant Records - "FEEL LIKE HOME" - (ALEMANHA)
"Feel Like Home" nasceu de um lugar muito pessoal. A ideia surgiu da sensação simples, mas poderosa, de encontrar alguém que traz calma para um mundo caótico. Em vez de focar em uma narrativa dramática, a música captura o conforto silencioso da segurança emocional, aquele momento em que tudo desacelera e você finalmente se sente em casa.O processo criativo foi intencionalmente minimalista. Queríamos deixar espaço para a emoção e para a melodia, permitindo que o ouvinte se conecte diretamente com o sentimento, sem ser sobrecarregado pela produção. A inspiração veio de momentos reais, em que a conexão é sutil, mas profundamente significativa. Com "Feel Like Home", o objetivo foi criar algo caloroso, honesto e atemporal, uma música íntima, relacionável e naturalmente reconfortante.

Comentário de Solid Plant Records

administrator
Fundador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Apaixonado pelo Brasil e por seus grandes artistas.