25 de junho de 2026

A GÊNESIS DA CANÇÃO (#21)

A GÊNESIS DA CANÇÃO é uma fusão das versões focadas em processo criativo das listas ALÉM DA BR (lançamentos internacionais) e LUPA NA CANÇÃO (nacionais), que agora É oficialmente editorias. Sob este domínio, já publicamos e desbravamos em torno de 4 mil lançamentos, de brasileiros e de artistas mundo afora.

Vale dizer que o conteúdo aqui apresentado tem exclusividade da ARTE BRASILEIRA, escrito sob encomenda. A sequência foi escolhida via sorteio, ou seja, não há “melhores e piores”.

➔ Leandro Serizo - "MOSTEIRO DO ABISMO" - (BRASIL)
“Mosteiro do Abismo” é uma canção muito especial pra mim porque nasce de um percurso emocional bem concreto: um deslocamento entre dor e uma tentativa de encontrar algum tipo de êxtase ou sentido. A primeira parte da letra surgiu a partir de uma experiência de desejo não correspondido, esse lugar onde você se recolhe e começa a girar em pensamentos, tentando entender o que sente. Já a segunda parte apareceu durante um retiro de meditação Vipassana, onde tive contato com um outro tipo de escuta interna, mais silenciosa e menos reativa. Essas duas experiências, embora muito diferentes, acabaram se encontrando na música e foram fundamentais para o que ela se tornou.
A imagem do “mosteiro do abismo” vem justamente desse paradoxo. O mosteiro como um espaço de silêncio, introspecção e cuidado, mas que ao mesmo tempo pode se tornar um abismo — um lugar onde você se perde dentro de si. A música nasce desse conflito entre lucidez e colapso, entre o desejo de se entender e o risco de se afundar nas próprias questões. De certa forma, ela fala sobre essa trajetória de quem está buscando algo mais profundo na vida, mesmo sem ter respostas claras, tentando construir algum tipo de sentido em meio às contradições e à fragmentação do mundo contemporâneo.
Durante muito tempo, cantar não foi um lugar de liberdade pra mim — era algo difícil, quase travado. Quando entrei na faculdade de música, tive que encarar essa relação de frente e entender o que estava bloqueado ali. Esse processo passou muito por me reconectar com o corpo, com os meus desejos e com as minhas próprias fragilidades. “Mosteiro do Abismo”
surge também desse lugar: de usar a voz não como algo técnico ou resolvido, mas como uma forma de atravessar estados internos. Cantar virou um gesto de tentativa, de busca, de reorganização.
A canção ganhou uma nova dimensão no trabalho coletivo com os produtores Quico Dramma e Granadeiro Guimarães, além da minha banda. Nos ensaios, fomos construindo o arranjo de forma muito orgânica, trazendo elementos que ampliaram essa atmosfera mais ritualística e emocional. Minhas referências passam pela melancolia do Radiohead, pela construção mais espiritual e atmosférica do Dead Can Dance, e também pela forma como artistas como Gilberto Gil, Dominguinhos e Milton Nascimento conseguem dizer coisas profundas de maneira sutil, com leveza e profundidade ao mesmo tempo.
O clipe veio como uma extensão natural desse universo. Com direção de Stephanie Rios e captação e iluminação de Fernanda Ferreira, ele foi pensado como um percurso simbólico, mais sensorial do que narrativo, inspirado no cinema ritualístico. A escolha da locação foi central: filmamos em um prédio histórico de Campinas, construído no final do século XIX para o tratamento de seda e algodão por imigrantes americanos que chegaram à cidade durante a Guerra da Secessão. Décadas depois, o espaço funcionou como escola pública, carregando até hoje marcas dessas diferentes camadas de uso. Essa mistura de passado industrial, memória educacional e estado de abandono trouxe uma atmosfera muito forte, como se o próprio espaço já estivesse em transformação. No fim, “Mosteiro do Abismo” é sobre isso: tentar criar um lugar de escuta e reorganização em meio ao caos, onde silêncio e ruído possam coexistir.

Comentário de Leandro Serizo

➔ Christopher Jack - "Watch you Cry" - (ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA)
Esta música foi inspirada por Beck. Sua habilidade de pegar uma melodia folclórica e torná-la moderna. Trata-se de dar às pessoas permissão para serem vulneráveis ​​e humanas. A música deve trazer paz interior e aceitação. Espero ter criado algo que faça as pessoas se sentirem humanas novamente.

Comentário de Christopher Jack

➔ TWITCH MORRISON - "STILL HERE" - (ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA)
A música “Still Here” foi produzida inteiramente em casa, no formato acústico. É uma música popular do NO LIMITATIONS que realmente chamou a atenção do público nos shows ao vivo, e eu queria adicionar um toque de intimidade. A linha de baixo da introdução é uma das minhas favoritas, definitivamente uma especialidade do Twitch! O refrão dessa música foi completamente improvisado enquanto eu dirigia para o estúdio na primeira vez que a gravamos. Estou muito orgulhoso da música! Este ano, lançarei mais músicas solo acústicas.

Comentário de Twitch Morrison

➔ Marcos Jobim - "Silêncio" - (BRASIL)
A canção nasce do riff executado no violão, mas que poderia perfeitamente ter sido criado em uma guitarra elétrica, visto que sua inspiração está ancorada nas influências roqueiras que tenho desde o momento em que comecei a me relacionar com a música como instrumentista. O riff é o centro da canção e é a partir dele que tudo se justifica e se movimenta.
Há muito tempo venho refletindo profundamente sobre o valor do silêncio como elemento essencial para a percepção do som. Creio que estamos nos acostumando perigosamente com o barulho. O silêncio promove um encontro consigo mesmo e talvez seja esse o motivo do medo que a sociedade atual apresenta em se deparar com a ausência de som. Percebo também um problema gradual de comunicação, em que todos querem falar antes de ouvir. A possibilidade que as redes sociais nos deram de opinar sobre todos os fatos cotidianos trouxe um excesso de voz e uma menor paciência para a escuta. Creio que essas reflexões tenham me induzido inconscientemente a focar no silêncio como uma palavra constante em meus versos. O primeiro verso do álbum (na faixa 2 “Amálgama”, já que a primeira faixa é instrumental) diz “silêncio e som”. Ali já coloco a dualidade. A dualidade não necessariamente conduz à repelência de polos, podendo os elementos opostos conviverem como se um contivesse o outro em sua essência, tal qual um amálgama. O som contém silêncio e vice-versa. Na faixa 4, temos “Silêncio”. O silêncio aqui é tudo aquilo que está contido, que às vezes tem a potência de um grito, mas que se expressa em versos silenciosos. Também é o silêncio que merece contemplação e atenção: há um universo inteiro expressado no silêncio. A canção convoca o espectador a ouvir o silêncio e sentir num abraço tudo aquilo que não precisa ser dito.
É preciso dizer que isso não implica que esse seja um álbum silencioso. Pelo contrário, há nele uma grande riqueza de elementos que se sobrepõem e preenchem o espaço sonoro. Muitas faixas têm um quê de trilha sonora. E é aí que considero a grande graça desse trabalho, pois há um exercício poético interessante para assinalar o silêncio sem cair num clichê de literalmente silenciar-se.

Comentário de Marcos Jobim

➔ Tomas Rodriguez - "Reflection" - (ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA)
Reflection é uma peça que compus após o falecimento do meu pai. Consiste em uma figura de abertura — uma chamada — que também serve para encerrar a obra. Essa simetria tem um significado intencional: demarcar o começo e o fim da vida, o nascimento e a morte, sugerindo que não há separação real entre ambos. Minha inspiração musical para essa figura foi o início da Valsa de Eurídice, de Tom Jobim, especificamente a versão de Baden Powell, na qual se escutam seis acordes descendentes de quatro notas nas primeiras quatro cordas do violão — as cordas 4, 3, 2 e 1.
O corpo principal da obra divide-se em quatro seções, cada uma com seu próprio papel e mensagem. O tema A é alegre, com um ar de celebração, apoiando-se na linguagem violonística da valsa venezuelana, especialmente em Andreína, de Antonio Lauro. O tema B oferece uma pausa melódica que flutua sobre uma figura predominantemente rítmica. As seções C e D trabalham em contraste mútuo, introduzindo uma linguagem levemente aflamencada, com sugestões harmônicas e gestuais de uma bulerías — ainda que distante de seu compasso típico — culminando em um fechamento flamenco tradicional sobre a escala frígia. A partir daí, introduzo uma nova figura de arpejos descendentes, desta vez de caráter rítmico, que dialoga com a ideia da introdução sem repeti-la.
O título possui um duplo significado: por um lado, Reflection como um olhar para o passado; por outro, como reflexo de luz. Dessa forma, busco traçar um retrato musical do processo de perda e luto — não como um estado único de tristeza, mas como uma multiplicidade de emoções e cores: a memória, a compreensão e, finalmente, a alegria e a gratidão.

Comentário de Tomas Rodriguez

administrator
Fundador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Apaixonado pelo Brasil e por seus grandes artistas.